Marcelo Fedeli

Sumário

  1. Anotações “esquecidas” I: Preparação para o Concílio Vaticano II
  2. Anotações “esquecidas” – II: Padre Congar e Lutero
  3. Anotações “esquecidas” III: A Importância do Latim na Liturgia
  4. Anotações “esquecidas” IV: Jean Guitton, amigo de Mons. Montini (Paulo VI)
  5. Anotações “esquecidas” V: Jean Guitton, amigo de Paulo VI, não era católico
  6. Anotações “esquecidas” VI: Guiton dá diretrizes a João XXIII para o Concílio Vaticano II
  7. Anotações “esquecidas” VII: O Concílio Vaticano II e o Modernismo: parecer de Jean Guitton
  8. Anotações “esquecidas” VIII: Dogmas da nova religião: a “Basic Religion”
  9. Anotações “esquecidas” IX: Jean Guitton, católico ou espírita?
  10. Anotações “esquecidas” X: O modernista Jean Guitton afirma: a “nova Missa” de Paulo VI parece a tradução de um serviço protestante
  11. Anotações “esquecidas” XI

 

Anotações “esquecidas” I: Preparação para o Concílio Vaticano II

 

Remexendo “velha” gaveta, uma daquelas em que dorme no sono do esquecimento imensa papelada que um dia, cientes da importância de guardar notícias de jornais, anotações e comentários de livros, começamos a recheá-la, deparei com curiosas notícias do longínquo 1959/60, e anotações posteriores, a respeito da preparação do Concílio Vaticano II.

Um desbotado recorte de jornal, por exemplo, trazia como título: “Bispos do mundo inteiro são consultados para os temas do futuro Concílio”. E continuava: “João XXIII ordenou ao cardeal Tardini, Secretário de Estado e Presidente da Comissão Preparatória do Concílio Vaticano II, a realizar uma vasta consulta ao episcopado do mundo inteiro, para indicar os temas a serem discutidos. Tardini enviará 2593 cartas a todos os prelados para que, numa atmosfera de discussão democrática, franca e aberta, como quer o Papa, indiquem suas proposições”.

Reforçando aquela notícia, havia algumas anotações extraídas do livro A Utopia do Papa João, de Giancarlo Zizola, mostrando a intenção do Papa naquele episódio: “garantir ampla representatividade do episcopado mundial, e eliminar a influência direta da Cúria Romana.”

Hoje dir-se-ia que o Papa pretendia prestigiar a tão badalada Colegialidade, para que, democraticamente, todos manifestassem suas preocupações e anseios, e assim partilhassem do governo da Igreja.

O curioso foi que os textos apresentados pelos bispos ao cardeal Tardini, segundo Zizola, eram:

“Uma composição internacional e eclética. Mas o resultado a que chegaram – totalmente assíncrono, comparado com o andamento indicado por João – constituiu a primeira prova evidente de que uma representatividade assaz universal geograficamente, não era critério suficiente para a renovação a que o Concílio houvera devido tender. Os textos resultantes permitiam ajuizar que o Concílio seria uma reafirmação do todo o dogma e de toda a moral…” (cf. A Utopia do Papa João, G. Zizola, Ed. Loyola, S. Paulo, 1983, pg. 307).

Prossegue Zizola, citando Antoine Wenger (à época do Concílio, diretor do jornal La Croix, e o único jornalista admito na basílica de S. PedroAutor do livro “Vatican II, Chronique de la première session”, Centurion, Paris 1963):

“O Concílio, nos moldes que o Papa deixara entrever, era coisa bem diversa daquilo que os trabalhos preparatórios deixavam prever. Todos os que tinham conhecimento deste trabalho ficavam impressionados pelo caráter dogmático, acanhado, escolástico dos textos. Muito ao invés de representarem um progresso, algumas formulações referentes à Revelação, à ordem moral, aos problemas do matrimônio, acabavam sendo um retrocesso, quando comparadas à teologia formulada pelo Magistério, e especialmente pelo Papa Pio XII.” (op. cit. pg. 308).

Porém, continua Zizola, “Se é verdade que, de fato, por baixo da casca do organismo eclesiástico, uma surda germinação evocava um Concílio renovador, e secretamente lhe preparava o terreno, por outro lado também é verdade que o anúncio do Concílio apanhara o mundo católico despreparado. Poucos eram os espíritos que tinham consciência da vastidão da crise religiosa em curso; correntes* reformadoras pulsavam no corpo do catolicismo, mas de forma erradia, clandestina, farejadas por rastreamentos intelectuais mais ou menos declarados: o anúncio do Concílio foi a primeira oportunidade para essas correntes* encontrarem um centro de condensação e manifestação, de reabilitação e expressão pública a serviço oficial de toda a Igreja” (op. cit. pg. 309).

A contra gosto, interrompi a remexida na “velha” gaveta. Precisei atender à porta, onde um risonho grupo de luteranos distribuía convites “aos homens de boa vontade”, para um culto ecumênico, programado para o próximo sábado, em seu templo, com a presença de representantes de diversas confissões religiosas“Será uma manifestação fraterna e um exemplo da pluralidade religiosa da comunidade do nosso bairro, para os homens do nosso tempo; o cerimonial litúrgico será presidio pelo pastor Jonas, pelo padre Toninho, pelo rabino Probell e pelo Pai-de-Santo Tião”, disseram. “Venha compartilhar da nossa pastoral comunitária”, estava escrito.

Retornei à minha sala e, enquanto fechava a “velha” gaveta, passou-me pela cabeça: afinal, os temas tratados no Concílio Vaticano II, de fato, foram aqueles que o Colegiado episcopal democraticamente apresentou, ou foram os que as correntes reformadoras, secreta e clandestinamente, prepararam?

Quem triunfou: a ala que queria a Colegialidade, tão decantada em nossos dias, ou ala que trabalhou clandestina e secretamente. Ou será que a ala que trabalhou clandestina e secretamente também queria a Colegialidade?

[* Sobre tais correntes clandestinas, ver: Le Rhin se jette dans le Tibre, do Pe. Ralph M. Wiltgen, s.v.d., Éditions du Cèdre – Paris, 1976].

***

Anotações “esquecidas” – II: Padre Congar e Lutero

 

Como domingo chovia, e esfriara, resolvi arrumar novamente aquela “velha” gaveta, entulhada de velhos recortes de jornais e anotações de todo o tipo.

À superfície da primeira camada daquele “entulho” de papeis, algumas amareladas folhas de caderno, dobradas, aguçaram minha curiosidade. Abri-as com cuidado, para não rasgá-las no surrado vinco, e lá jaziam citações de Martinho Lutero, aquele ex monge que, rebelando-se contra o Papa e contra a Tradição milenar da Santa Igreja, fundou uma nova religião, de cunho pastoral, sem dogmas, sem Nossa Senhora, sem santos, sem purgatório, com o livre exame e a Bíblia, por ele devidamente revisada, com nova missa, etc: o Protestantismo.

Parei a arrumação e passei a ler as afirmações do antigo apóstata Lutero. Ei-las:

  • Sobre a Missa:

“Quando a missa for revirada, acho que nós teremos revirado o papado! Porque é sobre a missa, como sobre uma rocha, que o papado se apoia totalmente, com seus mosteiros, seus bispados, seus colégios, seus altares, seus ministérios e sua doutrina…Tudo isto desabará quando desabar sua missa sacrílega e abominável” (Lutero).

(Père Barrielle, Avant de mourir, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi – Daniel Raffard de Brienne – 1983 – http://amdg.free.fr/lexorand.htm).

  • Sobre o Ofertório:

“Segue toda esta abominação à qual se submete tudo aquilo que precede. É o que denominamos de Ofertório, e tudo, nele, exprime a oblação” (Lutero).

(Henri Charlier, La messe ancienne et la nouvelle D.M.M., 1973, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi – Daniel Raffard de Brienne – 1983).

  • Sobre o Canon:

“Este abominável cânon, que é uma coletânea de lacunas lodosas; … fez-se, da Missa, um sacrifício; acrescentaram-se os ofertórios. A Missa não é um sacrifício ou a ação de um sacrificador. Olhemo-la como sacramento ou como testamento. Chamemo-la de benção, eucaristia, ou mesa do Senhor, ou Ceia do Senhor ou Memória do Senhor” (Lutero).

(Luther, Sermon du 1er dimanche de l’Avent, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne – 1983).

  • Sobre a tática a seguir, para a implantação da sua nova missa:

“Para chegar segura e felizmente ao objetivo, é preciso conservar algumas cerimônias da antiga missa, para os fracos, que poderiam se escandalizar com mudanças demasiadamente bruscas” (Lutero).

(Père Barrielle, La messe catholique est-elle encore permise?, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

“O padre pode, muito bem, atuar de tal modo que o homem do povo ignore sempre a mudança realizada e possa assistir a missa, sem encontrar com o que se escandalizar” (Lutero).

(Jacques Maritain, Trois Réformateurs, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

  • Sobre o sacerdócio:

“Que loucura querer monopilizá-lo para alguns” (Lutero).
(Para ele o sacerdócio não era restrito aos padres, mas compartilhado por todos os fiéis).

(Léon Cristiani, Du luthéranisme au protestantisme, 1910, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

  • Sobre seu comportamento:

“Eu estou, da manhã à noite, desocupado e bêbado. Você me pergunta por que eu bebo tanto, por que eu falo tão galhardamente e por que eu como tão frequentemente? É para pregar uma peça ao diabo que se pôs a me atormentar”. É bebendo, comendo, rindo, nessa situação, e cada vez mais, e até mesmo cometendo algum pecado, à guisa de desafio e desprezo por Satanás, procurando tirar os pensamentos sugeridos pelo diabo com o auxílio de outros pensamentos, como, por exemplo, pensando numa linda moça, na avareza ou na embriaguês, caso contrário ficarei muito raivoso.” (Lutero).

(Marie Carré, J’ai choisi l’unité – D.P.F., 1973, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi, Daniel Raffard de Brienne 1983).

“Eu tive até três esposas ao mesmo tempo.” (Lutero).
(Dois meses após ter dito isto, Lutero se casa com uma quarta mulher, uma freira).

(Guy Le Rumeur, La révolte des hommes et l’heure de Marie 1981, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi – Daniel Raffard de Brienne 1983).

  • Sobre a Igreja:

“Se nós condenamos os ladrões à fôrca, os assaltantes ao cadafalso, os hereges à fogueira, por que não recorremos, com todas as nossas armas, contra esses doutores da perdição, esses cardeais, esses papas, toda essa sequela da Sodoma romana, que não para de corromper a Igreja de Deus? Por que não lavamos nossas mãos no seu sangue?” (Lutero).

(Hartmann Grisar, Martin Luther – La vie et son oeuvre – 2ª ed. – Ed. P. Lethielleuz – Paris -1931).

  • Sobre Deus:

“Certamente Deus é grande e poderoso, e bom e misericordioso, e tudo quanto se pode imaginar nesse sentido, mas é estúpido” (Lutero).

(Id. Propos de Tables – no. 963, ed. De Weimar, I , 487).

  • Sobre Nosso Senhor Jesus Cristo:

“Pensais, sem dúvida que o beberrão Cristo, tendo bebido demais na última Ceia, aturdiu os discípulos com vã tagarelice?” (Lutero).

(Funk Brentano, Martim Lutero, Casa Editora Vecchi – 1956 – pg. 135)

“Cristo cometeu adultério pela primeira vez, com a mulher da fonte, de que nos fala S. João. Não se murmurava em torno dele: «Que fez, então com ela?» Depois com Madalena, depois com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer” (Lutero).

(Funk Brentano, Martim Lutero, Casa Editora Vecchi – 1956 – R.J.- Propos de Tables – no. 1472, ed. De Weimar II.107).

[Com profunda dor na alma, transcrevo essas afirmações tão sacrílegas, tão ultrajantes, inomináveis, feitas à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, o Verbo Incarnado, Nosso Senhor Jesus Cristo. Só Ele, Nosso Senhor, sabe quem o ofendeu mais: se Lutero, que fez tais declarações, ou quem, posteriormente, o elogiou.]

Haveria outras, mas…fiquemos por aqui!…

Talvez alguém pergunte, da mesma forma como eu me perguntei naquela fria manhã de domingo: por que teria eu guardado toda essa lama de escárnio a Deus, a Nosso Senhor Jesus Cristo, à sua Santa Igreja, tudo isso largamente sabido há 500 anos desse infeliz ex-monge?

A resposta a essa pergunta se encontrava na quinta e última folha: um deslavado elogio a Lutero feito, não por um ferrenho luterano, ou por protestante de qualquer seita, mas…pasmem!… por um sacerdote!!!… Sim!… Por um sacerdote!

E mais: não de um sacerdote qualquer, mas de um famoso, …famosíssimo teólogo!… conhecido de Monsenhor Montini desde 21 de maio de 1946, quando este último o orientou devidamente para evitar sérios problemas com Pio XII, após crítica que esse teólogo e o Pe. Féret publicaram na revista la Maison-Dieu, contra a nova versão latina do saltério, orientada pelo Papa de então, Pio XII.

Posteriormente, foi consultor e influente personagem do Concílio Vaticano II: o Pe. Yves Congar!

Eis o que disse de Lutero, o Pe. Congar:

“Lutero é um dos maiores gênios religiosos de toda a história. Eu o coloco, sob este aspecto, no mesmo nível de Sto. Agostinho, de S. Tomás de Aquino ou de Pascal. De certa forma, ele é ainda maior” (Pe. Y. Congar).

