Orlando Fedeli

ATAQUE E NOS DEFENDEREMOS

Carta Aberta a DOM ESTEVÃO BETTENCOURT,
na festa de São João Bosco, em São Paulo, 31 de janeiro de 2001.

(leia no final desta carta o artigo de D. Estevão
e clique aqui para ler a carta-resposta de D. Estevão)

 

 

Reverendíssimo Dom Estevão,
Salve Maria!

I — Introdução: uma pequena contradição de Dom Estevão

Que surpresa, caro Dom Estevão, receber, ainda que indiretamente, notícias suas!

E notícias suas tratando de um artigo meu, publicado em julho 1996, que eu lhe enviara então.

Surpresa também pelo fato de que, em sua carta de agradecimento pelo envio do jornal Veritas, onde saíra o artigo, o senhor me dizia:

“Gostei especialmente do primeiro artigo [Viva o Papa!] com poucas restrições relativas ao Papado de hoje; eu não ousaria criticá-lo como aliás está dito na página 6 do Boletim, onde creio ter relido uma carta minha dirigida ao senhor. Se de fato é, agradeço-lhe a atenção” (carta de Dom Estevão Bettencourt a Orlando Fedeli 5-IX-1996. O sublinhado é meu).

Parece, então, que depois de anos de meditação, seu agrado com meu artigo mudou um tanto. E que cresceram suas “restrições”. Pena que V. Rvdma. não me tenha enviado diretamente sua “restrição” agigantada. Nossa polêmica sobre o Vaticano II – talvez o senhor prefira dizer nosso “diálogo” — se estendera desde 1987 até 1989. Agora…até quando?

É verdade que, nesse diálogo-polêmica, tratáramos do último Concílio Ecumênico e da liberdade de religião, que o senhor defendia com base no Vaticano II, e que eu atacava, baseando-me no Magistério Ordinário e Infalível dos Papas.

É preciso lembrar ainda que foi o senhor que iniciou o diálogo-polêmica, dando-me a honra de receber suas cartas, críticas e observações.

Infelizmente, em dado momento, quando rebatera eu seus argumentos com citações do Magistério Ordinário e Extraordinário dos Papas, o senhor mudou o foco do debate, passando a tratar de meus defeitos pessoais.

Respondi-lhe então que não eram os meus defeitos que estavam em discussão, e sim a liberdade de religião, condenada inúmeras vezes pelo Magistério Ordinário dos Papas, como também pelo Magistério Extraordinário.

A polêmica-diálogo findou, mas continuamos, graças a Deus, amigos, tendo trocado pequenas mensagens de cumprimentos, pelas festas.

Agora, como raio em céu sereno, recebi — indiretamente — seu trovão de crítica.
Surpresa.
Mas…trovão pressagia tempestade. E não fui eu que a causei. Lamento que o senhor se molhe, caso chova.

Parece-me que a polêmica com que o senhor teve a bondade de me honrar, e que estava encerrada há tanto tempo, vai recomeçar.
Agradeço-lhe a surpresa desta nova honra.
(Outras surpresas ainda me reservava sua crítica à minha pessoa, das quais tratarei mais adiante.)

 

II — Uma Distorção — certamente involuntária — de Dom Estevão

Vamos inicialmente a uma distorção, seguramente involuntária, de sua parte.

O senhor tem a bondade de fazer entrever que aceito de toda alma e de todo coração tudo o que os Papas ensinam infalivelmente — ex cathedra. É bem verdade: eu morreria para manter minha fidelidade à Igreja e ao Papa, a quem dediquei minha vida.

Mas o senhor me acusou injustamente, quando escreveu:

“O Sr. Orlando Fedeli é membro dissidente da TFP (Tradição, Família e Propriedade), mas ainda professa concepções nem sempre fiéis ao Concílio do Vaticano II. Publicou um folheto intitulado “VIVA O PAPA!”, em que professa crer na infalibilidade do Sumo Pontífice quando fala ex-cathedra, mas atribui ao Papa erros de doutrina e procedimento quando se manifesta por outra via.” ( o sublinhado é meu).

E ainda:

“O Sr. Orlando Fedeli argüi os últimos Papas de ter incorrido em erros   doutrinários, apesar de gozarem do carisma da infalibilidade quando se   pronunciam ex-cathedra, ou seja, como Mestres da fé e da Moral em caráter  definitório. – Tal atitude não condiz com o pensamento da Igreja, que  recomenda aos fiéis respeito às afirmações do Santo Padre, mesmo quando não  fala ex-cathedra.” (O negrito é meu).

Meu caro Dom Estevão, que injusta e precipitada interpretação!

Que surpresa verificar uma tal incompreensão de sua parte!

Eu nunca disse que o Papa “tem erros de doutrina e procedimento quando se manifesta por outra via”, quando ensina sem usar o seu carisma da infalibilidade.

O que o Concílio Vaticano I definiu como dogma é que o Papa é infalível quando fala ex cathedra, e que, portanto, quando o Papa não fala ex cathedra ele pode não ser infalível. E que, embora o que ele ensine deva ser aceito respeitosamente também no Magistério Ordinário, nem tudo o que ele ensina desse modo é infalível. Portanto, que ele pode errar, e não que ele erra quando não fala ex cathedra. Eu nunca disse esta tolice, meu caro Dom Estevão, e a repudio.

Afirmo e reafirmo que os Papas são infalíveis quando se pronunciam ex cathedra. Daí a concluir que recuso o que eles ensinam, e que não respeito “as afirmações dos Papas, quando não falam “ex cathedra”, há um salto ilógico e injusto.

Disse eu apenas — repito, para que fique muito bem entendido – que o Papa jamais pode errar quando ensina ex cathedra.

 

Mas eu nunca afirmei que não se deve respeitar o Magistério Ordinário dos Papas.

Exatamente quando a Santa Sé pede a união dos católicos, e até com os Católicos que têm restrições às reformas provenientes do Vaticano II, sua ilação, sem base no que escrevi, me surpreende.

Aceito de toda alma, e de todo coração sem reservas, e com todo o respeito, tudo o que o Magistério Ordinário tem ensinado no decorrer da História, confirmando um Papa o que os outros ensinaram, mesmo sem se pronunciar ex cathedra, e na medida em que a Igreja exige essa submissão e aceitação.

Portanto, acato também o que a Igreja recomenda, e me submeto a tudo o que Ela manda.

Isto porque a continuidade de um ensinamento papal, ainda que sem o uso expresso da infalibilidade, tem que ser aceito pelos fiéis. Não há dúvida sobre isto.( cfr. Cardeal Journet, L’Église du Verbe Incarné, Vol. I, p. 568, nota 1 e idem Vol I, p. 534, nota 2)

O senhor apresenta a autoridade do Concílio como de Magistério Ordinário e não extraordinário. E tem razão, porque o Concílio se quis apenas pastoral.

Mas o senhor acrescenta que eu erro porque o Concílio afirma que mesmo o Magistério Ordinário deve ser aceito. Claro que deve ser aceito respeitosamente, no grau e na mente em que o pronunciamento do Magistério Ordinário foi feito.

Veja suas próprias palavras e a sua própria citação da Lumen Gentium:

“Religiosa submissão da vontade e da inteligência deve ser, de modo particular, prestada ao autêntico magistério do Romano Pontífice mesmo quando não fala ex-cathedra. E isto de tal forma que seu magistério supremo seja reverentemente reconhecido, suas sentenças sinceramente acolhidas, sempre de acordo com sua mente e vontade. Esta mente e vontade consta principalmente ou da índole dos documentos ou da freqüente proposição da mesma doutrina ou de sua maneira de se exprimir” (Const. Lumen Gentium, n° 25. O negrito é meu).

Ora, a Comissão Teológica do Concílio Vaticano II, tratando da autoridade dos pronunciamentos conciliares declarou em 16 -XI – 1964:

“Tendo em conta a praxe conciliar e o fim PASTORAL do presente Concílio, este sagrado Concílio só define aquelas coisas relativas à fé e aos costumes que abertamente declarar como de fé. Tudo o mais que o Sagrado Concílio propõe, como doutrina do Supremo Magistério da Igreja, devem-no os fiéis receber e interpretar segundo a mente do mesmo Concílio, a qual se deduz quer do assunto em questão, quer do modo de dizer, segundo as normas de interpretação teológica”. (Compêndio do Vaticano II, ed. Vozes, Petrópolis1969, p. 21-22. Os negrito são meus).

Propõe. Não impõe.

E o próprio Paulo VI, em discurso pronunciado em janeiro de 1966, logo depois de encerrado o Concílio Vaticano II, respondeu, ele mesmo, qual era a autoridade com a qual se pronunciara o Concílio, e como os fiéis deveriam acatá-lo.

Disse Paulo VI:

“Há quem pergunte que autoridade, que qualificação teológica o Concílio quer atribuir aos seus ensinamentos, pois bem se sabe que ele evitou dar solenes definições dogmáticas envolventes da infalibilidade do Magistério Eclesiástico. A resposta é conhecida, se nos lembrarmos da declaração conciliar de 6 de Março de 1964, confirmada a 16 de novembro desse mesmo ano. [Documento acima citado]

Dado o caráter Pastoral do Concílio, evitou este proclamar em forma extraordinária [ex cathedra] dogmas, dotados da nota de infalibilidade. Todavia, conferiu a seus ensinamentos a autoridade do Supremo Magistério da Igreja” (Apud Compêndio do Vaticano II p. 31. Os negritos são meus).

