Marcelo Andrade

 

CARROS QUEBRADOS

 

Há algumas décadas, na época em que o cruzeiro era maço de curso forçado, nas Minas Gerais…

Vinha o carro de boi ringindo o cocão direcionado pelo carreiro Tião, na junta do cabeçalho, os bois garantido, numerado, sete de ouro e desconfiado. Na matula constava virado de feijão, torresmo, jiló e um pouco de “mata-bicho”.

Nesta viagem ninguém viu o candieiro, Tião estava sozinho. O carro transportava a carga de trabalho e o carreiro, a carga da vida.

Ele prosseguia cortando as vessadelas dos contrafortes pelas trilhas sinuosas de terra semi-enlameadas mal definidas à esquerda e à direita pelo mato verde. Não era dia nem frio nem quente. No céu figuravam nuvens. Nem o ontem nem o amanhã demonstravam algo especial. Nem o hoje.

A paisagem apontava morros aqui e acolá.

Além, do lamento (som do carro de boi), ouvia-se os sons produzidos pelas aves e pelo vento que balançava as árvores do mato.

Numa lonjura, ouviu-se um barulho distinto dos demais. Tião, depois de uma interjeição de espanto: “ichi”, aciona os bois de trava, “sete de ouro” e “desconfiado” fazendo com que o veículo frenasse.

O carreiro iniciou procedimento investigativo. Apercebe-se que uma arreia não suportou o peso e rachou.

Ainda bem que não foi a cheda- pensou.

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No tempo de hoje, na grande cidade de São Paulo…

Vinha o carro G231 da composição do metrô, que prosseguia no trilho rigidamente definido e dentro dele, Gil.

Gil estava sozinho e ao mesmo tempo cercado de uma multidão que se espremia de pé. O metrô produzia o seu som característico de fricção de ferro contra ferro. Gil ouvia, ainda, músicas no mp3, e carregava salgadinhos que não parava de comer.

Não havia paisagem nem se podia saber se fazia sol ou chuva lá fora.

Gil, além de ser conduzido pelo metrô, era conduzido pela corrupção moral moderna, também moldada em trilhos bem definidos.

Desembarcou para mudar de linha. À espera de outra composição do metrô é anunciado que ela vai atrasar devido a um defeito no carro G125.

 

Xingamentos são ouvidos.

 

Tião carreiro sabia que não era problema grave, mas ia atrasar o serviço. Nada demais. Prosseguiu com o conserto que lhe toma mais de meio dia. Almoça calmamente e conclui com o mata-bicho (cachaça).

Na roça há o momento de plantar e de colher, mas este tempo não se conta pelos segundos, mas pelos dias.

Tião não tem contrato de trabalho escrito, é tudo na palavra, não tem ponto, só usa o relógio do dia vendo o sol subir e descer, só sabe da energia elétrica quando vai para a cidade.

 

Pensa por serviço feito e não por tempo cumprido. Não conhece “feriado civil”, só as festas religiosas.

 

Gil ficou revoltadíssimo, pois chegaria atrasado no trabalho, levaria bronca do patrão e até mesmo poderia ter seu dia descontado.

Têm contrato de trabalho por escrito, ponto, prazos, hora marcada etc.

Se Dante fosse vivo hoje, talvez, escreveria também na porta do inferno: “abandonai toda a esperança vós que perdeis a hora.”

Gil almoça num “fast food” correndo.

Tião, no fim do dia, chega em uma das várias casas da colônia – a sua- , simples, mas honesta, vê as galinhas, o pôr do sol e quatro dos seus oito filhos brincando de bola.

Olhava sempre para o céu para ver se ia chover e para rezar para São José.

Não sabia ler, mas não há confusão em sua mente e sua vida é de trabalho, é de ver os filhos crescer, é de rezar, é de ir a missa no domingo é de temer a Deus e de esperar os novíssimos.

 

Vai dormir cedo para acordar cedo amanhã.

Gil chegou, no fim do dia, no seu apartamento apertado, raivoso e ansioso pelo jogo de futebol que tem hora para começar, afinal não pode perder o início. Tem só um filho que vai assistir o jogo com ele.

Se não olhava para o céu para ver se ia chover, muito menos para rezar.

É letrado, mas é imerso em muitas informações, de forma que em sua mente reina a desordem, pois segue sempre a última moda e a última paixão.

Não tem a mínima ideia do que sejam os novíssimos.

Vai dormir cedo para acordar cedo amanhã.

Marcelo Andrade, 5 de outubro de 2014.

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