(Le Monde, 29-3-75, apud Lex Orandi: La Nouvelle Messe et la Foi – Daniel Raffard de Brienne 1983).

Deixei, de momento, Pascal de lado — não sei por que ele o juntou aos dois doutores da Igreja — e considerei somente a referência a Sto. Agostinho e a S. Tomás de Aquino.

Será que o teólogo Pe. Congar, consultor do Vaticano II, desconhecia aquelas declarações de Lutero? Será que ele desconhecia o que aquele herege pregou?

Em que teria se baseado o teólogo Pe. Congar para fazer tão absurda comparação e chegar àquela tão inconcebível conclusão: Lutero, gênio religioso… superior a S. Agostinho e S. Tomás!!!

Ele que, como sacerdote e teólogo, devia conhecer perfeitamente toda a virulência da doutrina luterana, bem como da sua devastadora ação nas almas e no organismo da Igreja, como pode fazer tal afirmação?

Se Lutero é realmente “superior” em genialidade religiosa a Sto. Agostinho e a S. Tomás, e sendo sua doutrina oposta à doutrina destes dois santos, a quem o Pe. Congar, pela sua afirmação, sugeriu aos católicos seguir? E os luteranos, depois de ouvir o Pe. Congar, acaso iriam analisar Sto. Agostinho e S. Tomás? Será que um teólogo e pastor luterano, ou de qualquer outra seita protestante, um dia poderá, porventura, mesmo em prol do decantado ecumenismo, fazer afirmação inversa à do teólogo católico Pe. Congar? Como reagiriam suas ovelhinhas?

Se ele, o teólogo Pe. Congar, acreditava de pés juntos no que afirmou, por que ele, então, não seguiu o exemplo do seu “superior gênio religioso”, o ex monge Lutero, abandonando a “Sodoma romana”, como seu “gênio” denomina a Igreja, da qual ele, como sacerdote, representava, tornando-se pastor e teólogo Luterano? Por que o Pe. Congar, apesar de reconhecer e alardear a superior “genialidade religiosa” de Lutero, expressa em sua doutrina reformista, fez questão de continuar atuando como sacerdote no seio da Igreja católica?

Desolado, assim pensava, quando me chamaram para o almoço. E, enquanto recolocava as terríveis anotações na “velha” gaveta, desta, furtivamente, um papel caiu ao chão. Pensei se tratar de um daqueles que lera…, mas não!… Não tinha nada a ver com Lutero, nem com o Pe. Congar: tratava-se de um estudo de medicina, de um dos meus filhos, sobre os vírus e sua devastadora ação quando instalados num organismo vivo.

Realmente, reina muita confusão na … “velha” gaveta!… Mas apreendi, no recorte de medicina, que os vírus mais perigosos são aqueles que estão no organismo vivo e não aqueles que já foram expurgados, ou excomungados.

Fui almoçar.

***

Anotações “esquecidas” III: A Importância do Latim na Liturgia

 

Não!… Não foi na minha “velha” gaveta em que, desta vez, “descobri” os textos abaixo. Eles me foram enviados por um velho sacerdote e amigo que, nestes tempos pós conciliares – imaginem – recita ainda, e diariamente, o breviário!… E em latim!…

Encontrei o amigo sacerdote casualmente no metrô, após vinte e tantos anos por ele passados em Roma, onde fora lecionar latim num determinado seminário. A conversa, naturalmente, voltou-se àquela língua que, antes do Concílio Vaticano II, mantinha a unidade, a elevação, a sacralidade e a solenidade da liturgia do rito romano, e possibilitava a qualquer fiel acompanhar a liturgia em qualquer país em que se encontrasse. Era a língua universal da Igreja, e o fiel, mesmo não tão letrado, sabia o que significam as palavras pronunciadas pelo sacerdote e pelo povo na liturgia de então. O que não acontece hoje com a utilização do vernáculo, comentou ele, que muitos fiéis não entendem nem mesmo o real significado das palavras em sua própria língua, com o agravante esfacelamento da unidade anterior.

Curiosamente, acrescentou, o documento “Sacrossantum Concilium”, lançando as bases da futura liturgia, para o progresso continuo da “vida cristã dos fiéis”, adaptando “a liturgia às necessidades da nossa época”… e pretendendo contribuir para “a união de todos os que creem em Cristo”, como consta do Preâmbulo daquele documento, estabeleceu em seu artigo 36 – “A Língua litúrgica”: “O uso da língua latina, salvo direito particular, será conservado nos ritos latinos”.

Porém, prosseguiu o venerando sacerdote, aquele salvo, serviu de brecha para a implantação do vernáculo na liturgia universal, anulando, praticamente, o disposto no mesmo artigo e quebrando a antiga unidade em nome da própria união. Ou seja, na prática, a exceção tornou-se regra, e esta foi completamente anulada, em nome de um melhor entendimento para o progressivo desenvolvimento do espírito cristão.

Acaso, nesta nossa época, só porque, por exemplo, os fiéis aqui no Brasil, ao antigo “Dominus vobiscum”, hoje respondem com o mal traduzido “Ele está no meio de nós”, entendem eles o real significado dessa resposta?… Faça um teste: pergunte a eles?… desafiou-me. E proseguiu: acaso, assim respondendo, verificou-se algum progresso da “vida cristã dos fiéis”?

Diante de tais comentários, e constatando, por exemplo, a queda vertiginosa nas vocações sacerdotais e o crescente e contínuo proliferamento de “seitas-negócio”, na sua maioria de caráter pentecostal, não só em S. Paulo, mas em todo o Brasil e mundo afora, bem como a ignorância generalizada da doutrina da Igreja entre os próprios católicos, infelizmente tive que concordar com ele.

Ao despedir-se, prometeu-me enviar alguns comentários sobre a importância do latim na liturgia, comparando-o ao vernáculo, pedindo-me, ainda, para não mencionar seu nome, “para evitar certos constrangimentos com meus colegas do clero, pois, como o senhor deve saber, a hierarquia eclesiástica dos nossos tempos, em nome do pluralismo religioso, admite e acata tudo… que não católico!… Mas, defender o latim na liturgia…” E desapareceu na estação do metrô.

Após alguns dias, eis o que dele recebi, com suas observações (em negrito):

« 1 – De S. Francisco de Sales, final do século XVI, contra os ensinamentos dos reformadores protestantes que, ainda dentro da Igreja Católica, defendiam a utilização do vernáculo na liturgia:

“Examinemos seriamente porque pretendem ter o Serviço divino em língua vulgar. Seria para ensinar a doutrina?” (…) “Para isto há a pregação, na qual a palavra de Deus, além de lida, é explicada pelo sacerdote… De modo algum nós devemos simplificar nossos ofícios sagrados em linguajar particular, pois, como nossa Igreja é universal no tempo e no espaço, ela deve também celebrar os ofícios públicos em língua também universal no tempo e no espaço.” (Controverses, 2ème partie, discours 25).

2 – Do Papa Alexandre VII, em 1661, contra o Jansenismo, que substituíra o latim pelo francês na liturgia:

“Alguns filhos da perdição, ansiosos por novidades para a perda das almas, chegaram a este cúmulo de audácia, de traduzir o Missal romano para o francês, originalmente escrito em latim, seguindo o costume aprovado pela Igreja há tantos séculos… Assim fazendo, eles tentaram, com temerário esforço, degradar os mais sagrados ritos, rebaixando a majestade que a língua latina os reveste, e expondo de forma vulgar a dignidade dos mistérios divinos” (Yves Daoudal, La liturgie enseignement sacré – Itinéraires, n° 263, mai 82).

3 – De Joseph de Maistre (embora filósofo, maçon, martinista e favorável às ideias gnósticas de Jacob Böehme e ao milenarismo), em 1819:

“Não convém a uma religião imutável utilizar qualquer língua mutável. O movimento natural das coisas atinge constantemente as línguas vivas… Se a Igreja falasse na nossa língua, alguém com atrevido espírito poderia tornar o mais sagrado da liturgia, em ridículo ou indecente. Sob os mais imagináveis aspectos, a língua religiosa deve ser sempre colocada acima do domínio do homem” (Du Pape, livre l ch. XX, apud Yves Daoudal).

4 – Do Papa João XXIII, na sua constituição Veterum Sapientiae, de 22 de fevereiro de1962:

4.1 – “… Não sem a disposição da Divina Providência, aconteceu que a língua ( latina), que por muitos séculos unira tantos povos sob o Império Romano, se tornasse a própria língua da Sé Apostólica e, preservada para a posteridade, reuniu num estreito vínculo, uns com os outros, os povos cristãos da Europa”

4.2 – “De fato, pela sua própria natureza, a língua latina está apta a promover junto a qualquer povo toda a forma de cultura; pois que ela não suscita invejas, apresenta-se imparcial a todos os povos, não se constitui em privilégio de ninguém, em fim é totalmente aceita e amiga.”

4.3 -“Não podemos esquecer que a língua latina tem nobreza de estrutura léxica, visto que oferece a possibilidade de « um estilo conciso, rico, harmonioso, cheio de majestade e de dignidade» (Pio XI, Epist. Ap. Officiorum omnium, 01/08/1922: A.A.S. 14), que de modo especial consegue clareza e gravidade”.

4.4 – “Por estes motivos a Santa Sé tem cuidadosamente zelado na conservação e progresso da língua latina e a considera digna de ser utilizada como « magnífica vestimenta da doutrina celeste e das santíssimas leis» (Pio XI, Motu Proprio Litterarum Latinarum, 20/10/1924), no exercício do seu magistério, e quer ainda que seus ministros a utilizem”.

4.5 – «O pleno conhecimento e uso dessa língua, tão ligada à vida da Igreja, não interessa tanto à cultura e às letras quanto à Religião» (Pio XI, Epist. Ap. Officiorum omnium, 01/08/1922), “como disse nosso Predecessor…; o qual, ocupando-se cientificamente do assunto, reuniu três dons desta língua, de modo admirável conforme a própria natureza da Igreja: «De fato, a Igreja, como mantém unidos na sua amplitude todos os povos e durará até a consumação dos séculos… requer, pela sua natureza, uma língua universal, imutável, não vulgar» (Ibidem).

4.6- “É necessário que a Igreja utilize uma língua não só universal, mas também imutável. Se, de fato, a verdade da Igreja Católica fosse confiada a algumas ou a muitas das línguas modernas, sujeitas a uma contínua mudança, as quais nenhuma tem maior autoridade e prestígio sobre as outras, resultaria sem dúvida que, devido à sua variedade, não ficaria manifesto para muitos com suficiente precisão e clareza o sentido de tais verdades, nem, por outro lado, se disporia de alguma língua comum e estável, para confrontar o sentido das outras”.

4.7- “… Enfim, visto que a Igreja Católica, por ter sido fundada por Cristo Nosso Senhor, excede sem medida em dignidade sobre todas as sociedades humanas, é sumamente conveniente que ela use uma língua não popular, mas rica de majestade e de nobreza”.

4.8 – “Além disso, a língua latina, que «justamente podemos chamar de católica» (ibidem), pois que é própria da Sede Apostólica, mãe e mestra de todas as Igrejas, e consagrada pelo uso perene, deve ser mantida como « tesouro de incomparável valor» (Pio XII, Alloc. Magis quam, 23/11/1951) e como porta pela qual se abre a todos o acesso às mesmas verdades cristãs, vindas dos tempos antigos, para interpretar o testemunho da doutrina da Igreja (Leão XIII, Epist. Encicl. Depuis le jour, 08/09/1899) e, finalmente, como vínculo mais que idôneo, mediante o qual a época atual da Igreja se mantem unida com os tempos passados e com os tempos futuros de modo admirável».

4.9 – “Em nossos dias, o uso do latim é objeto de controvérsia em muitos lugares e, consequentemente, muitos perguntam qual é o pensamento da Sé apostólica sobre este ponto. Por isso nós decidimos tomar medidas oportunas, enunciadas neste solene documento, para que o uso antigo e ininterrupto do latim seja plenamente mantido e restabelecido onde ele quase caiu em desuso.”

OBSERVAÇÕES:

A – Haveria mais trechos desse “solene documento” que poderiam ser citados. Mas… estes são suficientes.

B – Note que o Papa João XXIII escreveu aquele documento em fevereiro de 1962, quando decidiu “tomar medidas oportunas… para que o uso antigo e ininterrupto do latim”fosse “plenamente mantido e restabelecido…”. Coitado!… um ano e dez meses depois, em dezembro de 1963, o Vaticano II, deixando de lado tudo o que julgava antiquado, interrompeu até – quem diria! – o desejo do próprio Papa João XXIII, pois visava os homens do seu tempo(1963), e, não os homens de outros tempos…do ano anterior. Note o sr. como os tempos mudam tão rapidamente…na pressa pós conciliar!

5 – Do Concílio Vaticano II: o documento “Sacratissimum Consilium” (sobre a reforma litúrgica), de 4 de dezembro de 1963, no seu artigo 36, estabelece:

“Latim e línguas nacionais na liturgia:

1 – O uso da língua latina, salvo direito particular, deve ser conservado nos ritos latinos.

2 – Porém, visto que, quer na missa como na administração dos sacramentos, quer em outras partes da liturgia, costumeiramente o uso da língua nacional pode tornar-se de grande utilidade para o povo, concede-se à língua nacional uma parte mais ampla, especialmente nas leituras e nos sermões, em alguma orações e cânticos, conforme as normas fixadas para os casos específicos nos capítulos seguintes.

3 – Baseada nestas normas, cabe à competente autoridade eclesiástica territorial, … decidir sobre a omissão e a extensão da língua nacional. Tais decisões devem ser aprovadas, ou seja, confirmadas pela Sé Apostólica.