A autoridade insuspeita de Paulo VI dirime qualquer dúvida sobre o caráter não infalível — portanto, falível — do Vaticano II. Trata-se o Concílio, portanto, de Magistério ordinário da Igreja.

Lembremos, entretanto, que o Magistério Ordinário só obriga gravemente quando ensina pontos de doutrina ou de moral, de modo constante e universal, repetindo um Papa o que os anteriores ensinaram por longo período. e dependendo do modo como, nesse magistério, o Papa exprime seu desejo de definir.

Quando se tratam, “ao contrário, de ensinamentos que não são propostos nem com esta universalidade, nem com esta constância, soluções a problemas recentes que a Igreja ainda não generalizou, e nos quais mais precisamente, ela não entende engajar plenamente sua autoridade prudencial, nós diremos que o Magistério não os propõe senão de modo falível” (Cardeal Journet, op cit. I, p. 456).

Nesses casos, “sem ter direito a uma fé divina ou infalível [os ensinamentos pontifícios não dados expressamente como infalíveis] merecem sempre uma fé humana, e uma fé humana certa, tanto quanto não seja evidente, e ele o será raramente, que a Igreja se enganou de fato. É esta fé humana concedida aos ensinamentos não infalíveis da Igreja, e chamada em nossos dias de assentimento piedoso, que se deveria batizar pelo nome de fé eclesiástica, do mesmo modo que chamamos de lei eclesiástica as leis humanas e variáveis da Igreja, para distinguí-las das leis verdadeiramente divinas e imutáveis” (F. Marin-Sola, L’Évolution homogène du dogme catholique, t. I, p.429 cf. p. 479, e p. 493, nota 1). Nós distinguimos, portanto, duas espécies de assentimento: a fé divina e a fé eclesiástica ou assentimento piedoso. Alguns distinguem três: a fé divina, a fé eclesiástica ou mediatamente divina, o piedoso assentimento. Nesta divisão tripartite, a categoria intermediária deve ser, segundo nós, reduzida à primeira categoria” (Cardeal Journet, L Église du Verbe Incarné, Desclée de Brouwer Friburgo, 1955, I, p. 454, nota 2. Os itálicos são do original).

Portanto, segundo o Cardeal Journet, aos ensinamentos não infalíveis se deve dar apenas uma fé eclesiástica.

Aliás, — argumentando ad hominem — o fato de vários Papas, após o Vaticano II, terem pedido perdão por “pecados e erros da Igreja”(sic), e até por excomunhões de hereges, faz supor que eles admitem que alguns Papas anteriores, de fato, erraram.

Como então se escandalizar que um mero professor diga que existe a possibilidade de erro em documentos não infalíveis?

Estranho sua distorção e sua incompreensão, porque o que afirmo sobre a infalibilidade, é exatamente o que o senhor afirmou em Pergunte e Responderemos :

“… a infalibilidade que a Santa Igreja atribui (e que de fato compete) ao Papa não é absoluta, mas relativa, ou seja, restrita a temas de fé e de moral; não é pessoal ou inerente à pessoa, mas ao cargo do Pontífice; o que quer dizer que o Papa pode errar quando fala ou age como pessoa particular, só sendo preservado de falta nas ocasiões raras e extraordinárias em que intencione definir alguma proposição, empenhando explicitamente a sua autoridade de Chefe visível da Igreja”( Dom Estevão Bettencourt, Pergunte e Responderemos, n*7, julho de 1958 qu. 10, p. 302. O itálico é do autor.).

Repito, em negrito, o que o senhor afirma e que condenou em mim:

“o Papa pode errar quando fala ou age como pessoa particular, só sendo preservado de falta nas ocasiões raras e extraordinárias em que intencione definir alguma proposição, empenhando explicitamente a sua autoridade de Chefe visível da Igreja”(Dom Estevão Bettencourt).

Faço minhas as suas palavras.
Por que então o senhor me condena, se repeti o que a Igreja ensina e o senhor escreveu?
Até parece que o senhor não me leu de boa vontade, mas de espírito pré concebido…

 

III – O Vaticano II e o Magistério Ordinário

O que criou grande confusão foi, exatamente, a necessidade de explicar que um Concílio –o Vaticano II — meramente pastoral, e não dogmático, tenha ensinado coisas que contrariam o que sempre foi ensinado pelos Papas, através do seu Magistério Ordinário ( e também do Magistério infalível, se o Syllabus for considerado desse tipo).

Se todos os católicos – e não apenas eu – devem aceitar o que os Papas têm ensinado constantemente e universalmente em seu Magistério Ordinário, condenando a liberdade de religião como erro pestilento, monstruoso, como um delírio; como explicar que o Vaticano II tenha aprovado e defendido essa mesma liberdade de religião?

Veja, caro D. Estevão, que sua acusação se volta contra o senhor e contra o Vaticano II, por terem aprovado o que os Papas condenaram em inúmeros documentos do Magistério Ordinário e, quiçá, Extraordinário (se o Syllabus for classificado como tal).

A confusão atual na Igreja provém principalmente das “novidades” do Vaticano II, que – ensinando pastoralmente e não infalivelmente – aprovou doutrinas contrárias às que haviam sido ensinadas constante e universalmente pelo Magistério Ordinário da Igreja.

O senhor negava isso.

Eu sei.

(Como veremos, adiante, o senhor mudou depois a sua posição, tendo admitido — com Dom Boaventura Kloppenburg — a ambigüidade de textos do Vaticano II, quanto à expressão “liberdade religiosa”).

Nosso debate epistolar tratou exatamente disto: a liberdade de religião, defendida pelo Vaticano II, foi condenada repetidamente por inúmeros Papas através de seu Magistério Ordinário, e alguns consideram que também infalivelmente, por exemplo, no Syllabus (como sua crítica a mim é de que não aceito o Magistério Ordinário, deixemos de lado a exata qualificação do Syllabus. Tomemo-lo, como documento do Magistério Ordinário).

Aplicando sua opinião, todos os católicos — inclusive eu, mas também o senhor, e todos os bispos, e até o Concílio Vaticano II — devem aceitar o que o Papa Pio IX estabeleceu neste documento: o Syllabus, de solenidade tão especial.

 

IV — Syllabus e Antisyllabus

Ora, o Cardeal Ratzinger, em um de seus livros, escreveu o seguinte, ao analisar a Gaudium et Spes :

“Se se deseja emitir um diagnóstico global sobre este texto poder-se-ia dizer que significa (junto com os textos sobre a liberdade religiosa e sobre as religiões mundiais) uma revisão do Syllabus de Pio IX, uma espécie de Antisyllabus“(Cardeal Joseph Ratzinger, Teoria dos Princípios Teológicos, Editorial Herder, Barcelona, 1985, pág. 457).

E em seguida escreveu o Cardeal Ratzinger:

“Contentemo-nos aqui com a comprovação de que o documento desempenha o papel de um Antisyllabus, e, em conseqüência, expressa a intenção de uma reconciliação oficial da Igreja coma nova época estabelecida a partir do ano de 1789” ( Cardeal Ratzinger op. cit. p. 458).

Então, na opinião autorizadíssima do Cardeal Ratzinger, a Gaudium et Spes e os documentos sobre a liberdade religiosa do Vaticano II, poder-se-ia dizer que são um “ANTISYLLABUS”.

Daí se poder dizer, repetindo o Cardeal Ratzinger, que o Vaticano II, foi um “Antisyllabus”.

Aliás, na polêmica que mantivemos, tive a oportunidade de cotejar textos do Vaticano II com textos do Magistério Ordinário, demonstrando as gritantes contradições entre eles.

Se o Syllabus foi um documento do Magistério Ordinário, estabelecer um “Antisyllabus” é respeitar o Magistério Ordinário?

Meu caro Dom Estevão, eu aceito o Magistério Papal Ordinário (digamos que seja ordinário), expresso no Syllabus.

Se faço isso, posso aceitar o “Antisyllabus”?

A questão é perplexitante e sem solução, se se admite que os dois ensinamentos — do Syllabus e do “Antisyllabus” — ambos sejam do Magistério Ordinário e infalíveis.

E o senhor –perdoe-me a indiscrição — o senhor aceita o Syllabus ou o “Antisyllabus”? Parece-me que aceita os dois juntos, sem titubear, apesar da contradição entre eles.

Que a contradição entre ambos existe, é palavra do Cardeal Ratzinger, que, com o devido respeito à sua pessoa e ao seu saber, goza de maior autoridade doutrinária do que o senhor, meu prezado Dom Estevão.

[Estava eu neste ponto da redação de minha resposta a Vossa Revdma.., quando um aluno meu informou-me que, anos atrás, consultara um teólogo brasileiro de grande saber e prestígio, a respeito da autoridade da Quanta Cura e do Syllabus. Esse teólogo respondeu o seguinte:

“Pio IX condenou formalmente com palavras que exprimem a infalibilidade, mas não definiu algo no Syllabus. Definiu, sim, a Imaculada Conceição de Maria em 1854.”