4 – A tradução do texto latino na língua nacional a ser usada na liturgia deve ser aprovada pela competente autoridade eclesiástica acima aludida.

OBSERVAÇÕES:

A – A contradição entre a determinação do Concílio Vaticano II acima, com o solene documento Veterum Sapientiae, redigido pelo Papa João XXIII no ano anterior, é flagrante.

B – Aquele “salvo”, inserido no parágrafo 1 do artigo 36 do Sacrossantum Consilium, como um pequeno furo na parede de uma represa, foi o suficiente para que a língua latina fosse posterior e totalmente eliminada do culto litúrgico e substituída pelo vernáculo; assim, a exceção tornou-se regra, como em outras exceções estabelecidas pelo Vaticano II.

Teria ainda outras citações a respeito, mas… fica para outra ocasião. Resta dizer apenas que, com a adoção do vernáculo, transformou-se a liturgia numa nova Torre de Babel, onde cada um fala uma língua, e ninguém mais se entende…E os que não se entendem, mais exaltam o… diálogo!…ao som do rock!…

AD Maiorem Dei Gloriam.

Pe. Amigo.

***

Anotações “esquecidas” IV: Jean Guitton, amigo de Mons. Montini (Paulo VI)

 

Remexendo novamente aquela “velha” gaveta repleta de antigas anotações, deparei-me com uma série delas sobre Jean Guitton, considerado o maior filósofo católico francês do século passado, e amicíssimo de Paulo VI.

Tendo em vista a influência de Jean Guitton na história da Igreja do século findo, em especial no Concílio Vaticano II, do qual ele foi o único leigo a tomar parte na 1ª fase, participando com outros também das demais fases, bem como seus constantes contatos com representantes do clero em todos os níveis, incluindo muitos modernistas, resolvemos transcrever, pouco a pouco, algumas daquelas anotações, há anos adormecidas, na “velha” gaveta.

Amigos são os que querem, e não querem, as mesmas coisas
Sto. Tomás

Iniciamos, assim, uma série de comentários sobre a personalidade e o pensamento de Jean Guitton, em especial relacionados à profunda amizade que o uniu a Mons. Montini, iniciada em1950, quando este era Substituto na Secretaria de Estado do Vaticano, prolongando-se e estreitando-se continuamente até a morte de Paulo VI, em 1978.

Estes comentários se baseiam principalmente no livro “Journal de ma Vie“, publicado em 1976, pela Editora Desclée de Brouwer, Bar le Duc, França, no qual Guitton narra acontecimentos, descreve personalidades do seu círculo íntimo de amizades, apresentando conceitos religiosos, filosóficos, políticos e artísticos dos seus interlocutores, mesclados aos seus, abrangendo um longo período de sua vida, de 1912 a 1971.

Pela própria natureza da obra (Diário) não há, evidentemente, uma sequência lógica de temas. Assim, a classificação e agrupamento dos assuntos aqui comentados, são da nossa autoria, de ordem puramente didática, na expectativa de condensar e apresentar o modo com que Guitton concebia temas fundamentais relativos à religião e à filosofia, em especial.

Como estes comentários pretendem relacionar o pensamento de Guitton à profunda amizade desfrutada com Mons. Montini, julgamos oportuno estabelecer, antes, o conceito de amizade que orienta nossa análise. Para isso, a definição apresentada por S. Tomás nos parece a ideal, quer pela sua profundidade, quer pela importância dos personagens em questão.

Para S. Tomás, “Amigos são os que querem, e não querem, as mesmas coisas“.

Definição clara e objetiva, que até brumosos filósofos modernos podem compreender; e não há como, por todos, não constatar a sua veracidade analisando a própria vida. Nós nos unimos, desde a mais tenra infância, aos que querem e não querem as mesmas coisas que nós. Assim, quanto mais profundos e elevados nossos desejos, mais profundas e elevadas serão as nossas amizades.

No caso de Guitton e Mons. Montini, por serem dois homens animados pelo mesmo pensamento, consequentemente eles pensavam (queriam) e não pensavam (não queriam), as mesmas coisas. E, o que eles queriam? O que pensavam? Seguindo S. Tómas, entre amigos, sabendo-se o pensamento de um, podemos conhecer muito provavelmente, e até certo ponto, o do outro. Dessa forma, poderíamos partir de Guitton para entender Montini.

Contudo, nestes comentários, não nos limitaremos a isso: em temas mais profundos, procuraremos apresentar também o pensamento de Montini, constatando a veracidade do conceito de São Tomás de Aquino.

Mais que isso, notaremos que as ideias de ambos, evidentemente, não lhes eram exclusivas; pelo contrário, eram comuns a pessoas das mais diversas – até contraditórias – correntes religiosas e filosóficas que, como disse um amigo, assemelham-se a regatos subterrâneos juntando-se, finalmente, num mesmo rio.

A questão é de se saber de que subterrâneas, secretas e distantes fontes surgiu um mesmo conjunto de ideias, que tão fácil e repentinamente unia pessoas de países, posição social, situação financeira, e até etária, tão distantes e diferentes, quando sabemos perfeitamente que, de forma natural, isso dificilmente, para não dizer quase nunca, ocorre.

Quem sabe um dia poderão vir à luz todos os documentos do período de, aproximadamente, 1850 a 2000, ainda secretos por razões diversas, revelando programas, ligações, palavras de ordem, compromissos, reuniões, tudo, enfim, que orientou o caminho do Modernismo, heresia condenada por S. Pio X em 1907, formada por inúmeros riachos aparentemente sem ligação, mas que, reunidos, desembocaram num mesmo lago nos anos 60.

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Anotações “esquecidas” V: Jean Guitton, amigo de Paulo VI, não era católico

 

Todos conhecemos, pelo menos pela fama dispensada há anos por quase toda a mídia mundial, aquele que foi considerado o maior filósofo católico do século XX: o francês Jean Guitton. Essa fama de filósofo-católico foi ainda mais acentuada pela reconhecida e declarada amizade nutrida entre ele e Mons. Montini, depois Paulo VI, a partir do dia 8 de setembro de 1950.

Essa data foi um verdadeiro marco na vida de ambos. Mons. Montini, naquele dia, exigiu que Guitton fosse visitá-lo todos os dias 8 de setembro, onde o então Substituto estivesse. Religiosamente, o assim chamado filósofo-católico cumpriu a promessa até o ano anterior ao da morte de Paulo VI, ocorrida a 3 de agosto de 1978.

Na ocasião do primeiro encontro, Guitton, aconselhado pelo então Núncio de Paris, Mons. Angelo Roncalli, futuro João XXIII, fora ao Vaticano conversar com Mons. Montini, para tentar evitar a condenação do seu livro, La Vierge Marie, pelo temido Santo Ofício, que estava prestes a colocar essa obra no Index, devido a erros doutrinários. Nesse livro, Guitton sustenta que, no momento da Visitação, a Virgem Maria não sabia que iria gerar o Filho de Deus!…

Porém, naquele célebre 8 de setembro de 1950, chegando ao Vaticano, Guitton ficou surpreso ao saber o quanto Montini já havia feito em sua defesa (cfr. Yves Chiron, “Paul VI, Lê Pape Écartelé”, Ed. Perrin, Paris – 1993, p. 139 -140). Pela descrição de Guitton, o primeiro encontro entre ambos foi um acontecimento singular. Da obra em questão, pouco se falou. Montini, que já a aprovara, estava mais interessado na reação dos protestantes franceses diante dela, perguntando a Guitton como eles a haviam acolhido. Resposta de Guitton: “Eu ouvi dizer que o pastor Boegner gostou muito dela” (J. Guitton, Dialogues avec Paul VI, Ed. Fayard, Paris, 1967, p. 25).

Montini conseguiu adiar a condenação do livro para o ano seguinte. Guitton foi obrigado a eliminar certas passagens, o que ocorreu somente na edição imediata àquela condenação. A edição posterior de 1986, porém, manteve a versão condenada, sem abalar a relação de Guitton com a Igreja. (Trataremos dessa obra de Guitton, e do seu primeiro encontro com Montini, em comentário específico, oportunamente).

O pensamento de Guitton, exposto naquela obra, contentando a um famoso pastor protestante, e desagradando ao Vaticano a ponto de condená-lo, é apenas um exemplo de como a sua concepção religiosa não seguia plenamente os ensinamentos da Igreja. É exatamente essa concepção não católica de Guittton, destilada em mais de cem obras, que tentaremos demonstrar nestes nossos comentários, baseados somente em algumas delas. Isto porque, já em agosto de 1958 – quando Guitton escrevera em torno de 40 livros – seu amigo Jacques Chardonne lhe dissera: “Você vai precisar viver muito para que se veja a unidade da sua obra. (…) Poucos vão ler tudo o que você escreveu. Muito menos, ainda, os que dela vão conseguir extrair a unidade”. Guitton concordou, acrescentando: “Eu acho que, após ter apresentado um leque divergente, será preciso fechá-lo, ou talvez tender a uma unidade de acabamento (…)” (J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée, Bar-le-Duc, 1976, p. 394).

De fato, Guitton viveu muito mais, e escreveu mais 60 obras ainda, sem, contudo, apresentar uma “unidade de acabamento”. Dessa forma, por enquanto, nos basearemos principalmente nos seguintes documentos:

1 – Journal de ma vie – Ed. Desclée de Brouwer – Bar le Duc, 1976;

2 – Dialogues avec Paul VI –Ed. Fayard – Paris. 1967;

3 – Entrevista extraída da obra Dieu et la science (com Y. e G. Bogdanov), Ed.Grasset 1991: http://www.plenitude.com.br/jornal/acervo_plenitude/col_curiosidades/0002.htm

4 – Entrevista La fede concedida a Marino Parodiem 1999, meses antes de falecer, site:
http://www.liberalfondazione.it/archivio/speciali/Terzo_Millennio/Guitton.htm

Nesses documentos, notamos doutrinas por ele professadas totalmente contrárias à católica, diluídas aqui e acolá, mais ou menos camufladas, além de contradições sobre assuntos diversos, até de menor importância, ou mesmo explicações nebulosas sobre temas simples, que ficam mal na pena, ou na boca, de alguém considerado como o maior filósofo católico, do século XX.

Esta breve análise levará em conta somente alguns dos principais fundamentos da doutrina e ensinamentos da Igreja católica, relacionados, por exemplo, a Deus, a Nossa Senhora, ao Ecumenismo, Protestantismo, Espiritismo, Evolucionismo, deixando para outra oportunidade uma análise mais profunda da heresia modernista professada por Guitton, conforme definida e condenada na Encíclica Pascendi Dominici gregis, de S. Pio X, em 1907.

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Anotações “esquecidas” VI: Guiton dá diretrizes a João XXIII para o Concílio Vaticano II

 

No início de setembro de 1961, um ano antes da abertura do Concílio Vaticano II, Jean Guitton, após encontrar-se com o arcebispo Montini, em Milão, envia um texto a João XXIII, intitulado: “Da apresentação da verdade nas declarações do futuro Concílio” como orientação geral de que, e como, o Vaticano II deveria tratar da verdade católica, ou seja, do depósito da fé (“Journal de ma vie”, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 449 a 452).

– Inicialmente, Guitton explica a João XXIII que «Um Concílio é uma tomada de consciência da Igreja daquilo que ela é, uma recapitulação dela mesma, uma nova proclamação do conteúdo da fé em Jesus Cristo, adaptada à nossa época» (op. cit. p. 450).

Duas considerações referentes à citação acima:

1.1 – “Um Concílio é uma tomada de consciência da Igreja daquilo que ela é…”.

Tal afirmação, implicitamente, pressupõe a tese modernista, não católica, de que a Igreja, em certas fases da História, está sujeita a perder a noção da sua identidade, como se ela fosse uma instituição igual às demais instituições civis, criadas pelos homens, não considerando seu essencial caráter divino, de ter sido fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo, guiada pelo Espírito Santo, e com a expressa promessa de Nosso Senhor de estar com ela, todos os dias, até a consumação dos séculos.

Teria sido necessária a intervenção providencial de um filósofo francês, Jean Guitton, dois mil anos após Cristo, para fazer ver a um Papa que, de quando em quando, a promessa de Cristo pode não se cumprir, e que o Espírito Santo, talvez preocupado com outros compromissos, deixasse de, momentaneamente, assisti-la? Teria sido necessário o sacolejo de Guitton para acordar a Igreja do seu torpor, que, sonolenta, e bocejando no seu lento despertar, rouca, murmurasse: “que sou eu?…”.

1.2 – «(…) uma nova proclamação do conteúdo da fé em Jesus Cristo, adaptada à nossa época».

O que significa exatamente tal afirmação? Como seria, concretamente, essa “nova proclamação do conteúdo da fé em Jesus Cristo, adaptada à nossa época”, se “o conteúdo da fé” é verdade absoluta e eterna, valendo, portanto, plena e totalmente a qualquer época?

[Como seria, por exemplo, uma nova “proclamação do conteúdo” do teorema de Pitágoras (que é até anterior a Cristo), “adaptado à nossa época?”].

Mas, o que se esconde sob essa afirmação de Guitton, é outro conceito modernista, de que o “conteúdo da fé”, cuja proteção e defesa é o primeiro dever dos pontífices, não é verdade absoluta, podendo, portanto, mudar no decorrer do tempo, ou melhor, evoluir. Isto justifica sua afirmação anterior, ou seja, como a verdade evolui, a Igreja precisa tomar consciência dessa evolução, e proceder secundum quid.

Esse desejo de “adaptar o conteúdo da fé à nossa época” já havia sido condenado pelo Papa S. Pio X, na encíclica “Pascendi dominici gregis” (1907), e pelo Decreto “Lamentabili” (art. 63 e 64), bem como pelo Papa Pio XII, na encíclica “Humani Generis”, em 1950. Mas, para Guitton, 1907… 1950…é passado longínquo!… Bem outra é, para ele, a realidade evoluída do conteúdo da fé em 1961, quando ele, providencialmentedespertou a Igreja do seu sono Tridentino, prolongado pelo Vaticano I, e embalado pelo pontificado de S. Pio X.

[Aliás, sobre S. Pio X, Guitton diz que dele formou “suas primeiras impressões, dentre aqueles que sofreram sob seu cetro” (Guitton se refere aos modernistas, condenados por S. Pio X em 1907), e que ele (S. Pio X) “me sugere uma imagem dupla, como um pássaro de dois bicos, um que eu aprovo, outro que me incomoda. (…) O que é paradoxal, é que a competência não parece mais entrar na definição do poder; que depois de Leão XIII, um tão grande Papa, seja Pio X o Papa, apesar de ser um Papa santo do tempo presente” (op. cit. Pg. 192)].

[Quanto a esse desrespeitoso comentário de Guitton sobre o Papa S. Pio X, deixo o julgamento ao critério dos leitores. Pergunto-me somente: qual seria a reação de Guitton, (ou de outros, que não admitem a mínima observação aos Papas conciliares, ainda que feita com todo o respeito), se alguém ousasse a se referir a Paulo VI, empregando as mesmas palavras de Guitton a S. Pio X, citando ainda, como exemplo de sofrimento, o vivido pelo Cardeal Mindsenty, por resistir em não dar trégua ao regime comunista da Hungria e da Rússia, conforme o forçava aquele Papa? (“Paul VI, le Pape écartelé”, Yves Chiron, Ed. Perrin, Paris, 1993, pgs. 309 – 310)].

2 – Prosseguindo, Guitton afirma que os concílios anteriores, em geral, foram convocados para «enfrentar um perigo doutrinário. (…) Definia-se a fé negativamente, em relação a uma heresia ». Além disso, segundo ele, os concílios passados eram um acontecimento interno à vida da Igreja, o que deixava os não católicos numa grande indiferença, e que o “novo Concílio é também uma tomada de consciência, mas com dois aspectos originais”:

«O primeiro é de não ter sido suscitado por uma heresia. Ele é afirmativo, e não negativo. Por isso, ele é, mais que nunca, uma tomada de consciência da Igreja inteira. Sendo positivo, e não negativo, ele não concluirá pela definição de um ponto de fé específico, mas por uma apresentação universal, pelo menos, muito ampla» (idem, p. 450).

Somente duas observações sobre essa citação:

2.1 – «O primeiro é de (o Concílio Vaticano II) não ter sido suscitado por uma heresia».

Embora o Concílio Vaticano II não tivesse sido convocado, de fato e formalmente, para combater nenhuma heresia, não quer dizer, de per si, que não havia heresia naquela época, ou naquele ano, para ser pontualmente aggiornato.

Em geral, as heresias não surgem repentinamente, de um dia para o outro, mas depois de longo processo de preparação, em que os seus paladinos, através de um linguajar dúbio, serpentino, por vezes até contraditório, visando inocular seu veneno no conteúdo da fé, camufladamente, procuram formar uma nova mentalidade contrária à católica, para, depois, atacá-la de frente. Exatamente como os seguidores do Modernismo, sem cessar, procederam desde a segunda metade do século XIX, prosseguindo subterraneamente após 1907 (ano da sua condenação pela “Pascendi”), e, depois, de forma cada vez mais audaciosa, atuaram, e atuam, até nossos dias. Que havia heresia naquela época, só os seus seguidores, claro, o negavam.

Nessas poucas linhas, um aspecto um tanto contraditório nas afirmações de Guitton: se o “Concílio é uma tomada de consciência da Igreja daquilo que ela é”, como ela poderia ter tido, a priori, na sua convocação, a consciência de que, absolutamente, não havia heresia para suscitá-lo? Se ela nem sabia o que ela era, como saberia distinguir o que lhe era contrário?… Mas, Guitton — garante-se — foi um grande filósofo!…

Além disso, existia a heresia marxista, e, em 1962, o comunismo era uma ameaça bem real ao mundo e à Igreja. Como convocar um Concílio sem pretender condenar os dois maiores inimigos da Igreja em 2.000 anos de existência, o Modernismo e o Comunismo?

2.2 – «Ele (o Concílio Vaticano II) é afirmativo, e não negativo. Por isso, ele é, mais que nunca, uma tomada de consciência da Igreja inteira. Sendo positivo, e não negativo, ele não concluirá pela definição de um ponto de fé específico, mas por uma apresentação universal, pelo menos, muito ampla».

Após afirmar que o Concílio não fora convocado para condenar uma heresia, o filósofo francês nos brinda com uma brilhante conclusão: «Ele é afirmativo, e não negativo. (…) Sendo positivo, e não negativo (…) ».

O que Guitton pretendia dizer a João XXIII com essa afirmação?

A Igreja, no decorrer da História, seguindo o conselho e exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo — “Seja o vosso falar, sim, sim; não, não…” (Mt. 5, 37) — sempre ao proclamar uma verdade, apresenta e condena o erro oposto. A esse método, Guitton chama de afirmativo… negativo, reprovando seu emprego pelo Concílio, para aquela época. Ele sugere ao Papa que o Concílio Vaticano II se pronuncie somente de modo positivo, por meio de “uma apresentação universal, pelo menos, mais ampla”, para não dizer vaga.

Mas a pedagogia do sim/não é, e sempre foi, a forma mais natural utilizada por todos ao apresentar uma verdade, condenando imediatamente seu oposto, evitando-se, assim, qualquer equívoco.

Poderíamos citar uma infinidade de exemplos para comprovar a eficiência lógica de tal método. Mas não será preciso recorrer a tanto. Para isso, basta ler o texto do próprio Guitton, acima indicado.

Assim, para que ficasse bem claro a João XXIII o que ele queria explicar, e visando evitar qualquer equívoco ao Papa, ele, Guitton, utiliza o método (positivo/negativo) da Igreja do passado, e ainda por duas vezes e em duas linhas, na própria frase em que condena o seu emprego por parte do futuro Concílio. Pois se ele afirma que a Igreja só deveria apresentar um ensino positivo, para ficar clara a sua proposta, ele diz que a Igreja não deveria fazer condenações, dando um ensinamento através de negações, negativamente. Mas, ao afirmar isso, ele mesmo estava condenando, ainda, o que a Igreja sempre fez no passado: condenar erros, isto é, ele negava que fosse certo, ou útil, ou conveniente usar o método negativo de ensino.

Se ele, Guitton, se reserva o direito de utilizar a forma positiva/negativa, por duas vezes em duas linhas, para explicar uma simples afirmação a um Papa, o que não dizer de um Concílio ao se dirigir a todos os fiéis?

Incoerência do grande filósofo francês!

Na realidade, Guitton, e todos os modernistas de todas as épocas, não queriam que a Igreja condenasse nenhuma doutrina contrária à católica, e ainda conspiravam para injetá-la na mentalidade católica. Para eles, só a Igreja e seu passado deviam ser condenados. O Concílio, proposto por Guitton, não deveria condenar ninguém. Só deveria condenar o passado da Igreja, e por meio da adoção de um novo método de ensinar oposto ao do passado. Com efeito, depois do Vaticano II, só se condena o que a Igreja e os Papas fizeram no passado.

Essa ideia, aliás, não era nova. Já em março de 1949, Mons. Montini, então substituto na Secretaria de Estado do Vaticano, ao receber pela primeira vez os pastores protestantes Roger Schutz e Max Thurian, da comunidade protestante de Taizé (França), preparando-os para uma audiência com Pio XII, e lhes falando sobre a proibição de Pio XII aos católicos de participarem do Conselho Ecumênico das Igrejas, lhes disse: “Primeiramente, a Igreja deve reconhecer os erros dos seus membros na História e nos nossos dias” (Propos raportés par M. Thurian in « Paul VI et les observateurs du Concile Vatican II » apud « Paul VI – le Pape écartelé » Yves Chiron, Ed. Perrin, Paris, 1993, p. 134). Posteriormente, o mesmo Montini, quando Papa, em 29 de setembro de 1963, no discurso de abertura da segunda sessão daquele Concílio, declarou novamente que a Igreja devia pedir perdão pelas ofensas que ela cometeu no passado (idem p. 207).

Hoje, quarenta anos após aquele Concílio, podemos ver claramente os frutos da única condenação feita pelo Concílio Vaticano II: a da tradição católica, em todas as suas aplicações.

– Continua Guitton a João XXIII:

«Um outro aspecto é que o universo inteiro está atento a este Concílio. Não só o universo dos ortodoxos e dos protestantes, mas também todas as consciências não cristãs. Diante desses aspectos antigos e novos do Concílio eu queria lhe apresentar uma proposta que me parece importante: é de que este Concílio faça preceder suas definições, suas exposições, por uma declaração dirigida a todos os homens de boa vontade » (no original a palavra declaração está em itálico).

3.1 – “Homens de boa vontade”

É curioso Guitton utilizar a expressão “homens de boa vontade”, após ter-se referido aos crentes e não crentes. Acaso, fazem eles parte de alguma outra categoria especial, ou secreta, não incluída entre os crentes e não crentes? Porque, evidentemente, os crentes somados aos não crentes, englobam todos os homens! Quem seria, então, para Guitton, os tais “homens de boa vontade?…”. Seriam eles os assim chamados homens de livre espírito?…Ou aqueles a quem Jules Romain, também do círculo de Guitton, faz referência em seus romances?… Infelizmente, Guitton não o diz!

Ainda quanto aos “homens de boa vontade”, não deixa de ser curioso, também, que João XXIII foi o pioneiro a incluí-los no endereçamento das encíclicas, quando da publicação da “Pacem in terris”, em 11 de abril de 1963. Até aquela data, todas as encíclicas, de todos os Papas, eram, em geral, assim endereçadas: Aos Veneráveis irmãos patriarcas, primazes, arcebispos e bispos e outros ordinários do lugar em paz e comunhão com a Sé Apostólica e a todo o clero e fiéis do orbe católico”, sem referência alguma àqueles misteriosos “homens de boa vontade”. Sua inovação foi seguida, posteriormente, por Paulo VI, quando da publicação das encíclicas “Populorum progressio” e “Humanae Vitae”, de 26 de março de 1967, e de 25 de julho de 1968, respectivamente.

4 – Como o Concílio deverá ser apresentado segundo Jean Guitton

Prosseguindo em suas diretrizes, Guitton recomenda que a apresentação dos temas conciliares seja feita visando diversos níveis, ou categorias de pessoas, “como uma pirâmide”.

Primeiramente, apresentar os temas que interessam «a todos os homens, um apelo às verdades da consciência moral, da justiça (…) da existência de Deus conhecido pela razão…» (idem, p. 450).

Em seguida, viria um «apelo às verdades de fé comuns a todos os povos monoteístas, o Islã e Israel (…) e a todos os cristãos, e que todos nossos irmãos protestantes aceitam conosco: Jesus Cristo, filho de Deus Salvador, a Igreja corpo invisível, o batismo, a eucaristia» (ibidem, p. 450. O negrito é nosso).

«O terceiro nível seria o resumo do símbolo católico, mostrando o que a fé católica romana acrescenta à fé cristã: a Igreja é visível, o sucessor de Pedro tem uma autoridade soberana» (ibidem, p. 450 – 451. O negrito é nosso).

De passagem, convém salientar que Guitton afirma existir uma “Igreja corpo invisível” reunindo várias religiões, e depois fala de uma “Igreja visível”, que seria a Igreja Católica. Ora, a afirmação de que existe uma “Igreja invisível” englobando pessoas de diferentes religiões e de diversas crenças, é típica da Gnose e do Modernismo. E Guitton deveria saber disso, ele que era um tão competente filósofo e pensador, que se dizia católico.

Guitton expõe, em seguida, a vantagem principal dessa forma de apresentação: «cada membro da família humana se acharia visado», porque, se a Igreja só fala aos católicos, muitos continuam indiferentes à sua mensagem, quer entre os sábios, quer entre os humildes, conforme ele mesmo, Guitton, diz ter constatado, completando, como exemplo:

«Entre os sábios, Bergson, meu mestre e amigo, um dos maiores filósofos deste tempo, dizia que ele não podia conscientemente aceitar o conjunto do Credo. E, mesmo desejando ser batizado na Igreja católica, ele postergava o batismo» (idem, p. 451).

Guitton não explica, porém, como, seguindo sua simples diretriz na forma de apresentar em camadas os temas conciliares, seu sábio amigo Bergson iria conscientemente aceitar o conjunto do Credo, e receber o batismo. Curioso método para a conversão de sábios!

Prossegue o filósofo francês:

«Quanto aos mais humildes, os operários e camponeses, por exemplo, educados distantes de qualquer crençamas sem hostilidade, nota-se também (como o cardeal Suhard* e o cardeal Saliège notaram) a necessidade de um tempo de formação progressiva, de catecumenato…» (idem, p. 451).