Sabe V. Revdma. quem foi o teólogo que redigiu esse parecer?

Foi Dom Estevão Bettencourt.

E o e mail terminava com as seguintes palavras:

Santas graças para 98!     O seu, Pe. Estevão Bettencourt, osb“] 

(Apud :Subject: Re: [catolicos] En: Ainda o Silabus
Date: Sun, 12 Apr 1998 00:54:52 -0300
From: “SIDNEY GOZZANI” <sgozzani@opus.com.br>
Reply-To: catolicos@summer.com.br
To: <catolicos@summer.com.br>)

Qual ensinamento do Magistério Ordinário o senhor e eu devemos respeitar? O do Syllabus ou o “Antisyllabus” do Vaticano II, como diz Ratzinger?

A contradição confessada e reconhecida pelo Cardeal Ratzinger, entre o Magistério do Syllabus e o do “Antisyllabus” coloca um problema lógico e doutrinário evidente: um dos dois documentos é certo, o outro é errado, porque o “sim” e o “não” não podem ser aceitos ao mesmo tempo.

Repito, meu caro Dom Estevão, que escolha devo — ou devemos — fazer?

Que ensinamento do Magistério Ordinário devo respeitar e seguir:

  1. aceito o “Antisyllabus” e desrespeito autoridade e o Magistério Ordinário ( e infalível) do Papa Pio IX no Syllabus e de muitos outros Papas, podendo incorrer em pecado grave contra a Fé;
  2. ou aceito respeitosa e fielmente o Syllabus recusando o que é estabelecido pelo “Antisyllabus”, arriscando-me assim a ser “excomungado” por aqueles que defendem o fim de todas as excomunhões, e pedem o diálogo ecumênico até com aqueles, como os luteranos, cismáticos, e evangélicos de todos os tipos, que gritam “Abaixo o Papa”?

Meu prezado Dom Estevão, o nó é insolúvel.
E é corrediço.
E estamos dependurados nele.

Diga-me: qual Magistério Ordinário devo respeitar e seguir: o do Syllabus ou o do “Antisyllabus” (Terminologia de Ratzinger).

Diga-me, a mim simples professor e não “MESTRE”, e não teólogo, diga-me, o senhor que é Teólogo, e creio que até foi perito conciliar : que documento do Magistério Ordinário, entre esses dois, devo respeitar?

Mas explique-me bem porque devo aceitar um e rejeitar o outro.

Diga-me, se ambos são infalíveis, como explicar a contradição entre um Syllabus e um “Antisyllabus”?

Ratzinger, com toda a sua autoridade, afirma que existe essa contradição.

Pode haver contradição, então, no Magistério Ordinário?

Se é possível haver contradição no Magistério Ordinário dos Papas — como se depreende do que o Cardeal Ratzinger diz, que atitude deve ter um simples fiel? Deve “engolir” tudo respeitosamente, e fingir que não vê a contradição entre Syllabus e “Antisyllabus”?

E havendo dúvida, como agir?

Esse estado de dúvida insolúvel não dá ao fiel a liberdade de consciência – eu uso essa expressão, em parte, ad hominem — de escolher o que lhe pareça mais provavelmente certo e fiel ao que sempre foi o ensinamento do Magistério Ordinário?

Se a resposta é sim, por que me condena o senhor injustamente, concluindo o que eu não disse: que não se deveria respeitar os ensinamentos do Magistério Ordinário?

Repito-lhe, meu caro Dom Estevão: estou pronto a aceitar respeitosamente tudo o que o Magistério Ordinário dos Papas tem ensinado no decorrer da História, e na medida em que isso é exigido pela Igreja.

Mas, quando há contradição entre um Syllabus e um “Antisyllabus”, qual respeitar?

E — de novo — passo-lhe a acusação: aceitando o “Antisyllabus” do Vaticano II, foi o senhor quem abandonou o que o Magistério Ordinário da Igreja havia ensinado durante séculos, de modo constante e universal, até com solenidade no Syllabus.

Foram os “periti” do Vaticano II que criaram essa confusão em que se debatem os católicos fiéis e respeitosos, como quero ser. Enquanto os “periti” discutem, e vão para a frente e vão para trás, e vão para a esquerda, e vão para a direita, aguardo, e me reservo o direito e o dever de respeitosamente seguir e acatar tudo o que o magistério Ordinário e Extraordinário tem estatuído no decorrer da História bimilenar da Igreja.

 

V — Documentos do Magistério Ordinário

O senhor me recomenda — e até me exige –que devo aceitar o Magistério Ordinário dos Papas, e é claro que o aceito.

Por exemplo, aceito o que ensinou Pio VI, quando condenou a liberdade de religião decretada pela Constituição Civil do Clero da Revolução Francesa.

Ensinou então Pio VI:

“É com este objetivo (abolir a religião católica) que se estabeleceu, como um direito do homem na sociedade, essa liberdade absoluta, que não só assegura o direito de não ser impedido sobre as suas opiniões religiosas, mas que dá ao indivíduo esta licença de pensar, de dizer, de escrever, e mesmo de fazer injúria impunemente em matéria de religião, tudo o que possa se sugerir a imaginação mais desregrada: direito monstruoso, mas que parece para a Assembléia [Nacional Constituinte] resultar da igualdade e da liberdade naturais a todos os homens. Mas que poderia aí existir de mais insensato…?” (Pio VI, Quod aliquantulum, 10 – III- 1791. O negrito é meu).

Viva o Papa!

E abaixo os liberais hipócritas da Revolução Francesa, que começaram decretando a liberdade religiosa absoluta, e depois, perseguiram cruelmente a Igreja, fazendo milhares e milhares de mártires.

E o senhor, aceita esse ensinamento do Magistério Ordinário de Pio VI?

Outro exemplo: o que ensinou Gregório XVI sobre liberdade de consciência?

Na encíclica Mirari Vos, o Papa nos ensinou:

“Tocamos agora outra ubérrima causa de males, pelos quais deploramos a atual aflição da Igreja, a saber: o indiferentismo, isto é, aquela perversa opinião que, por engano de homens malvados, propagou-se por todas as partes, de que a salvação eterna da alma pode ser conseguida em qualquer profissão de fé, com tal que os costumes se ajustem às normas do reto e do honesto… E desta, sob qualquer ponto de vista, pestífera fonte do indiferentismo, mana aquela sentença absurda e errônea, ou melhor, aquele delírio de que a liberdade de consciência tem que ser afirmada e reivindicada para cada um.

“A este pestilentíssimo erro prepara o caminho aquela plena e ilimitada liberdade de opinião, que para ruína do sagrado e do civil está invadindo plenamente, afirmando a cada passo, alguns com descaramento que dela deriva algum proveito para a religião.. Porém, “que morte pior para a alma do que a liberdade do erro”, dizia Santo Agostinho ( Epist. 166)? E assim é que, quebrado todo freio com o qual os homens são contidos nos caminhos da verdade, como por si mesma a sua natureza se precipita, inclinada como está para o mal, realmente dizemos que se abre o poço do abismo [Apoc. IX,3] do qual João viu que subia uma grande nuvem de fumaça com a qual o sol se obscureceu, ao sair dele gafanhotos sobre a imensidão da Terra” (Gregório XVI, Mirari Vos, Denzinger, 1613-1614. Os negritos são meus).

Isto é que é falar claro!

Viva o Papa!

Meu caro Dom Estevão, será preciso negar a evidência para dizer que esse texto da Mirari Vos é concorde com os documentos do Vaticano II.

É curioso verificar a relação estabelecida por Gregório XVI entre a liberdade de consciência e o fumo do poço do abismo de que fala São João no Apocalípse. Paulo VI, depois do Vaticano II, decepcionado com seus frutos, afirmou que tinha a sensação de que “por algum lado a fumaça de Satanás havia entrado no Templo de Deus” ( Paulo VI, discurso em 30 de junho de 1972. Apud Romano Amerio, Iota Unum, p. 8).

Gregório XVI previu a fumaça de Satanás. Paulo VI a constatou.

Gregório XVI apontou a causa dessa fumaça: a liberdade de consciência.

Paulo VI defendeu essa mesma liberdade, e constatou, depois, que a fumaça de Satanás entrara — “por algum lado” — no Templo de Deus.

O senhor não desconfia por que lado entrou a fumaça?
É preciso apagar o fogo, para que cesse a fumaça.
É óbvio.
É o que começou a fazer a Dominus Iesus.

Viva o Papa!

Graças a Deus, João Paulo II, através do Card. Ratzinger, combateu e condenou o indiferentismo religioso na Dominus Iesus, afirmando que não é lícito escolher uma religião ou outra, como se todas se eqüivalessem e pudessem salvar.

Viva o Papa!

Como dizer então que não acato o Magistério Ordinário do Papa?

Ou diria o senhor que os ensinamentos do Magistério Ordinário dos Papas Pio VI e Gregório XVI já não valem mais?

Mas isso seria defender o relativismo, condenado por João Paulo II na Splendor Veritatis e na Dominus Iesus!