[*Cardeal Emmanuel Suhard (1874 –1949) nomeado Arcebispo de Paris em 1940, foi um dos fundadores dos “Padres operários”, movimento condenado, posteriormente, pelo Papa Pio XII, e aprovado por Paulo VI em 1964. No final da II Guerra Mundial, o Cardeal Suhard foi acusado, pelo governo De Gaulle, de ter colaborado com o governo nazista na França, durante a ocupação alemã (“Giovanni XXIII – Il Papa Del Concilio”, P. Hebblethwaite, Ed. Rusconi, Milano, 1989, p. 290, 307). Aliás, o próprio Jean Guitton foi condenado como colaboracionista do governo nazista na França, logo após a II Guerra, em agosto de 1946 (Journal de ma Vie – op.cit. p.728)].

Nas recomendações vistas até este ponto, Guitton lança as bases para atingir seu objetivo fundamental para o Concílio Vaticano II: a promoção do “cristianismo ecumênico”, nova religião, cujos fundamentos ele explica a João XXIII.

5 – “Cristianismo Ecumênico”

Do ponto de vista ecumênico, e não somente humano, para Guitton, o Concílio poderia apresentar, no seu segundo estágio, “um parágrafo específico que definisse a fé comum a todos os cristãos”. Para ele, isto «ajudaria aos cristãos não-católicos a erguer-se a esta fé comum e colocar mais claramente em evidência as verdades partilhadas por todos os cristãos; a divindade de Cristo, que é fundamento de tudo». Além disso, «não se deixaria de realçar a harmonia dos fundamentos deste “cristianismo ecumênico” com os fundamentos do catolicismo, o que facilitaria a reaproximação; isto mostraria aos não-católicos que a conversão (como a do cardeal Newmann) não consiste tanto em renegar aquilo que é falso na confissão de que partem, como de levar à sua plenitude a verdade já possuída (…)» (idem, p. 451).

Isto é, fazer a união de crenças diversas sem a necessidade de conversão alguma ao catolicismo.

Finalizando o texto, Guitton volta a ressaltar as vantagens da apresentação das verdades em etapas, que corresponde ao «método do próprio Deusque é de formar a consciência sem lhe propor a totalidade da verdade, mas somente o que o espírito é capaz de compreender e de assimilar » E, falando a todas as consciências, conclui Guitton, «o Papa aparecerá como o pai da grande família humana (…)» (idem, p. 452).

5.1 – Na realidade, e resumindo o texto acima, Guitton diz a João XXIII:

a – todas as religiões são expressões da mesma divindade que se manifesta de forma diferenciada (“verdades partilhadas”) através delas, incluindo a católica, que a manifesta mais plenamente;

b – por isso, o Concílio deverá esquecer, implicitamente, o antigo dogma “Fora da Igreja, não há salvação”, propondo a união de todas as religiões, renunciando ao proselitismo e à conversão. Daí Guitton acentuar que não é preciso nem “renegar aquilo que é falso na confissão de que partem (…)”.

c – com isso, haverá o surgimento de nova religião universal, a do “cristianismo ecumênico”, englobando todas, inclusive a católica, da qual só teria, e “em harmonia”, os “fundamentos!”.

Eis os fundamentos do ecumenismo do Concílio Vaticano II, levado adiante até os nossos dias. No fundo trata-se da concepção gnóstica da religião: a divindade se manifesta de forma diferente, e até contraditória, para os homens, no decorrer do tempo. Sendo as religiões expressões da mesma e única divindade, todas contêm verdades e enganos, mas todas levam de volta à mesma divindade. Para essa mentalidade ecumênica, o catolicismo, é uma manifestação religiosa como as outras, com realce ao amor! …

Seria como afirmar: como todos os rios têm o mesmo fundamento – H2O – todos são potáveis, inclusive o nosso caudaloso Tamanduateí, ou o Tietê…E lá vai o Ecumenismo conciliar e pós-conciliar, não “sicut cervus ad fontes”, mas “sicut servus ad mortem…”, saciar sua sede em águas contaminadas pelas heresias e pelos cismas, que levam à morte eterna, embora, para Guitton, tendo o mesmo “fundamento”!

5.2 – «(…) não se deixaria de realçar a harmonia dos fundamentos deste “cristianismo ecumênico” com os fundamentos do catolicismo, o que facilitaria a reaproximação».

Notem que, na realidade, e concretamente, Guitton propõe ao Papa João XXIII uma nova religião: o “cristianismo ecumênico”, que do catolicismo só tem (ainda segundo ele, e vagamente) os “fundamentos”, evidentemente já adaptados “à nossa época”.

Portanto, para Guitton, o catolicismo deverá ser substituído pela nova religião, batizada por ele “cristianismo ecumênico”, manifestação da “Igreja invisível”, e por ele apresentada ao Papa João XXIII, para ser implantada pelo futuro Concílio Vaticano II, em benefício da humanidade.

5.3 – Apresentar as verdades em etapas, «método do próprio Deusque é de formar a consciência sem lhe propor a totalidade da verdade, mas somente o que o espírito é capaz de compreender e de assimilar ».

Certamente, neste ponto, Guitton confundiu o método de Deus e da Igreja com o de algumas sociedades secretas, cuja “verdades” são apresentadas aos irmãos em etapas, segundo os respectivos graus de iniciação em que se encontram.

Pelo contrário, a Igreja sempre propôs, e propõe, a totalidade da verdade revelada de Deus, íntegra e plena, a todas as pessoas, sem nada esconder, porque Cristo disse que não se acende uma luz, para colocá-la sob o alqueire. O Credo encerra todas as verdades, e não somente o que o “espírito (espírito?…seria alma?) é capaz de compreender e assimilar”, pois, como muitas verdades são mistérios de fé, nunca o tal “espírito“, nem o do seu mestre e filósofo Bergson, seria “capaz de compreender e de assimilar”. De onde Guitton deduziu essa pedagogia de Deus?

5.4 – «o Papa aparecerá como o pai da grande família humana (…)».

Afirmação lógica e perfeita de Guitton sobre o Papa, na ótica modernista do “cristianismo ecumênico”: o Papa, de representante de Cristo na terra, conforme Cristo estabeleceu e a Igreja sempre ensinou, passaria a ser, segundo Guitton, o “pai da grande família humana!…”. Que título!… E que honra!…

Com isto Guitton atinge o cerne do “cristianismo ecumênico”, da nova religião que propõe: o Homem. No fundo, essa nova religião é a religião do Homem, cujos postulados foram preparados pelos modernistas no decorrer do século XX, apresentados no texto de Guitton ao Papa João XXIII, e proclamados pelo Concílio Vaticano II, conforme afirmou o próprio Papa Paulo VI, no discurso de encerramento daquele mesmo Concílio, no dia 7 de dezembro de 1965: “Nós também, Nós mais que todos, nós temos o culto do homem” (“Paul VI, le Pape écartelé”, Y. Chiron, Ed. Perrin, 1993, Paris, p. 249). Daí o novo e digníssimo título dado por Guitton ao Papa: “Pai da Humanidade!”.

Certamente, no futuro evangelho da nova religião —“cristianismo ecumênico”— ler-se-á: “Naquele tempo, disse Guitton a João XXIIIse seguires minhas palavras, deixarás de ser o representante de Cristo na terra, e aparecerás como o pai da grande humanidade”.

E o Papa Roncalli, que fez?

Basta ler o discurso de João XXIII na abertura do Concílio Vaticano II, para notar o quanto de Guitton lá está!… Embora esse discurso não faça parte formal dos textos oficiais do Concílio, ele serviu de indicador, aos padres conciliares, do rumo a ser seguido.

E o Concílio Vaticano II também o atendeu!… Basta ler sua história para se notar o quanto da mentalidade ecumênica modernista de Guitton, ele absorveu, e de tal forma que foi chamado de “Concílio do Padre Rahner!…” (Le Rhin se jette dans le Tibre – Le Concile Inconnu, Pe. Ralph M. Wiltgen, s. v. d., Ed. Du Cedre, Paris, 1976, p. 79), do modernista Rahner, insuflador dos princípios da nova teologia aos ouvidos dos padres conciliares, que a inseriram em documentos do Vaticano II.

Quanto ao resultado do Concílio, com as diretrizes de Guitton, ninguém melhor que ele próprio, Guitton, como dos seus amigos Pe. Soulages e Paulo VI, para opinar.

Assim, Guitton, em abril de 1964, ainda durante o período conciliar, inocentemente, lamentando-se:

“Parece que no Concílio, os valores religiosos e espirituais foram rebaixados. O fenômeno é geral: que se considere o valor do celibato, a presença da vida religiosa, o sagrado da liturgia, a primazia de Pedro, a autoridade dos bispos e da Igreja, o testemunho dos mártires, a transcendência da verdade, a imutabilidade da verdade religiosa etc. O problema do Concílio é de não perder estas verdades fundamentais, de colocá-las à luz de uma nova maneira. E, neste momento, isto ainda não foi feito. Eliminam-se os ritos acidentais. Mas, eliminando estes ritos acidentais, ameaçam os dons essenciais” (idem p.476). Ainda Guitton, em 1968:

«É uma tristeza depois do Concílio ver-se escurecer a eucaristia, a cruz, Maria, o papado. Porque tudo isto está presente no organismo de uma fé íntegra e total. Mas é preciso que eu compreenda bem que esta derradeira constatação é o anúncio de uma futura realidade, após uma purificação» (idem, p. 625).

[Após as diretrizes que ele apresentou a João XXIII, por que se surpreender diante dos resultados?]

Pe. Soulages, em conversa com Guitton, em 1968:

“Hoje vemos na Igreja alguns que pensam que a Igreja antes de João XXIII, a Igreja tridentina, deve ser substituída por uma Igreja nova. Eles quebram com a tradição anterior, a qual eles comparam a uma forma de judaísmo. (…) Se, durante 15 séculos a Igreja se enganou, então, quem nos garante que ela não se enganará ainda?”.

“Nos dias de hoje, a essência do cristianismo, que é vertical, foi esquecida, ou rebaixada a um ponto de vista dialético, complexo, reduzida às chamadas ciências humanas: rebaixaram-na à dimensão horizontal”. (idem, p.631 – 623).

E Paulo VI, recebendo em audiência uma centena de alunos do Seminário Lombardo, no dia 7 de dezembro de 1968, exatamente três anos após encerramento do Concílio, afirmou:

«A Igreja se encontra numa hora de inquietude, de autocrítica, dir-se-ia quase de auto demolição. É uma desordem interna, aguda e complexa, que ninguém esperava, após o Concílio» (Yves Chiron, Paul VI, le Pape écartelé, Ed. Perrin, Paris, 1993, p. 288).

Ainda Paulo VI, dia 29 de junho de1972:

«Por alguma brecha, a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus: a dúvida, a incerteza, o questionamento, a inquietude, a insatisfação, o afrontamento, surgiram […]. Nós esperávamos que o porvir do Concílio fosse um dia ensolarado para a Igreja, mas encontramos novas tempestades. Nós acabamos cavando novos abismos ao invés de aplaná-los. Que aconteceu?…» (idem, p. 320).

Nesse sentido, ainda, e curiosamente, Guitton, no capítulo “João XXIII – Conversas do diabo”, do seu “Jounal de ma vie”, em 1964, apresenta a seguinte observação na boca do demônio sobre aquele Papa:

“É possível que ele tenha abalado o edifício no seu fundamento, dando a impressão de que, ainda que Papa, ele tinha a fé simples de um vigário saboiano, e que isto era o seu segredo. Ele criou assim uma religião (é o diabo que fala) a-dogmática e simples na qual todo o mundo se reencontra e se entende. Uma religião da bondade”.

“Eis, em resumo, a observação do diabo”.

“Mas, pode-se responder ao diabo que, nos nossos dias, a fé não se apóia na lista dos dogmas; que, por meio dos dogmas, ela visa algo infinitamente mais simples. E é nisto que João XXIII é grande” (Journal de ma vie”, p. 472).

Quanto à observação que Guitton coloca na boca do diabo sobre o Papa João XXIII, nada a comentar. Porém, quanto à resposta que daria ao diabo, Guitton reconhece, como exigia o Modernismo, que o dogma não é mais importante para a fé, concluindo ter sido aceitar isto a grandeza de João XXIII. A Igreja Católica não teria mais dogma: seria a Igreja do Amor. “Tu, Guitton, o disseste”!

E hoje, 40 anos após as diretrizes positivas e ecumênicas de Guitton ao Concílio Vaticano II, que frutos vemos na Igreja? Que frutos, até mesmo, para a tão exaltada humanidade?

Como Paulo VI, nos perguntamos:

– “Que aconteceu?”

Um dia saberemos.

***

Anotações “esquecidas” VII: O Concílio Vaticano II e o Modernismo: parecer de Jean Guitton

 

Quando eu releio os documentos relativos ao modernismo tal como foi definido por São Pio X, e os comparo aos documentos do Concílio Vaticano II, não posso deixar de ficar desconcertado. Porque aquilo que foi condenado como uma heresia em 1906 foi proclamado como sendo e devendo ser, de agora em diante, a doutrina e o método da Igreja. Dito de outra forma, os modernistas de 1906 me aparecem como precursores. Meus mestres dele faziam parte. Meus pais mo ensinaram. Como Pio X pôde repelir aqueles que hoje me aparecem como precursores?

(Jean Guitton – 1992)

O Concílio Vaticano II é unanimemente reconhecido como o maior acontecimento da história da Igreja, quiçá do mundo, do século passado. Isso porque ele introduziu na Igreja, bem como no relacionamento da Igreja com o mundo, e com todas as religiões, uma nova mentalidade, nunca antes apregoada pelos Papas.

Muito se escreveu, se escreve e se discute, sobre essa nova mentalidade, quer a seu favor, quer contra. Isso é inegável.

A mais grave imputação ao Vaticano II é que, através dos seus documentos pastorais, ele adotou e implantou na Igreja, a doutrina e o método do Modernismo, condenados particularmente pelo Papa S. Pio X em 1907. Fundamentalmente, todas as discussões sobre este último Concílio, giram ao redor deste tema.

Tal grave imputação é verdadeira ou falsa?

Vimos, nestes artigos, que Jean Guitton, além de pretender dar diretrizes ao Papa João XXIII para o Concílio, também dele participou, do início ao seu encerramento.

Ora, sendo Guitton considerado o maior filósofo católico do século XX, amigo íntimo de Paulo VI, conselheiro de João XXIII, presente nas sessões do Vaticano II e, evidentemente, conhecedor da doutrina do Modernismo, nada mais justo que ouvir seu conceito sobre tão grave acusação.

E, graças a Deus, Guitton no-lo apresenta, em objetivo e claro resumo, e por escrito, em 1992, ou seja, 27 anos após o encerramento daquele Concílio, portanto com tempo razoável para maturar e melhor formular seu valioso conceito de filósofo-católico, sobre aquela importante questão.

E o que afirmou Jean Guitton sobre o Modernismo e o Concílio Vaticano II?

Em 1992, sobre tão grave tema, Guitton assim resumiu seu conceito:

«Mas hoje, o que chamamos de modernismo em história religiosa, tem um sentido muito particular. Com este nome designamos uma doutrina e um movimento que foram condenados pelo Papa Pio X, através da encíclica ‘Pascendi’. O Papa Pio X – que foi canonizado – designa o modernismo como uma heresia que tem duplo aspecto: o de ser uma síntese, uma soma de todas as heresias, e o de se esconder traiçoeiramente no interior da Igreja.

(…) E eu desejo me exprimir livre e claramente sobre este assunto.

Quando eu releio os documentos relativos ao modernismo tal como foi definido por São Pio X, e os comparo aos documentos do Concílio Vaticano II, não posso deixar de ficar desconcertado. Porque aquilo que foi condenado como uma heresia em 1906 foi proclamado como sendo e devendo ser, de agora em diante, a doutrina e o método da Igreja. Dito de outra forma, os modernistas de 1906 me aparecem como precursores. Meus mestres dele faziam parte. Meus pais mo ensinaram. Como Pio X pôde repelir aqueles que hoje me aparecem como precursores?»

(Cfr. Portrait du Père Lagrange, Jean Guitton, Éditions Robert Laffont, Paris, 1992, p. 55-56. A tradução é nossa. Vide texto original abaixo*)

Parecer mais claro, impossível!

Faríamos só uma observação quanto à última frase de Guitton — «Como Pio X pôde repelir aqueles que hoje me aparecem como precursores?» — cronologicamente invertida por Jean Guitton, e objetivamente, não bem precisa.

Assim, cronologicamente, e mais precisamente, usando os mesmos termos de Guitton, e sem alterar o seu sentido original, a pergunta seria mais bem colocada da seguinte forma: Como o Concílio Vaticano II pode estabelecer o Modernismo, cujas doutrinas e precursores foram condenados pelo Papa S. Pio X?

De qualquer forma, o conceito de Jean Guitton sobre o Concílio Vaticano II e o Modernismo, por ele «clara e livremente expresso», como ele mesmo diz, é que «o que foi condenado como uma heresia em 1906 (o Modernismo) foi proclamado como sendo e devendo ser, de agora em diante (a partir do Concílio Vaticano II), a doutrina e o método da Igreja».

Portanto, para Jean Guitton, desde 1965 até 1992, pelo menos, a Igreja vem seguindo a doutrina e o método do Modernismo, condenados por S. Pio X.

* Texto original (em francês) de Guitton.

« Mais de nos jours, ce qu’on appelle modernisme en histoire religieuse a un sens très particulier. On appelle de ce nom une doctrine et un parti qui ont été condamnés par le pape Pie X dans l’encyclique Pascendi. Le pape Pie X — qui a été canonisé — désigne le modernisme comme une hérésie qui a un double caractère: celui d’être une synthèse, une somme de toutes les hérésies, et celui de se cacher à l’interieur de l’Église comme une trahison.

(…) Et je désire m’exprimer librement et nettement à ce sujet.

Lorsque je relis les documents concernant le modernisme tel qu’il a été défini par saint Pie X, et que je les compare aux documents du concile de Vatican II, je ne peuz manquer d’être déconcerté. Car ce qui a été condamné comme une hérésie en 1906 est proclamé comme étant et devant être désormais la doctrine et la méthode de l’Église. Autrement dit, les modernistes de 1906 m’apparaissent comme des précurseurs. Mes maîtres en faisaient partie. Mes parents me l’enseignaient. Comment Pie X a-t-il pu repousser ceux qui maintenant m’apparaissent comme des précurseurs? »

(Cfr. Portrai du Père Lagrange, Jean Guitton, Éditions Robert Laffont, Paris, 1992, p. 55–56).

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Anotações “esquecidas” VIII: Dogmas da nova religião: a “Basic Religion”

 

Dentre os papeis daquela “velha” gaveta, encontrei parte de um texto de Guitton que me intrigou. Só parte de um texto, pois, o resto, deve ter-se extraviado sabe-se lá onde, o que me causou, depois, enorme trabalho de procura.

No texto que dispunha, alguém, em julho de 1964, dizia a Jean Guitton:

“(…) a solução, de fato admitida pelo clero, é de criar, a partir do ateísmo e do cristianismo, um tipo de “basic religion”, que seria comum ao ateísmo e ao cristianismo, para a qual se converteria o cristianismo por etapas, e cujos dogmas seriam:

  • o homem é o centro da história;
  • há um progresso humano contínuo;
  • a moral se resume na solidariedade, no amor, e na fé no homem;

Os dogmas religiosos seriam mantidos, mas reconduzidos a um sentido experimental. Seria preciso eliminar do cristianismo tudo o que fosse mistério incompreensível.

Nós caminhamos para uma espécie de simbiose de uma tendência cristã, para tornar o dogma mais científico, como o fez o Pe. Teilhard de Chardin, e de uma tendência não-cristã, para tornar o ateísmo mais humano, como fazem os comunistas.”

O que imediatamente me intrigou foi uma natural curiosidade sobre o autor das afirmações citadas por Guitton. Quem teria sido seu interlocutor? Quem seria esse “profeta” da “nova religião” das últimas décadas do século XX, e início do III Milênio, que dita novos dogmas, diferentes dos anteriores, sempre ensinados pela Igreja?

Como alguém, em julho de 1964, exatamente na metade do Concílio, preveria o que Paulo VI diria sobre a religião e o homem, no discurso de encerramento do Vaticano II, bem como em outras suas inúmeras alocuções? Teria sido o próprio Papa Montini, pela exatidão das afirmações?

Se não, vejamos algumas afirmações de Montini, quanto ao culto do homem, à nova religião, ao progresso evolutivo, e ao novo humanismo simbiótico:

A – Extratos do discurso de Paulo VI no encerramento do Concílio Vaticano II:

(7 de dezembro de 1965, Ed. Fides 1966, p.635-636)

“A Igreja, nesses quatro anos, se ocupou muito do homem, do homem tal como ele se apresenta na realidade em nossa época, o homem vivo. O homem todo inteiro ocupado consigo mesmo, o homem que se faz não somente o centro de tudo o que lhe interessa, mas que ousa pretender ser o princípio e a razão última de toda a realidade […]”.

” A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião, porque ela é tal, do homem que se faz Deus”.

“Uma simpatia imensa invadiu totalmente a Igreja. A descoberta das necessidades humanas – e elas são tão maiores à medida que o filho da terra se torna maior – absorveu a atenção deste Sínodo”.

“A Igreja quase que se fez serva da humanidade”.

“Sabei reconhecer nosso novo humanismo: nós também, nós, mais que quem quer que seja, nós temos o culto do homem”.

B – Encíclica “Populorum progressio”, parágrafo 15:

“Pelo simples esforço da sua inteligência e da sua vontade, cada homem pode crescer em humanidade, valer mais, ser maior”.

(Porém, diz S. João: “Sem mim, nada podeis” Jo, XV, 5).

C – Angelus, de 07 de fevereiro de 1971, quando da primeira alunissagem:

(Documentation Catholique – 1971, p. 156).

“Honra ao homem, rei da terra, e hoje, Príncipe do Céu”.

D – Discurso na ONU, 04 de outubro de 1965 (Site Vaticano).

“Nós devemos nos habituar a pensar no homem, de uma nova maneira, como também de nova maneira devemos ver a vida em comum dos homens, os caminhos da história e os destinos do mundo”.

E – Alocução de 28 de setembro de 1971

“A Igreja entrou no movimento da história que evolui e muda”.

Com todas essas afirmações de Montini em mente, e muitas outras, ainda, semelhantes em espírito às do interlocutor de Guitton, comecei a vasculhar a fonte do documento do filósofo francês, até que, após exaustiva procura, a encontrei: está no Journal de ma Vie”, Ed. Desclée de Brouwier, Bar-le-Duc, 1976, p. 489-490.

Confesso que errei redondamente na minha suposição: o “profeta”, interlocutor de Guitton, não era, absolutamente Paulo VI, nem qualquer outro representante do clero, mas sim um tal de Christoflour. Embora Guitton não mencione, parece tratar-se de Raymond Christoflour, poeta.

O texto original e completo não é muito mais longo do que eu dispunha. Porém, e este é outro fato intrigante, Christoflour, pelo relato de Guitton, lhe dá verdadeiras ordens de atuação na linha do seu pensamento, como se fosse um superior a quem Guitton deveria obedecer, enquanto lhe apresentava o programa a seguir, para a preparação e implantação da simbiótica religião do homem, a que ele chamava de “basic religion”. Assim, por exemplo, diz Christoflour ao amigo de Montini:

(…) “Sua tarefa [em francês: “Votre tache à vous”é de evitar o quanto possível que esta simbiose seja atingida por valores inferiores, pela quantidade, e de preparar uma simbiose orgânica, pela qualidade, principalmente associando a revelação com a razão, e mostrando que, sem transcendência, todos os nossos esforços serão sem sentido(…). Este deve ser o seu esforço, me diz Christoflour. Este é o sentido da sua obra”.

A quem será que Christoflour se referia com “nossos esforços”“Nossos”… de quem?

E Guitton não lhe faz essa pergunta, parecendo, talvez, já saber de quem se tratava, nem contesta a afirmação de Christoflour, concluindo sobre o “sentido da obra” do amigo de Paulo VI.

Bem! Como disse, errei totalmente na minha suposição quanto à pessoa que antecipara a Guitton os dogmas da futura religião! Mas, o tal de Christoflour, acertou plenamente quanto à nova religião do homem a ser implantada, a “basic religion”, com seus dogmas, espinha dorsal da nova e simbiótica religião, reavivando velhos erros da doutrina modernista, condenada por S. Pio X, no longínquo 1907.

Estudando a biografia de Jean Guitton, se é levado a concluir que ele seguiu, direitinho, as ordens do misterioso Christoflour. E, pela história pós-conciliar da Igreja, vemos que Christoflour acertou plenamente em sua “profecia”.

No capítulo anterior, vimos que Guitton apresentara ao papa João XXIII suas diretrizes para o Concílio Vaticano II. Agora vemos Guitton recebendo diretrizes do enigmático Christoflour! … a quem ele, Guitton, em nada contesta!… Teria sido o próprio, e misterioso, Christroflour também o inspirador das diretrizes anteriores de Guitton ao Papa João XXIII, relativas ao Concílio Vaticano II?

Quem seria, afinal, o tal de Christoflour, além de mensageiro dos enigmáticos “nossos”? Faria ele parte dos chamados “homens de boa vontade”, ou do “livre espírito”? Porque, católico apostólico romano, absolutamente, Christoflour não era!

***

Anotações “esquecidas” IX: Jean Guitton, católico ou espírita?

 

Em artigo anterior afirmamos que Guitton não era católico apostólico romano, pois, católico é quem é batizado, crê e professa a doutrina de Cristo, ensinada infalivelmente pela Igreja Católica Apostólica Romana, a única instituída por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Dos elementos acima que definem um católico, Guitton parece ter atendido somente ao primeiro, vista a facilidade com que acatava, sem a menor objeção teológica, princípios de outras religiões, totalmente contrários aos ensinamentos da Igreja, a quem ele dizia pertencer.

Nesta perspectiva, veremos como o filósofo Guitton, considerado “o maior filósofo católico do século XX”, discípulo do não católico Bergson, confidente de muitos (e famosos) sacerdotes, bispos, e cardeais, amigo íntimo do Papa Paulo VI, e presente no Concílio Vaticano II, considerava, reverente e elogiosamente, o Espiritismo.

Sim!… Pasmem! o Espiritismo de Alan Kardec, ou seja, o gnosticismo evolucionista bem “barato”, apresentado em cardápio “comercial”, para mais facilmente ser deglutido pela massa dita espiritualista, e ávida em negar os claros ensinamentos de Cristo, defendidos e explicados pela Igreja Católica Apostólica Romana, especificamente referentes aos novíssimos do homem, ou seja: a morte, o juízo, o inferno e o paraíso.

Veremos como se portou nosso católico filósofo primeiramente diante da psicografia, postulado espírita segundo o qual um médium capta, por escrita automática, mensagem de um espírito; e, em seguida, o que afirmou Guitton sobre a SPR – Society for Phisical Research, bem como sobre a mediunidade da sua esposa.