Se os ensinamentos dos Papas valessem apenas temporariamente, até quando eles deveriam ser respeitados? E até quando então valeria o Vaticano II? Ele já tem 36 anos…Deixou de estar “aggiornatto”.. Porque o “aggiornamento” exige mudanças cotidianas…Giorno a giorno.

Em carta que lhe escrevi em 21 de outubro de 1988, tive oportunidade de colocar em duas colunas o texto da Quanta Cura de Pio IX e o da Dignitatis Humanae do Vaticano II. O confronto dos textos deixa claríssima a oposição entre o ensinamento do Magistério Ordinário de Pio IX e o do Vaticano II.

Repito a citação da Quanta Cura:

“… não temem fomentar a opinião desastrosa para a Igreja Católica e a salvação das almas, denominada por nosso predecessor, de feliz memória, de “loucura” ( Mirari Vos) que “a liberdade de consciência e de cultos é direito próprio e inalienável do indivíduo, que há de proclamar-se nas leis e estabelecer-se em todas as sociedades retamente constituídas e que os cidadãos tem direito a uma omnímoda liberdade, que não deve ser coarctada por nenhuma autoridade eclesiástica ou civil, pelo que podem manifestar de cara aberta e publicamente quaisquer conceitos seus, por palavra ou por escrito, ou por qualquer outra forma” Pio IX, Quanta Cura, Denzinger, 1690).

Este também é um documento do Magistério Ordinário. E por causa dele digo com toda a alma: Viva o Papa!

O senhor, respondendo-me, tentou provar que essa era a mesma doutrina da Dignitatis Humanae, colocando apenas uma diferença: a Dignitatis Humanae teria ensinado como coisa nova que “ninguém pode ser forçado a abraçar alguma crença religiosa ou a renegá-la” ( Carta sua de 26-X- 1988).

Ora, caríssimo Dom Estevão, forçar alguém a praticar a religião contra a sua vontade sempre foi condenado pela Igreja. O que a Igreja proibia era a propaganda da heresia, sem nunca ter ordenado como legítimo que se forçasse alguém a crer.

E o Syllabus — que alguns afirmam ser documento infalível — condenou solenemente as seguintes teses:

“Erro 15 – Todo homem é livre para abraçar e professar a religião que, guiado pela luz da razão, tiver por verdadeira”

“Erro 16 — Os homens podem encontrar no culto de qualquer religião o caminho da salvação eterna e alcançar a eterna salvação”

“Erro 17 — Pelo menos devem ter-se fundadas esperanças acerca da eterna salvação de todos aqueles que não se acham de modo algum na verdadeira Igreja de Cristo”

“Erro 18 — O protestantismo não é outra coisa que uma forma diversa da mesma verdadeira religião cristã, e nele, da mesma forma que na Igreja Católica, se pode agradar a Deus”

“Erro LXXX — O Romano Pontífice pode e deve reconciliar-se e transigir com o progresso, com o liberalismo e com a civilização moderna”

(Pio IX, Syllabus, Denzinger, 1715 a 1718 e 1780)

Viva! Via o Papa!

Perdoe-me a indiscrição, mas faço a pergunta, com o devido respeito ao senhor, só para, didaticamente, completar a argumentação: o senhor aceita o que Pio IX ensinou no Syllabus?

O senhor escreveu que Pio IX na Quanta Cura e no Syllabus se expressou infalivelmente, mas não definiu dogma. Afinal, o senhor condena o que foi condenado infalivelmente no Syllabus ou não?

Se aceita esse documento do Magistério, como pode o senhor aceitar o que o Vaticano II ensinou, apenas pastoralmente, contrário ao Syllabus?

Se não aceita a Quanta Cura e o Syllabus, documentos do Magistério Ordinário, como me acusa de não aceitar e de não respeitar os pronunciamentos do Magistério Ordinário?

A acusação que o senhor me faz se volta contra o senhor. O senhor é que não respeita os ensinamentos do Magistério Ordinário. Ou os aceita quando convém?

Afinal, o Syllabus é infalível ou não?
Pode-se repudiar o Syllabus aderindo a um “Antisyllabus”?
Elucide-me.
Pergunto. Responda-me, por favor.

Graças a Deus, a Dominus Iesus publicada pela Congregação da Doutrina da Fé, por ordem do Papa João Paulo II, proclamou como verdade de Fé que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica, e que as “comunidades” protestantes, nem sequer podem ser chamadas de igrejas.

Viva o Papa!

Mas será preciso muito malabarismo teológico para tentar negar que o Vaticano II transigiu com a civilização moderna, porque foi exatamente isso que se procurou nele..

E é o que o Cardeal Ratzinger honestamente reconheceu: os documentos do Vaticano II são um “Antisyllabus”.

Então, caro e respeitável Dom Estevão, com que ensinamento do Magistério Ordinário ficar?

Fico com o Syllabus ou com o Antisyllabus?

E o senhor? Com que fica?

Haveria que citar ainda vários outros documentos do Magistério Ordinário, que tratam da liberdade de religião, como, por exemplo, a encíclica Libertas Praestantissima, de Leão XIII, que ensina:

“E principalmente, a propósito dos indivíduos, examinemos esta liberdade tão contrária à virtude da religião, a liberdade de culto, como lhe chamam, liberdade que se baseia no princípio de que é lícito a cada qual professar a religião que mais lhe agrade, ou mesmo não professar nenhuma” (…) É por isto que oferecer ao homem a liberdade de que falamos, é dar-lhe o poder de desvirtuar ou abandonar impunemente o mais santo dos deveres, afastando-se do bem imutável, a fim de se voltar para o mal. Isto, já o dissemos, não é liberdade, mas uma depravação da liberdade, e uma escravidão da alma na abjeção do pecado“(Leão XIII, Libertas Praestantissima, n* 13. Os negritos são meus.).

Veja bem, meu caro Dom Estevão, o que ensinou o Magistério Supremo de modo Ordinário, e que aceito clamando “Viva o Papa!”: a liberdade de culto, a liberdade de religião é “depravação da liberdade”. É “escravidão da alma na abjeção do pecado”.

Foi o Papa Leão XIII quem usou palavras tão duras, que devemos aceitar respeitosamente.

Que todos os católicos — leigos e clérigos — devem acatar respeitosamente…

E como não ver que este ensinamento de Leão XIII está em contradição com a defesa da liberdade de religião do Vaticano II?

Pois diz o Vaticano II:

“Este Sínodo Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa” ( Concílio Vaticano II, Declaração Dignitatis Humanae, n* 2).

 

VI — Ecumenismo e o Magistério Ordinário

E que dizer da contradição entre o que foi ensinado por Pio XI na Mortalium Animos, e o que foi aprovado no Vaticano II? Como harmonizar as condenações de Pio XI, nessa encíclica, condenando as atitudes ecumênicas que hoje se praticam?

Recordo-lhe um texto — tão pouco citado e tão “esquecido” — da Mortalium Animos, condenando reuniões ecumênicas (hoje tão comuns):

“Por isto costumam realizar por si mesmos convenções, assembléias e pregações, com não medíocre freqüência de ouvintes e para elas convocam, para debates, promiscuamente, a todos: pagãos de todas as espécies, os que infelizmente se afastaram de Cristo e os que obstinada e pertinazmente contradizem à sua natureza divina e à sua missão.

Sem dúvida, estes esforços não podem, de nenhum modo, serem aprovados pelos católicos, pois eles se fundam, então na falsa opinião dos que julgam que quaisquer religiões são, mais ou menos, boas e louváveis, pois embora não de uma única maneira, elas alargam e significam de modo igual aquele sentido ingênito e nativo em nós, pelo qual somos levados para Deus e reconhecemos obsequiosamente o seu império.

“Erram e estão enganados, portanto, os que possuem esta opinião: pervertendo o conceito da verdadeira religião, eles repudiam-na e gradualmente se inclinam para o chamado Naturalismo e para o Ateísmo” ( Pio XI, Mortalium Animos n* 2 e 3. O negrito é meu).

Viva o Papa!

Compare esses textos do Magistério Ordinário de Pio XI com a Dignitatis Humanae, e veja se não é preciso um malabarismo de perito para conciliar esses dois documentos contraditórios.

De novo, meu caro Dom Estevão: que documento seguir e escolher?

E veja este outro trecho da mesma Mortalium Animos (n* 10. O negrito e o sublinhado são meus, evidentemente):

“Assim sendo, é manifestamente claro que a Santa Sé não pode, de modo algum, participar de suas assembléias (ecumênicas), e que, aos católicos, de nenhum modo é lícito aprovar ou contribuir para estas iniciativas: se o fizerem concederão autoridade a uma falsa religião cristã, sobremaneira alheia à única Igreja de Cristo”

Viva o Papa!

E ainda:

“Assim, Veneráveis Irmãos, é clara a razão pela qual esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus estarem presentes a reuniões de acatólicos porquanto não é lícito promover a união dos cristãos de outro modo senão promovendo o retorno dos dissidentes à única verdadeira Igreja de Cristo, dado que outrora, infelizmente, eles se apartaram dela” (Pio XI Mortalium Animos, n* 16. O negrito e o sublinhado são meus).

Viva o Papa!

Compare esse texto de Pio XI, acima citado, com o que o que foi ensinado e vem sendo praticado depois do Vaticano II.

 

VII — O Pronunciamento de um teólogo conceituado antes do Vaticano II

Quero citar-lhe ainda, meu caro Dom Estevão, a posição de um conceituado teólogo, dos tempos anteriores ao Vaticano II, a respeito do ecumenismo.

“Denomina-se Ecumenismo (= Universalismo) um movimento moderno, de origem protestante, que tende a unir as diversas confissões cristãs entre si. Os seus mentores supõem não existir atualmente a autêntica Igreja de Cristo, a Igreja Una desejada pelo Senhor na sua última ceia, ainda se deveria realizar mediante a fusão das parcelas de verdade e de bem contidas em cada confissão cristã”

(Veja bem, prezado Dom Estevão, como este posicionamento coincide com o que diz a Dominus Iesus sobre a única Igreja de Cristo).

Prosseguia o conceituado teólogo (antes do Vaticano II) dizendo:

“A Igreja Católica tem declarado repetidamente não tomar parte no movimento ecumenista, embora muito se interesse por ele. A razão de sua atitude é a seguinte: a Igreja Católica tem consciência de possuir a doutrina de Cristo transmitida ininterruptamente a partir do Senhor e dos Apóstolos; nela vive e fala Cristo por Pedro. Ela nunca se apartou da doutrina e da unidade constituídas pelo seu Divino Fundador e pelos primeiros arautos do Evangelho. Por conseguinte, ela possui aquilo que os ecumenistas procuram e julgam dever realizar no futuro. A única atitude, pois, que lhe compete, é a de abrir os braços e convidar os irmãos que se separaram do tronco tradicional, a voltar ao seio da unidade; a Igreja “Una Sancta” já existe. Compreende-se destarte que os católicos não possam aderir a um movimento que ainda se propõe deliberar sobre a fórmula e as condições da unidade; tais deliberações lhes hão de parecer vãs. Vê-se que a posição da Igreja Católica, por muito rígida que pareça nada tem que ver com intransigência arbitrária, mas é o simples corolário da consciência que Roma tem de possuir, por graça de Deus, a verdade incontaminada”.

Até aqui o conceituado teólogo pré conciliar.

Não é um texto claro, e claramente contrário ao que o senhor diz hoje?

Quem foi o conceituado teólogo que escreveu esse texto?

Esse conceituado teólogo se chama… Dom Estevão Bettencourt!

O senhor escreveu isto tudo em Pergunte e Responderemos, n* 6item V, em Junho de 1958, q. 10, p.p. 252 e 259.

Naqueles bons tempos, o senhor fielmente defendia o ensinamento do Magistério Ordinário que condenava o ecumenismo.

Hoje, infelizmente, o senhor defende o contrário. O senhor mudou.

Perdoe-me, prezado Dom Estevão, por ser obrigado a expor esta contradição sua, mas o amor à verdade está acima de tudo.

O senhor mudou.

Mudou com o Concílio Vaticano II. E não diga que mudou, porque mudou o que a Igreja ensina pelo seu Magistério Ordinário, porque “verba Dei manent in aeternum”.

Não. A doutrina imutável não pode ter mudado. Defender sua mudança seria cair no relativismo, que o senhor condena.

Foi o senhor que mudou, infelizmente.

 

VIII — Divergências dos teólogos sobre o Vaticano II

Existe a maior divergência entre os próprios “periti” do Vaticano II a respeito não só da autoridade do Concílio, mas até em relação ao que quis dizer realmente o Vaticano II.

O senhor mesmo reconhece essa confusão e divergência quando diz:

“O Concílio é acusado de ter incidido em erros – o que não é verdade. Os intérpretes do Concílio é que deturparam os seus documentos, instituindo inovações não fundamentadas, que resultaram em detrimento do Concílio aos olhos do grande público.” (o sublinhado é meu)

O senhor, por favor, poderia nomear quem são esse “intérpretes” que deturparam os documentos do Concílio?

Diga alguns nomes dos deturpadores, por favor.

É importante, é necessário conhecê-los.

Porque eu gostaria de poder denunciar quem deturpa documentos da Igreja.

E o senhor, já os denunciou nominalmente?

Evidentemente, serão alguns dos bem conhecidos “progressistas”, como por exemplo, o Cardeal Koenig, o cardeal Martini — candidato a Papa – assim como todos os que protestaram contra a Dominus Iesus. O cardeal Koenig, por exemplo, recentemente declarou que os Bispos não são “ emissarios do Papa », nem mesmo estão aí, «para executar, como muitos o pretendem, as instruções do Papa ».

Será que essa é uma atitude de respeito ao Magistério do Papa?

(Seria interessante que o senhor criticasse quem desafia abertamente o que o Papa aprovou e mandou ensinar)

Um famoso “perito” — o padre Schillebeeks — disse que no Vaticano II, propositalmente, se empregou uma linguagem diplomática, isto é, ambígua, para permitir interpretações diferentes:

“Nós o exprimimos de um modo diplomático, mas, depois do Concílio tiraremos as conclusões implícitas” (Apud R. Amerio, Iota Unum, p. 93)

E Romano Amerio comenta essa palavras de Schillebeeks dizendo: “É uma estilística diplomática, isto é, conforme a força da palavra, dupla, em que a letra é formada tendo em vista a hermenêutica, invertendo a ordem natural do pensamento e do escrever” (R. Amerio, idem p. 93).

Portanto, os textos do Vaticano II foram escritos propositalmente de modo ambíguo, para se poder tirar deles as conseqüências implícitas, mas veladas, que neles havia.

Este não é o modo próprio de definir e de ensinar verdades.

E o senhor mesmo parece que reconheceu essa ambigüidade do Vaticano II, ao escrever as seguintes palavras num artigo seu publicado em Pergunte e Responderemos, tratando de uma obra de Dom Boaventura Kloppenburg, sem fazer qualquer restrição ao que ele disse:

2. Liberdade Religiosa

O Concilio promulgou em 1965 uma Declaracao sobre a Liberdade Religiosa, que comeca com as palavras Dignitatis Humanae (DH). A expressao ‘liberdade religiosa’ e ambigua, pois nela se escondem
concepcoes inaceitaveis a luz da fe catolica. Tais sao:

– o indiferentismo religioso, que atribui a cada ser humano o direito de considerar o problema religiosos a seu bel-prazer, sem admitir alguma obrigacao moral de sondar a fundo a questao da existencia ou nao de Deus.
– o laicismo, que afirma ser a consciencia humana livre no sentido de que estaria desvinculada de toda obrigacao para com Deus
– o relativismo doutrinario, que atribui ao erro os mesmos direitos que a verdade, como se nao houvesse norma objetiva da verdade
– o pessimismo diletante, que admite ter o ser humano um quase direito de se comprazer tranquilamente na incerteza

(Pergunte e Reponderemos, n* 425, outubro de 1997, apud

(Subject: [catolicos] Salavacao e Liberdade Religiosa
Date: 19 Nov 1997 21:45:44 EST
From: leduardo@infolink.com.br
Reply-To: catolicos@summer.com.br
To: catolicos@summer.com.br)

Se o senhor reconhece que a expressão “liberdade religiosa” é ambígua, então o senhor tem que admitir que o Vaticano II usou uma expressão ambígua ao declarar:

“2. Este Sínodo Vaticano declara que a pessoa humana tem direito à liberdade religiosa” (Dignitatis Humanae, n*2)

Como então aceitar sem mais reparos a contradição entre a Dignitatis Humanae — que o senhor admite usar uma expressão ambígua — e o que sempre ensinou o Magistério Ordinário da Igreja?

Resultado da ambigüidade: ninguém sabe muito claramente o que quis dizer o Vaticano II. Daí a pluralidade de interpretações e de posicionamentos que ele causou.

Daí a confusão criada.

Que intérpretes do Vaticano II seguir?

1) É claro que o senhor não me recomendaria seguir os “incendiários”, os que querem incendiar a Igreja de qualquer modo, até deturpando seus documentos.

2) É claro também que não devo nem posso seguir a desorientação delirante e cismática dos chamados sedevacantistas (os “Dinamitadores”) – a quem repudio –, que recusam não só o Vaticano II, mas todos os Papas posteriores a Pio XII, dizendo que foram falsos Papas, ou que perderam o papado.

3) Também não aceito a posição dos chamados tradicionalistas lefebvrianos (cismáticos), que a pretexto de combater abusos, estabeleceram Tribunais “papais”, que acusei e ataquei como ato cismático. (aliás, o Vaticano está prestes a fazer um acordo com eles…)

4) Há os progressistas moderados – os “fumarentos” — que cada vez mais se mostram críticos aos modernistas radicais (os Incendiários) e às suas interpretações do Vaticano II.

5) Há ainda certos teólogos conservadores, peritos… (direi…“malabaristas” ou acrobáticos”?) que, combatendo os mais extremados intérpretes do Vaticano II, procuram conciliar Sylllabus e “Antisyllabus”. — e, ao mesmo tempo, querem que, entre todas diversas e contraditórias interpretações do Vaticano II, a sua intrepretação seja a certa.

Estes me aconselham: “Engula respeitosamente a contradição entre Syllabus e “Antisyllabus”.