Na sua obra “Journal de ma vie”, editada em 1976, ele dedica um tópico específico à psicografia. Transcrevemos, abaixo, a versão em português do tópico inteiro, sem comentários, ocorrido, segundo o diário de Guitton, em dezembro de 1954.

“Eu li as «Cartas de Pierre à sua mãe»”. Pierre, falecido durante a guerra, cuja voz era ouvida e captada pela sua mãe por meio de escrita automática. Qualquer explicação que se possa dar deste fato, mesmo que ilusório, as palavras de Pierre são de grande importância; assim, ele diz à sua mãe:

«Eu só posso lhe falar da terra, pois, oh! mãe, a senhora não saberia conversar sobre aquilo que se faz no mundo universal que a ultrapassa de todos os modos ».

“E ele fala à sua mãe destas combinações que se manifestam ao infinito, e que representam o conjunto da vida de um mundo terrestre, repetido, com variações, nos mundos criados”.

“Morto na guerra em 1914, ele diz à sua mãe que os mortos na guerra tornaram-se, todos, exércitos de anjos, mobilizados por Deus, e que, dali em diante, estão imediatamente à sua disposição para ajudar a Deus a prosseguir com suas missões na terra e nos astros”

(Journal de ma vieJean Guitton, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 288).

O tópico termina aqui, sem objeção alguma do grande filósofo católico, Guitton!

Perguntamos: é isso que a Igreja nos ensina sobre os novíssimos do homem: morte, juízo, inferno e paraíso?

[Aliás, quanto ao inferno, segundo a jornalista Francesca Pini (autora do livro-entrevista com Guitton “L’Infinito in fondo al cuore” – Ed. Monadatori), para Guitton, o inferno é vazio devido ao sofrimento que os santos oferecem a Deus”!… Se assim é, de onde viriam, então, o “choro e o ranger de dentes”, afirmados diversas vezes por Nosso Senhor Jesus Cristo? (Mt 8, 12; Mt 22, 13; Mt 24, 51; Mt 25, 30 e Lc 13, 28). E Lúcifer?… Onde estaria Lúcifer e seus asseclas?].

Voltemos ao texto de Guitton.

Imaginem Guitton, considerado o maior filósofo católico do século XX, lendo, reverente e contrito, as pálidas páginas do além, ditadas pelo espírito do pobre soldado Pierre, morto na I Guerra Mundial, em que afirma que “os mortos na Guerra tornaram-se exércitos de anjos”!… prosseguindo “com suas missões na terra e nos astros” … e, ainda, julgando isso ser de “grande importância”!…

Anos após, em entrevista concedida a Marino Parodi, e referindo-se à “SPR – Society for Phisical Research (prestigiosa instituição londrina, fundada há mais de quinhentos anos, à qual aderem cientistas das mais diversas disciplinas, criada com a finalidade de estudar cientificamente os fenômenos ligados ao além-túmulo, ndr“) – (A Fé, publicada no site http://www.liberalfondazione.it/archivio/speciali/Terzo_Millennio/Guitton.htm ), afirma Guitton:

“Seguindo o exemplo de Bergson, há décadas eu faço parte da ‘Society for Physical Research – SPR’. (…) A morte é, no fundo, somente a separação da alma do corpo, e esta ciência, que já nos proporciona algumas informações relativas à vida após a existência terrena, saberá nos oferecer cada vez mais luzes sobre o tema, embora jamais chegar a nos revelar a realidade total. Acrescento que não só essa questão sempre me interessou profundamente, mas minha mulher, que era dotada de capacidades mediúnicas, me ajudou a refletir de modo profundo sobre as poderosas faculdades humanas até agora latentes e ainda a explorar”.

Para o filósofo católico Guitton, a “ciência” (Sic!) que estuda os fenômenos relacionados ao além-túmulo, e que, segundo ele, “já proporcionou algumas informações relativas à vida após a existência terrena, saberá nos oferecer cada vez mais luzes sobre o tema (…)”, evidentemente luzes que nem mesmo a Sagrada Escritura e a Igreja ofereceram ao maior filósofo católico do século XX, e amigo de Paulo VI.

Pena que ele não nos revela as misteriosas “informações” proporcionadas por “esta ciência”!

Tudo isso acrescido, ainda, do especial e particularíssimo auxílio que Guitton teve da sua esposa, que era dotada de capacidades mediúnicas”, e que o “ajudou a refletir de modo profundo sobre as poderosas faculdades humanas até agora latentes e ainda a explorar”!

Imaginem Guitton, o maior filósofo católico do século XX, numa tarde de sábado fria e chuvosa de Paris, na penumbra de sua sala, refletindo profundamente nas misteriosas informações mediúnicas da sua esposa, sobre as não menos misteriosas e “poderosas faculdades humanas até agora latentes e ainda a explorar”!

Quais seriam essas vagas e misteriosas “faculdades humanas até agora latentes a ainda a explorar”, das quais, para ele, a Sagrada Escritura, Nosso Senhor Jesus Cristo e a Igreja passaram à deriva, e que só foram mediunicamente reveladas ao grande amigo de Paulo VI, Jean Guitton?… Infelizmente, para a posteridade, ele não diz!…

A posição claramente manifestada por Guitton nesse texto, quer diante das psicografadas “Cartas de Pedro à sua mãe”, quer de confessar-se membro de uma sociedade de estudos científicos (claro!) dos fenômenos do além, bem como da elogiada e frutífera mediunicidade da sua esposa, está totalmente contrária aos ensinamentos da Igreja católica, aos quais todo católico deve aceitar e, como obra de misericórdia, tem obrigação de ensinar, o que foi omitido por Guitton, professor e filósofo, e que se dizia católico.

Guitton professava e ensinava, de fato, a doutrina da Igreja?

Guitton era católico?

***

Anotações “esquecidas” X: O modernista Jean Guitton afirma: a “nova Missa” de Paulo VI parece a tradução de um serviço protestante

 

“… agora têm-se a sensação de que ela seja
a tradução de um serviço protestante”
(J. Guitton – 1998)

Falando sobre a reforma da liturgia da Missa, imposta à toda a Igreja pelo Papa Paulo VI nos anos 70, Jean Guitton faz, dentre outras, as seguintes afirmações:

1 – “Antes do Concílio, a Missa era a Missa. Evidentemente era em latim, não se entendia nada, mas tinha-se a impressão (impressão???) que era a Missa. Porém, agora, têm-se a sensação que ela seja a tradução de um serviço protestante. Do meu ponto de vista, a reforma desejada pelo concílio (Vaticano II) era boa; claro que ela não queria que a Missa, a Eucaristia, fossem sacrificadas, nem principalmente reduzida àquilo que os protestantes fazem durante a sua cerimônia, que chamamos ceia. Por exemplo, quando se decidiu que o sacerdote não a celebrasse mais voltado para o altar, dando suas costas aos fiéis, mas sim voltado a eles, foi executada uma reforma decisiva que realmente perturbou muitos cristãos. Com razão (Com razão ???) quis-se celebrar a liturgia na língua comum — para que os fiéis a compreendessem —, mas sem querer abolir o sagrado. Hoje, praticamente, a Eucaristia não tem mais o caráter sagrado, sério e divino que tinha no passado. (…)”.

(J. Guitton com Francesca PiniL’infinito in fondo al cuore, Ed. Mondadori, Milão, 1998, p. 103. O negrito é nosso).

2 – “(…). Frequentemente me pergunto se os sacerdotes que rezam a Missa creem realmente que a hóstia seja o corpo e o sangue de Cristo. Principalmente quando — terminada a função — vemo-los fugir rápido e apressados da igreja, como se tivessem terminado a sua jornada. Então as pessoas se perguntam se os sacerdotes creem realmente. Se eles não creem, portanto, por que razão deveriam eles crer?” (Op. cit. p. 104. O negrito é nosso).

3 – Perguntado se a Missa corre, hoje, o risco de se assemelhar a uma liturgia da palavra, responde Guitton:

“Os protestantes não têm esta ideia do sacramento, da transubstanciação: eles repetem aquilo que Jesus Cristo fez, mas de modo simbólico. A ceia deles é uma liturgia da palavra, não é um ato que transforma (transforma ou transubstancia ???) o pão e o vinho no corpo e no sangue de Cristo no sentido fundamental do gesto, assim como pensam (?) os católicos. A Igreja católica tem razão de querer tornar a sua liturgia mais acessível e compreensível aos protestantes, mas não pode abandonar a essência do catolicismo: que no pão e no vinho consagrados estão o corpo e o sangue de Cristo no sentido substancial, verdadeiro e profundo”.

(idem, p.104. O negrito é nosso).

Perguntamos: Jean Guitton, considerado o “maior filósofo católico do século XX”, amigo íntimo de Paulo VI, presente no concílio Vaticano II e único leigo nele a discursar (aliás, fato jamais ocorrido em toda a história dos concílios da Igreja), ao criticar a “Nova Missa” de Paulo VIafirmou uma verdade, ou não?

Na qualidade de simples fiéis e leigos, aguardamos resposta séria, clara e objetiva, principalmente dos teólogos, àquela importante e atual questão.

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Anotações “esquecidas” XI

 

Para mim há uma só Encarnação, mas houve duas Anunciações
(J. Guitton)

(Maria) se casa com um homem, José, com o qual não tem relações,
mas do qual tem um menino, coisa bem estranha

(J. Guitton)

A íntima e longa amizade entre Mons. Montini e Jean Guitton se iniciou em 1950, quando o então Santo Ofício, na pessoa de Mons. Parente, analisando a obra “La Vierge Marie”, publicada no ano anterior pelo famoso filósofo francês, estava prestes a condená-la como herética, colocando-a no “Índice dos Livros Proibidos (INDEX). Isto porque, contrariamente ao que narra o Evangelho e o que a Igreja sempre ensinou, Guitton afirmou:

“no momento da Encarnação, a Virgem não conhecia a divindade de Cristo“.

(J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 202-203; J. Guitton con Francesca Pini, L’infinito in fondo al cuore, Ed. Mondadori, Milão, 1998, p. 36).

(J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 202-203; J. Guitton com Francesca Pini, L’infinito in fondo al cuore, Ed. Mondadori, Milão, 1998, p. 36. A tradução é nossa).

Guitton, ao tomar ciência daquela grave intenção do Santo Ofício, recorreu ao Núncio Apostólico em Paris, Mons. Angelo G. Roncalli, futuro Papa João XXIII, para saber como evitar a condenação do seu livro. Incontinente, Mons. Roncalli recomendou-lhe que procurasse, em Roma, Mons. Montini, então substituto na Secretaria de Estado do Vaticano, para Assuntos Internos da Igreja.

Montini, mesmo antes de conhecer pessoalmente o famoso escritor francês, já lera muitos dos seus livros, inclusive a obra em questão, “La Vierge Marie”, que lhe “agradou muito”, chegando a dizer a Guitton, quando daquele primeiro encontro:

«Gostei muito do seu livro sobre a Virgem. (…) Depois das páginas de Newman, na sua famosa carta ao Dr. Pusey, penso jamais ter lido páginas sobre a Virgem que me tenham agradado tanto. É preciso ser, ao mesmo tempo, antigo e moderno, falar conforme a tradição e também conforme a nossa sensibilidade»

(J. Guitton, Dialogues avec Paul VI, Ed. Fayard, Paris, 1967, p.21; e Yves Chiron, Paul VI, le pape écartelé, Ed. Perrin, Paris, 1993, p. 139. A tradução é nossa).

Assim, Mons. Montini, além de manifestar seu elevado apreço àquela obra herética de Guitton, lhe apresenta, como fundamento, uma tese do Modernismo condenada por S. Pio X: não basta “falar conforme a tradição (da Igreja), mas também deve-se falar de modo “moderno” e “conforme a nossa sensibilidade”.

Seria o caso de perguntar ao então Mons. Montini — na eventual hipótese de incompatibilidade entre aquelas duas formas de interpretação, por ele recomendada, qual delas um católico deveria seguir: a da “tradição” da Igreja (não “antiga” porque de sempre), ou a “moderna”, seguindo sua própria “sensibilidade”. Nesse sentido, Guitton, como Lutero, seguiu somente a segunda forma de interpretação: a “moderna”, fundamentada exclusivamente na sua “sensibilidade”.

Veremos, mais adiante, qual foi a interpretação “moderna” que Jean Guitton fez da Anunciação, seguindo a sua própria “sensibilidade”, contrariando o Evangelho, a “tradição” e o Magistério infalível da Igreja, que “tanto agradou” a Mons. Montini, e que tanto desagradou ao Santo Ofício, incumbido da defesa do Depositum Fidei!…

A audiência de Guitton com Mons. Montini realizou-se no dia 8 de setembro de 1950, data que ficaria na história de ambos, pois, a partir dela, Montini exigiu que Guitton o visitasse todos os anos, onde quer que ele estivesse, sempre naquele dia. E assim foi feito, até a morte de Paulo VI.

Entretanto, a apreensão de Guitton, quanto à possível condenação da sua obra, logo se dissipou nos primeiros minutos daquele encontro, pois, “Montini já havia tomado todas as providências para evitar a condenação do livro” (cfr. Yves Chiron, Op. cit. p. 139), como o próprio Mons. Montini dirá a Guitton em 1952, inclusive criticando pessoalmente (não doutrináriamente) Mons. Parente:

Quanto a Mons. Parente que escreveu contra você, ele é um espírito muito impetuoso. Com uma caneta na mão, ele não pára. Ele não percebeu as incidências morais, pessoais, até políticas do artigo que escreveu contra você. Nós (quem?) vamos reparar tudo isto

(J. Guitton, Journal de ma vie, Ed. Desclée de Brouwer, Bar-le-Duc, 1976, p. 254. A tradução é nossa).