6) Existe ainda a sua posição, que, embora reconhecendo que o texto do Vaticano II seja ambíguo no que tange a liberdade religiosa – e esta posição sua se aproxima, graças a Deus, da que admito — procura escusar essa ambigüidade

7) Existe, por fim, a posição do “novo” Ratzinger, que ficou muito bem expressa na Declaração Dominus Iesus, documento do Magistério, que tanto furor tem provocado entre os modernistas como o ex frei Boff, os Bettos, ou em Cardeais como o Cardeal Cassidy, e em Bispos como Dom Ivo, e etc.

Que será que pensa da Dominus Iesus o Cardeal Arns? Será que ele aceita respeitosamente as dez verdades de Fé proclamadas pela Dominus Iesus?

(A propósito, Dom Estevão, a Dominus Iesus é documento infalível, ou é simples ensinamento do Magistério Ordinário? Qual é a sua opinião?)

Toda essa ala modernista radical acusa Ratzinger e o Papa João Paulo II de terem traído o verdadeiro Vaticano II (e como a Dominus Iesus reafirma o que sempre a Igreja ensinou, se conclui, de novo, que o Vaticano II não ensina o que a Igreja sempre ensinou).

 

IX — Revolta dos teólogos e “teólogas” Belgas contra a Dominus Iesus

Ainda agora, acabo de receber um manifesto dos “Teólogos” e “Teólogas” belgas contra a Dominus Iesus.

O senhor conhece esse documento?

Ele é bem desrespeitoso com relação ao Papa e à Cúria que emitiu um documento de grande autoridade (Monsenhor Bertone, na apresentação da Dominus Iesus, asseverou que ela é um documento que implica a infalibilidade papal).

Eis sua tradução:

“O recente documento “Dominus Iesus” promulgado pela Congregação para a Doutrina da Fé pretende situar o cristianismo com relação às outras religiões, e a Igreja Católica face às outras religiões cristãs. Como teólogos e teólogas da Bélgica de língua francesa, nós queremos reagir com clareza deplorando o tom e o conteúdo do documento romano.

Nossas reflexões visam vários pontos:

Rejeitamos a relação de superioridade que um tal texto induz entre os católicos e os crentes de outras religiões. Essa atitude nos parece altamente prejudicial ao ecumenismo e ao diálogo inter religioso, no Ocidente assim como nos países do terceiro mundo.

Pensamos também que a questão da verdade tratada pelo documento é fundamental para ser encontrada, mas ela não pode ser colocada, na nossa opinião, senão numa partilha em pé de igualdade, na qual cada um propõe o seu caminho sem torná-lo absoluto. Medir o valor da tradição espiritual do outro pelo metro da tradição católica identificada com a verdade sobre Deus, parece-nos ser um beco sem saída, que não está de acordo nem com as intuições, nem com certas afirmações do Concílio Vaticano II, principalmente com a Declaração sobre a liberdade religiosa. Além disso, esta atitude não leva em conta o trabalho ecumênico e inter religioso praticado desde então [desde o Vaticano II], nem o caminho percorrido com aqueles que não crêem em Deus, nas questões de justiça, de verdade e de sentido.

Nós cremos que Cristo é o “o caminho, a verdade e a vida” no interior do ato de fé, mas nós cremos também que a plenitude da verdade está adiante de nós e que ninguém pode pretender possuí-la.

Em nossa opinião, o documento romano vai contra o espírito de diálogo do Vaticano II, e dá uma imagem de uma Igreja Católica voltada para certezas cristalizadas e reafirmadas num tom autoritário que se acreditava pertencer ao passado.

Esse texto nos parece, ademais, em completo deslocamento com a vida cotidiana de numerosos católicos e com os trabalhos de muitos teólogos engajados numa ação de pesquisa com os não católicos, crentes ou não.

Queremos sublinhar igualmente a contradição entre a declaração romana e os gestos simbólicos realizados pelo Papa para com as outras Igrejas e religiões. “Dominus Iesus” fere a credibilidade destas atitudes de João Paulo II.

A Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé já suscitou numerosas reações. A nossa é a dos teólogos católicos entristecidos por ver uma autoridade de sua Igreja responder às verdadeiras questões com respostas unilaterais, sem matizes e apresentadas como definitivas. Um tal documento só pode diminuir a credibilidade de uma instituição que poderia ser de modo totalmente diferente portadora do sopro do Evangelho”

Assinam: Roger Aubert, e mais 53 “escribas” – “teólogos” de ambos os sexos.

Que tal, meu caro Dom Estevão? I

Isso é que é “respeitar” o Magistério Ordinário — ou Extraordinário? – do Papa?

E quantas heresias há nesse texto atrevido e desrespeitoso desses “teólogos” e “teólogas” belgas?

Entretanto, eles, pelo menos, tem a coerência de registrar o que salta aos olhos: há contradição entre algumas das teses do Vaticano II e as verdades de Fé proclamadas como obrigatórias na Dominus Iesus, e que repetem, como disse Dom Eugênio, o que a Igreja sempre ensinou.

Quanto a mim, apressei-me em declarar minha aceitação fervorosa das dez verdades de Fé proclamadas na Dominus Iesus, que repetem o que a Igreja sempre ensinou.

Quem tem razão a respeito da Dominus Iesus: Ratzinger, Dom Eugênio ou Dom Ivo? Quem tem razão: os que se submetem contentes a esse ensinamento de Roma, ou os adeptos “enragés” do Vaticano II, rebeldes, como esses “teólogos “e “teólogas” belgas? (Aliás, os belgas têm duas línguas, e esses teólogos belgas parecem ter língua dupla…).

Esta carta vai longa, mas uma acusação se faz em poucas linhas. Sua refutação e uma justificação exigem páginas e páginas.

***

X — Mudanças que se anunciam…

Anunciam-se grandes mudanças em Roma. Fala-se que haverá medidas contra a “revolução litúrgica” promovida após o Vaticano II. Já existem documentos recomendando que o altar deve estar voltado para o “Oriente”, versus Deum. Está saindo um livro do Cardeal Ratzinger, defendendo que não foi bom “girar” o altar versus populum…

O senhor já imaginou, D. Estevão, a revolta que haverá caso Roma confirme também esta mudança?

Ou melhor, esse retorno?

Será que os progressistas de todos os matizes aceitarão “respeitosamente” as orientações e determinações de Roma?

Recusarão, como recusaram a Humanae Vitae de Paulo VI, que grande parte do clero nem leva em consideração: violam-na abertamente.

Ou dirão esses modernistas e progressistas que não se devem aceitar os ensinamentos do Magistério Ordinário, eles que não aceitam nem mesmo o que é ensinado ex cathedra?

 

XI — Reparo pessoal

Permite-me o senhor um pequeno reparo final de ordem pessoal, e, portanto, bem menos importante?

O senhor se mostra pouco caridoso e injusto ao me apresentar a seus leitores de “Pergunte e Responderemos” como “dissidente da TFP”.

É claro que isso é para me diminuir. Ora, a Imitação de Cristo e a moral mandam examinar o que é dito, e não quem o diz.

Fui do grupo de Catolicismo, e quando descobri que por trás da TFP havia uma seita secreta com idéias absurdas e cultos delirantes, denunciei a seita a que nunca pertenci, graças a Deus.

Nesse tempo, o senhor me recebeu no Mosteiro de São Bento do Rio, e conversamos a respeito. Grande parte do que o público sabe, hoje, da maldade e dos erros secretos da TFP, foi por minha denúncia.

Não sou “dissidente da TFP”; sou seu denunciador e acusador.

Sua maneira de me apresentar — mutatis mutandis, isto é, levando em conta as imensas e evidentes diferenças – é injusta como a de alguém que se referisse a Santo Agostinho, para diminuí-lo, como “dissidente do maniqueísmo”. Ele denunciou, condenou e refutou o maniqueísmo; não foi “dissidente” dele.

E São Paulo foi fariseu. Nem por isso jamais ele foi chamado de dissidente do farisaísmo

Consta que um famoso Arcebispo brasileiro, em sua juventude, foi simpatizante do nazismo e que até quis ser ordenado padre vestindo, sob a batina, a camisa verde do Integralismo, o nazismo tupiniquim. Nunca vi chamá-lo de dissidente do Integralismo. (Mais tarde, esse Arcebispo ficou simpatizante do comunismo. Pois até parece que quem na juventude foi “verde”, quando amadurece fica vermelho…)

Que surpresa, Dom Estevão, encontrar esta injustiça em suas palavras de apresentação. Diminuir alguém para desprestigiar seu posicionamento doutrinário, não é propriamente de acordo com a caridade.

E como o senhor, que defende o ecumenismo e o espírito dialogante do Vaticano II – dialogante, repito, até com os hereges “Evangélicos” que gritam “Abaixo o Papa!” — não procurou dialogar comigo, considerando alguns “lados positivos” que podem existir até em mim, mas procurou “de cara’ — perdoe-me a expressão corriqueira – me diminuir, sem levar em conta que meu artigo proclama “Viva o Papa!”?

Diálogo e respeito pelos que gritam “Abaixo o Papa”, e ataque a quem grita “Viva o Papa”? É esse o famoso “espírito do Vaticano II”?