De fato, bem antes daquele encontro, Mons. Montini já havia preparado e apresentado ao Papa Pio XII, um texto exaltando aquela obra que o Sumo Pontífice assinou, impedindo, dessa forma, a condenação do Santo Ofício (cfr. Y. Chiron, Paul VI, le Pape écartelé, op. cit. p. 139), que só em maio do ano seguinte, e brandamente, pediu a Guitton para eliminar um determinado capítulo nas futuras edições do livro La Vierge Marie. Guitton obedeceu, e, com uma nota explicativa, publicou a segunda edição em 1953, eliminando a parte condenada; porém, a edição seguinte, de1986, retoma o texto original.

A descrição que Guitton fez posteriormente daquela audiência, nos dá uma imagem bem real do clima extremamente cortês e afável em que ela se desenrolou. (Guitton começa comparando Mons. Montini ao “anjo de Reims” cfr. Dialogues avec Paul VI, op. cit. p. 22). Pareceu mais um reencontro de dois velhos e conhecidos amigos, após longa distância, trocando informações e opiniões sobre assuntos diversos, do que uma audiência entre um Monsenhor, substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, e o autor de uma obra considerada herética pelo Santo Ofício.

Assim, falaram sobre o Ecumenismo, sobre Lord Halifax e Pouget; comentaram a encíclica Humani Generis e a inteligência dos franceses; trataram do excomungado Modernista Loisy e da carta elogiosa de Montini ao filósofo, também Modernista, Maurice Blondel; divagaram sobre o tomismo, sobre o Pe. de Lubac, sobre o Pastor Max Thurian. Trataram de tudo!… Porém, pouco, ou quase nada, do livro La Vierge Marie, finalidade primordial daquele encontro.

Na realidade, quanto àquela obra, herética para o Santo Ofício, Mons. Montini mostrou-se interessado somente em saber qual havia sido a reação dos protestantes franceses a ela, especialmente a do pastor Boegner, não demonstrando qualquer preocupação quanto à heresia nela apontada pelo Santo Ofício. Quando Guitton lhe confirmou que o livro havia agradado tanto aos protestantes franceses, em geral, como ao pastor Boegner, em particular, Mons. Montini conduziu a conversa para outros temas (cfr. J. Guitton, Dialogues avec Paul VI, op. cit. p. 19 -32).

Iniciava-se, assim, a longa e íntima amizade entre Mons. Montini e o Modernista Jean Guitton, salvo pelo próprio Mons. Montini “das garras do Santo Ofício”, conforme ele mesmo dirá ao filósofo francês, em novembro de 1963 (J. Guitton, Paolo VI segreto, Ed. San Paolo, Milano,1985, p.58).

Como, infelizmente, não dispomos da versão original do livro La Vierge Marie, que “tanto agradou a Mons. Montini e ao pastor protestante Boegner”, veremos, em seguida, o que o próprio Guitton dele diz, em 1994, à jornalista italiana Francesca Pini, na citada obra “L’infinito in fondo al cuore”, páginas 36 a 40 (Tradução e negrito nossos).

Perguntou-lhe a jornalista F. Pini:

“É verdade que, por causa de um seu livro, a censura do Vaticano o considerou quase um herege?

Jean Guitton: «O que você me pergunta se refere a um livro que escrevi sobre a Virgem, e que muito agradou a Giovanni Battista Montini (depois Papa Paulo VI), o qual o considerou como o mais lindo texto jamais escrito sobre a Virgem. Além disso, Montini sempre me disse que sua amizade comigo deveu-se justamente a este livro».

  1. Pini: “Qual era o seu conteúdo?”

JG: «Escrevi que, no momento da Encarnação, a Virgem não conhecia a divindade de Cristo. Então, o censor, talvez o Cardeal Parente, decidira colocar o meu livro no Index. Montini, porém, fez todos os esforços para salvá-lo, falando com seu “chefe”, Pio XII, para impedir a sua condenação».

  1. Pini: “Isso quer dizer que a Virgem não sabia da divindade de Cristo no momento da Encarnação?”

JG: «Para mim (?), há uma só Encarnação, mas houve duas (?) Anunciações. Esta é uma ideia toda minha, não de outros teólogos ou exegetas. Duas foram, conforme meu parecer, as Anunciações: aquela que está relatada no Evangelho, quando Maria recebe a visita de um anjo que lhe diz «Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum, benedicta tu in mulieribus et benedictus…»

[A bem da verdade, a expressão “Benedicta tu in mulieribus et benedictus…” não foi dita pelo anjo, mas por Sta. Isabel, prima de Nossa Senhora, quando da visita que esta lhe fizera, cfr. Lc 1, 42].

Prossegue Guitton:

«Então, me perguntei: o que dizia o anjo à Virgem? Que ela seria mãe do Messias. Mas ser a mãe do Messias (ou seja, de uma pessoa muito importante, esperada pelos judeus) não é ser a mãe de Deus (?)Daí pensei, deduzi (?) que um dia a Virgem tivesse recebido uma outra diferente (?), Anunciação. Encontrava-se ela em Nazareth (provavelmente (?) Jesus tinha por volta de três anos), quando teve a visita de um anjo que a informava que o seu menino não era um homem (?), mas Deus. E esta é uma Anunciação infinitamente superior à primeira (?)A ideia das duas Anunciações, porém, pareceu (?) herética ao cardeal Parente que pretendeu me condenar por causa da minha tese. Recebi, então, uma carta do Vaticano, pedindo-me para retirar a página do livro em que havia feito aquela afirmação».

Assim, o “maior filósofo católico do século XX”, Jean Guitton, desprezando os ensinamentos da Revelação e da Igreja, vai além do livre exame de Lutero. Baseando-se somente na sua exuberante engenhosa imaginação, e seguindo o todo seu modo “moderno” e a sua “sensibilidade” de interpretar a Escritura, recomendada por Mons. Montini, chega àquela herética afirmação.

Curioso que ele, Guitton, também sempre afirmou que a fé, na Revelação, devia ser fundamentada no método histórico – crítico, o que ele mesmo não faz neste caso, baseando-se exclusivamente na “sua” própria imaginação e sensibilidade, nada científicas, entulhadas de puro subjetivismo, como demonstram as expressões por ele utilizadas: “Para mim”“ideia toda minha”“meu parecer”, “me perguntei”“pensei, deduzi, provavelmente”, etc… E, através dessa forma Modernista de interpretar a Escritura, Guitton chega à sua herética conclusão, que acha ser verdadeira, não merecendo, nem para ele, nem para Mons. Montini, ser objetada e muito menos condenada pelo Santo Ofício, que, para Guitton, não tinha o direito de achar diferentemente dele, conforme ele mesmo dirá a Mons. Montini em 1952, exigindo até condições intelectuais específicas para os censores do Santo Ofício, “sem nenhuma objeção do Monsenhor” (cfr. Journal de ma vie, op. cit. p. 254).

[En passant, na qualidade de simples fiéis e leigos, perguntamos aos teólogos e exegetas se, neste caso, caberiam a Guitton as palavras que Deus coloca na boca do profeta Jeremias, referindo-se aos falsos anunciadores da palavra:

«E o Senhor disse-me: “Esses profetas falsamente vaticinam em meu nome; não os enviei, nem lho mandei, nem lhes falei; tudo o que profetizam é uma visão mentirosa, uma adivinhação, impostura, engano de seu coração“» (Jer 14, 14).

Ou ainda:

«Eis que venho contra os profetas que sonham mentiras, diz o Senhor, que as contam e enganam o meu povo com suas mentiras e os seus milagres, não os tendo eu enviado, nem dado ordem alguma a esses homens, que nenhum bem tem feito a este povo, diz o Senhor” (Jer 23, 32)].

Sobre o pedido do Santo Ofício a Guitton, em 1951, de eliminar aquela página do seu livro, nas futuras edições, pergunta a jornalista Francesca Pini ao amigo de Mons. Montini:

  1. Pini: “E o senhor fez isso?”
  2. Guitton: «Sim. Como me foi pedido, fiz uma edição excluindo aquela página».
  3. Pini: “Portanto, o senhor obedeceu…”
  4. Guitton: «Sim, obedeci, mas como obedeço sempre: com a ideia de que era uma estupidez, mas que, entretanto, era preciso fazê-lo».
  5. Pini: “Portanto, na primeira Anunciação, a Virgem não conhecia ainda a natureza do seu filho?

Jean Guitton: «Não. O Messias, para os hebreus, era um homem, um hebreu inteligente como Salomão, David e também Moisés. Era um homem, não Deus».

  1. Pini: “Mons. Montini nada mais fez, depois, para reinserir aquela página?”
  2. Guitton: «Não, não fez nada, deu-me, porém, a sua amizade, mostrando assim uma grande misericórdia da sua parte. Como, repito, a sua amizade comigo fora devido ao meu livro, que ele apreciava muito. Além disso, me confidenciou que eu lhe havia revelado a Virgem Maria, naturalmente do ponto de vista filosófico, não do religioso».

Assim, o estranho agrado de Mons. Montini por aquele livro, visto como herético pelo Santo Ofício, foi o fundamento da estreita e íntima amizade entre o modernista Guitton e o substituto da Secretaria de Estado do Vaticano, que o defendeu e protegeu.

Aqui, outro aspecto do método do Modernismo atribuído por Guitton a Mons. Montini, ressaltado pelo Papa S. Pio X, ao condenar aquela doutrina herética através da encíclica Pascendi: os modernistas se ‘revestem’ ora de filósofos, ora de teólogos, ora de cientistas etc., para combater e destruir o Dogma da Igreja. E Mons. Montini, segundo as palavras de Guitton, curiosamente adota aquele método ao distinguir o “ponto de vista filosófico” do “religioso”, como se a Revelação e o Magistério da Igreja, incluindo o Dogma, pudessem ser verdade sob um “ponto de vista”, e falsidade sob outro. É a linguagem relativista e dúbia condenada por Nosso Senhor Jesus Cristo, que nos ordenou: “Seja o vosso falar, sim, sim, não, não. O que vier a mais provém do maligno” (Mt 5, 37).

Prossegue a jornalista Francesca Pini:

  1. Pini: “Esta amizade com Paulo VI é talvez o modo com qual o bom Deus quis recompensá-lo por ter escrito um livro verdadeiro (?)sobre a Virgem”
  2. Guitton: «É exatamente isso que penso».
  3. Pini: “Por que o senhor tratou Maria do ponto vista filosófico?”
  4. Guitton: «Não posso explicá-lo agora, porque revelaria tudo o que será publicado depois da minha morte. Mas, como filósofo, estudar a Virgem Maria, para mim significa analisá-la como fiz com Platão, Cartesio, Heidegger e Bergson».

Guitton, protegendo-se agora sob o manto de “filósofo”, reduz o estudo da Santíssima e Sempre Virgem Maria, em cujo seio o Verbo de Deus, Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade se encarnou, ao nível natural dos filósofos gnósticos.

  1. Pini: Foi o estado de perfeição da Virgem que lhe interessou de modo particular?“.
  2. Guitton: «Como filósofo, eu a estudo sob cada detalhe. Em primeiro lugar, aquele da jovem moça que se casa com quinze anos com um homem, José, com o qual não tem relações, mas do qual(?)tem um menino, coisa bem estranha (?) (…)».

Eis, aqui, o ponto fundamental da heresia que Guitton queria difundir!… Travestido de filósofo” proclama ele uma tese “teológica”… e herética… que, evidentemente só podia “tanto agradar ao Pastor Boegner e aos protestantes franceses”, após toda aquela sua engenhosa e inventiva introdução, em si também herética, das “duas Anunciações e uma Encarnação”. Guitton afirma que Jesus é filho de José (“do qual – Maria – tem um menino“), negando, dessa forma, a concepção de Nosso Senhor pela atuação direta do Espírito Santo, no seio de Nossa Senhora, portanto, negando a Virgindade da sempre Virgem Maria, Dogma dos mais odiados pelo protestantismo e pelo Pastor Boegner, negando sua maternidade divina, e injetando ‘serpentinamente’ nas almas católicas, o veneno da dúvida, através do seu comentário final: “coisa bem estranha“…

E Montini, o futuro Paulo VI apreciou essas heresias.

Dessa forma, entendemos perfeitamente por que a tese herética de Guitton tenha “agradado aos protestantes franceses e ao Pastor Boegner”. Só não entendemos como ela “tanto agradou a Mons. Montini“!… “Coisa bem estranha“…

Assim, perguntamos aos teólogos dos nossos tempos:

1 – A tese de Guitton acima, declarada por ele, é herética?…

Sim, ou não?

2 – Se não é herética, por que a Igreja não a assume como verdadeira, revisando o Evangelho de S. Lucas e nele inserindo a guittoniana “segunda Anunciação” , sem se esquecer — claro — de pedir perdão ao mundo pelo “erro” mantido durante 1950 anos, até que o amigo de Montini, Guitton, ex-catedra, a desvendasse à enganada humanidade?

3 – Se herética, como foi possível que ela tenha “tanto agradado a Mons. Montini”, a ponto de salvá-la da condenação do Santo Ofício e, através dela, selar uma amizade íntima e duradoura com o seu engenhoso inventivo criador? …

“Coisa bem estranha”! …

Com a palavra, os teólogos dos nossos tempos.

 

Marcelo Fedeli

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