Se é esse o “espírito” do “Antisyllabus”, não vejo esse espírito como tendo muita coerência, nem como favorecendo a crescer na caridade.

Perdoe-me esta queixa pessoal, que é bem secundária, ante a gravidade do que está acontecendo hoje na Igreja.

 

XII — Conclusão. Apelo.

Contra meu desejo, esta carta ficou longa demais, porque tive três preocupações fundamentais:

  1. Proclamar minha fidelidade irrestrita ao Papa e a todos os seus ensinamentos, em toda a medida exigida pela Igreja;
  2. Demonstrar seu erro de julgamento a meu respeito;
  3. Não magoar alguém a quem quero respeitar e que gostaria de ver bem unido a mim na defesa da Igreja, que é o nosso intuito principal.

Quisera ainda regozijar-me com o senhor, porque sua admissão de que a expressão “liberdade de religião” é ambígua, ocultando várias teses contrárias à Fé, admite implicitamente que o próprio texto do Vaticano II, por ter usado essa expressão ambígua, é ambíguo também.

Esta admissão nos aproxima, o que me alegra, repito.

Diz o salmo : “In lumine tuo, videbimus lumen” (Ps.XXXV, 10). Em tua luz, veremos a luz.

Na luz que se irradia do Papa — não importa qual –é que os católicos fiéis verão sempre a luz da verdade.

Dulce lumen! (Eccl XI, 7)

Roma se pronunciou de modo particularmente solene na Dominus Iesus. Contra esse documento –que Monsenhor Bertone apresentou como infalível– se rebelam os Kungs, Boffes, Lorscheiders, belgas, alemães e tupiniquins.

Fiquemos nós fielmente com o Papa.

E gritemos juntos, prezado Dom Estevão, com alma e coração:

“Viva o Papa!”

In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli

PS. Para facilitar a compreensão dos nossos leitores, tomarei a liberdade de publicar na íntegra as cartas que trocamos, há muitos anos atrás, sobre o Vaticano II e a questão da liberdade de religião. Isto nos dispensará de fazer citações repetitivas delas. OF.


A mensagem contento o artigo de D. Estevão, veiculada numa lista de discussão:

—– Original Message —–
From: JOSÉ AUGUSTO
To: Tradição Católica <tradicao-catolica@egroups.com>
Sent: Friday, January 19, 2001 1:58 PM
Subject: [tradicao-catolica] VIVA O PAPA

VIVA O PAPA!
Orlando Fedeli

O Sr. Orlando Fedeli argüi os últimos Papas de ter incorrido em erros
doutrinários, apesar de gozarem do carisma da infalibilidade quando se
pronunciam ex-cathedra, ou seja, como Mestres da fé e da Moral em caráter
definitório. – Tal atitude não condiz com o pensamento da Igreja, que
recomenda aos fiéis respeito às afirmações do Santo Padre, mesmo quando não
fala ex-cathedra. O Papa não se pronuncia levianamente, mas sempre após ter
estudado e ponderado cuidadosamente os pontos que aborda.

O Sr. Orlando Fedeli é membro dissidente da TFP (Tradição, Família e
Propriedade), mas ainda professa concepções nem sempre fiéis ao Concílio do
Vaticano li. Publicou um folheto intitulado “VIVA O PAPA!”, em que professa
crer na infalibilidade do Sumo Pontífice quando fala ex-cathedra, mas
atribui ao Papa erros de doutrina e procedimento quando se manifesta por
outra via. Visto que tal folheto tem causado certa perplexidade nos
leitores, vamos, a seguir, analisá-lo e comentá-lo.

1. O Texto em Foco

Eis os dizeres que importa considerar:

“O Concílio Vaticano I – realizado em 1870 – proclamou o dogma da
infalibilidade papal, estabelecendo que, quando o Papa ensina “ex-cathedra”;
isto é, como Vigário de Cristo, com o poder dado por Nosso Senhor a São
Pedro, ensinando toda a Igreja sobre questões de Fé ou de Moral, com a
vontade explícita de definir uma doutrina e condenando a sentença oposta, o
Papa é infalível.Esse dogma da infalibilidade do Papa – ao qual aderimos do
mais profundo de nossas almas – é a garantia de que a Igreja jamais errará.
O próprio Nosso Senhor Jesus Cristo, ao dar as chaves a Pedro, lhe disse:
`Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja. E Eu te darei as
chaves do Reino dos céus. Tudo o que ligares na terra será ligado no céu.
Tudo o que desligares na terra, será desligado no céu. E as portas do
inferno não prevalecerão contra ti’ (Mt 16, 18s).É sobre essas palavras
santíssimas de Nosso Senhor que a Igreja se baseou para proclamar a
infalibilidade papal. É nisto que se fundamenta a devoção que todo católico
deve ter pelo Papa, seja ele quem for.

Os inimigos da Igreja sempre quiseram criar confusões acerca desse ponto,
ora atribuindo ao Papa enquanto tal, e à Igreja, os pecados em que um Papa
pode cair como pessoa particular, ora estendendo a infalibilidade a qualquer
ação do Supremo Pontífice… São João Bosco, que vivia então em Turim,
ordenou a seus alunos que jamais gritassem Viva Pio IX’ e sim ‘Viva o
Papa!’. Com isso, D. Bosco desfazia a manobra carbonária. Devemos gritar
sempre ‘Viva o Papa, pouco importando o nome daquele que está no trono de
Pedro. Seja ele santo ou pecador, devemos manter ao Papa, `doce Cristo na
terra, como dizia Santa Catarina de Siena, nossa devoção filial e nossa
fidelidade a tudo o que ele ensina, como legítimo sucessor de Pedro e com o
poder das chaves.

Hoje a compreensão desses princípios é muito necessária, pois somos
ameaçados por dois erros opostos com relação ao Papa: o sedevacantismo e o
infalibilismo universal. Nós rejeitamos a ambos”.

Após esta apologia muito viva, o tom muda um tanto: “Há quem afirme que os
últimos Papas, por sua adesão aos erros do Vaticano II – Concílio meramente
pastoral e não dogmático, portanto falível e que, por isso, ninguém esta
obrigado a aceitar – teriam perdido o pontificado. Tese temerária,
aventureira e imprudente, pois até hoje ninguém a demonstrou com provas
claras e irrefutáveis. Essa tese põe os fiéis à beira do cisma, senão dentro
dele. De outro lado, os modernistas e progressistas, que viram suas idéias
errôneas triunfarem no Vaticano 11, procuram impingir aos fiéis católicos
esses erros do último Concílio, como se fossem dogmas de Fé, o que é
absolutamente falso.  Mais ainda, os defensores do infalibilismo absoluto e
universal do Papa, procuram fazer com que os católicos julguem qualquer
discurso do Papa – até mesmo um simples discurso de acolhida de turistas –
como se fosse um dogma de fé, nivelando um texto pastoral, ou um discurso de
cortesia, aos pronunciamentos “ex-cathedra” : Isso também nós não podemos
aceitar. O Papa, não é demais repetir, só é infalível quando ensina
“ex-cathedra”. Fora disso, pode errar. Por isso, é legítimo rejeitar os
erros do Vaticano 11 e tudo o que se tem feito com base neles, na medida em
que contrariam os ensinamentos de todos os Papas anteriores. Por exemplo, a
famosa jornada de orações pela paz, realizada em Assis por João Paulo II, em
1986, se opôs frontalmente a tudo o que a Igreja sempre ensinou quando, em
reiterados pronunciamentos dos Papas, condenou o interconfessionalismo e o
indiferentismo. Tal jornada é inaceitável.

Até aqui o Sr. Orlando Fedeli.

2. Que dizer?

Serão propostas três observações.
2.1. A autoridade do Papa e dos Bispos ao ensinar
Como colegiado, os Bispos, unidos ao Papa, executam o magistério da
Igreja, desde que ensinem, com unanimidade moral (não aritmética), alguma
verdade atinente à fé ou aos costumes. Quando reunidos em Concílio Ecumênico
legitimamente convocado pelo Papa e por este presidido, podem exercer
magistério extraordinário, definindo proposições, com aprovação do Sumo
Pontífice. Este, por sua vez, pode exercer a sós seu magistério ordinário
(que merece sempre reverência, embora não promulgue sempre definições de fé
ou Moral), como também seu magistério extraordinário, definindo proposições
ex-cathedra. O Concílio do Vaticano I incutiu o magistério da Igreja nos
seguintes termos:: “Devem ser acreditadas, como de fé divina e católica,
todas as coisas contidas na Palavra de Deus escrita ou transmitida de viva
voz e que são propostas como divinamente reveladas pela Igreja, quer em
solene afirmação, quer no magistério ordinário e universal”
(Denzinger-Schõnmefzer, Enchiridion n° 3011(1792)).

Definiu também a infalibilidade do Papa, quando, ao desempenhar sua função
de doutor de todos os fiéis, define uma proposição de fé ou de Moral; a sua
sentença então é irreformável e não precisa do consentimento da Igreja. Cf.
Dz. Sch. n° 3073s [1839]. Na base de tais afirmações, pode-se fazer o
seguinte gráfico relativo ao magistério da Igreja:

Magistério: Ordinário:: os Bispos em união com o Papa em unanimidade moral

Magistério Extraordinário: – definição solene de um Concílio; Ecumênico
aprovada pelo Papa definição ex-cathedra do Sumo Pontífice

O Concílio do Vaticano II explicou estas modalidades de magistério:
“Embora os Bispos individualmente não gozem da prerrogativa da
infalibilidade, contudo, mesmo quando dispersos pelo mundo, guardando,
porém, a comunhão entre si e com o sucessor de Pedro, e quando ensinam
autenticamente sobre assuntos de fé e de Moral, concordando numa sentença
que deve ser professada de modo definitivo, então enunciam infalivelmente a
doutrina de Cristo.

Isto aparece ainda mais claramente quando, reunidos em Concílio Ecumênico,
são mestres e juízes da fé e da Moral para toda a Igreja. Às suas definições
os fiéis devem prestar adesão com o obséquio da fé…
O Romano Pontífice goza de infalibilidade, como Chefe do colégio dos
Bispos, em virtude do seu encargo, quando, num ato definitivo, como Pastor e
Mestre Supremo de todos os fiéis que confirma seus irmãos na fé (cf. Lc 22,
32), proclama uma doutrina atinente à fé ou aos costumes… Suas definições
são irreformáveis por si mesmas e não em virtude do consentimento da
Igreja… Não precisam da aprovação de ninguém, nem admitem apelação para
algum tribunal.

Religiosa submissão da vontade e da inteligência deve ser, de modo
particular, prestada ao autêntico magistério do Romano Pontífice mesmo
quando não fala ex-cathedra. E isto de tal forma que seu magistério supremo
seja reverentemente reconhecido, suas sentenças sinceramente acolhidas,
sempre de acordo com sua mente e vontade. Esta mente e vontade consta
principalmente ou da índole dos documentos ou da freqüente proposição da
mesma doutrina ou de sua maneira de se exprimir” (Const. Lumen Gentlum n°
25).

Como se vê, o documento recomenda mesmo os pronunciamentos do Papa que não
sejam definições de fé ou de Moral, ou seja, as Encíclicas, as Exortações
Apostólicas, as Cartas, os Motu Proprio, as Bulas… A autoridade desses
textos há de se depreender do estilo e da linguagem utilizada pelo Papa em
cada caso.

2.2. O Concílio do Vaticano II

O Concílio é acusado de ter incidido em erros – o que não é verdade. Os
intérpretes do Concílio é que deturparam os seus documentos, instituindo
inovações não fundamentadas, que resultaram em detrimento do Concílio aos
olhos do grande público. Quem lê o documentário do Concílio, verifica que
intencionou atualizar a doutrina e a praxe da Igreja a fim de as tornar mais
significativas para o mundo de hoje, todavia sem trair as verdades da fé e
os princípios da Moral católicas. O ponto mais nevrálgico foi a Declaração
sobre a Liberdade Religiosa, que alguns entenderam como se significasse que
a Religião é algo de indiferente, ficando ao bel-prazer de cada ser humano
ter ou não ter Religião, professar este ou aquele Credo. Tal entendimento é
falso; o que o Concílio quis dizer é, de um lado, que a procura da verdade
em matéria religiosa se impõe a todo homem (pois equivale à procura do
sentido da vida), mas, de outro lado, essa procura não pode sofrer coações
nem da parte de regimes políticos ateus ou materialistas, nem da parte de
alguma instituição religiosa; respeite-se a liberdade de opção que toca a
todo homem, contanto que não perturbe a boa ordem da sociedade. A mesma
Declaração afirma que somente a Religião católica professada pela Igreja que
Jesus confiou a Pedro e seus sucessores, foi revelada por Deus e se impõe
como caminho de salvação a quantos a reconhecem como tal. São palavras
textuais do documento conciliar Dignitatis Humanae (sobre a Liberdade
Religiosa) n° 1:

“Em primeiro lugar, professa o Santo Sínodo que o próprio Deus manifestou
ao gênero humano o caminho pelo qual os homens, servindo a Ele, pudessem
salvar-se e tornar-se felizes em Cristo. Cremos que essa única verdadeira
Religião subsiste na Igreja Católica e Apostólica, a quem o Senhor Jesus
confiou a tarefa de difundi-Ia aos homens todos, quando disse aos Apóstolos:
Ide, pois, e ensinai os povos todos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e
do Espírito Santo, ensinando-lhes a guardar tudo quanto vos mandei’ (Mt 28,
19s). Por sua vez, estão todos os homens obrigados a procurar a verdade,
sobretudo aquela que diz respeito a Deus e à sua Igreja e, depois de
conhecê-la, a abraçá-la é a praticá-la”. O fato de ter sido o Concílio de
índole pastoral, não proferindo definições dogmáticas, não quer dizer que
não tenha autoridade; é uma expressão do magistério ordinário da Igreja, que
goza da especial assistência do Espírito Santo para não induzir em erro os
fiéis católicos.

3. O Encontro de Assis

Tal assembléia reuniu, pela primeira vez na história, representantes da
Igreja Católica, de outras comunidades cristãs e das principais religiões do
mundo inteiro, a fim de se dedicarem ao jejum e à oração em prol da paz
mundial. É de notar que o Encontro de Assis não discutiu doutrinas. Não
tentou encontrar um mínimo denominador comum de todos os Credos. Mas
baseou-se no fato – eloqüentemente comprovado pela história das religiões –
de que todo e qualquer homem, além de ser homo faber, honro ludens, homo
saplens, é também homo religiosus…, homem que acredita numa Realidade
absoluta e que tem por experiência fundamental a experiência do Sagrado. Foi
em função desta dimensão comum e fundamental que os homens se reuniram em
Assis; a oração é a expressão mais espontânea e universal dos anseios
religiosos do ser humano, anseios que a Declaração Nostra Aetate assim
escreve: “Por meio de religiões diversas procuram os homens uma resposta aos
profundos enigmas para a condição humana, que tanto ontem como hoje afligem
intimamente os espíritos dos homens, quais sejam: o que é o homem, qual o
sentido e o fim de nossa vida, o que é bem e o que é pecado, qual a origem
dos sofrimentos e qual sua finalidade, qual o caminho para obter a
verdadeira felicidade, o que é a morte, o julgamento e a retribuição após a
morte e, finalmente, o que é aquele supremo e inefável mistério que envolve
nossa existência, donde nos originamos e para o qual caminhamos” (n° 1).

Para evitar toda aparência de ecleticismo e por respeito aos diversos
Credos, não houve uma fórmula única de oração, mas cada grupo rezou a seu
modo em presença dos demais. No ponto culminante do Encontro de Assis, ou
seja, na tarde de 27/10/86, houve especial empenho por evitar todo
sincretismo: na praça adjacente à Basílica inferior de São Francisco, foi
colocado um estrado, ao qual tiveram acesso sucessivamente os diversos
grupos religiosos, a fim de proferir a sua oração; os demais representantes
religiosos, dispostos em semicírculo, assistiam em silêncio. Assim foram
mantidas as diferenças num clima de aspirações convergentes e expressões
similares. Deu-se um passo inédito no sentido de aproximar os homens entre
si, salvaguardada a identidade religiosa de cada qual – o que está bem na
linha do diálogo religioso preconizado pelo Concílio do Vaticano li.
Eis quanto convinha observar em resposta ao Manifesto do sr. Orlando
Fedeli, sem ferir a consideração que tal irmão merece. { Extraído da Revista
Pergunte e Responderemos, nª 464 }

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Lista “Tradição Católica e Contra-Revolução”

***

 

A CARTA-RESPOSTA DE D. ESTEVÃO AO ARTIGO
“ATAQUE E NOS DEFENDEREMOS”, de Orlando Fedeli
(enviada em 14 de fevereiro de 2001)

Meu caro amigo Orlando Fedeli,
Agradeço-lhe de coração suas longas considerações sobre o Papado. Foram amistosas. Esteja certo de que não vou replicar. Acabou-se a fase da discussão; não leva a coisa alguma. Se o interpretei mal, queira desculpar-me. Tenha-me como seu irmão em Cristo. Continue a mandar-me suas mensagens, se o julgar oportuno.
Atenciosamente
Pe. Estevão Bettencourt OSB


Resposta:

Muito prezado e reverendo Dom Estevão,
salve Maria !

Não sei o que mais admirar em sua mensagem, se é sua grandeza de alma, ou seu gesto de tão profunda amizade.

Deus Nosso Senhor, que tudo conhece, há de recompensar com mutissimas graças os seu atos de virtude.

Peço-lhe que reze por mim, para que Deus me esclareça sempre como devo agir para bem defender a Fé católica, como simples professor que sou.

Nesta hora em que o Santo Padre João Paulo II é tão atacado por sua heróica resistência contra o hedonismo contemporâneo, vejo-me, mais do que nunca, na obrigação de servir como eu possa a nossa santa Fé, os direitos e a autoridade do Papa, tão ofendido desde que publicou a Dominus Jesus.

Para isso, conto com o apoio de suas orações e de sua amizade.

Se um dia eu for ao Rio, farei questão de passar no São Bento, para pedir sua benção de sacerdote, e para cumprimentá-lo como amigo — que o admira, ainda mais agora, e in Corde Jesu, semper,

Orlando Fedeli.

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