Data: 15-Mar-2019
De: Emmanuel Gonzaga Araújo.
Cidade:
Assunto: Sobre os “Cursos de formação de Educadores Católicos

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Salve Maria!

Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer aos professores Fernando Schlithler e André Melo pela última carta que me responderam, e agradeço por terem dado maior foco às indicações de música. Consegui, muito felizmente, aumentar a gama dos bons compositores e grupos que escuto e ,de alguma forma, entendi o que há muito tempo o próprio Prof. Orlando já dizia sobre o bom e o mau gosto para a arte. Isso ficou ainda mais claro depois que li aquele trabalho sobre a Cidade do homem contra a Cidade de Deus. Foi somente depois de algum tempo que compreendi o grande problema daqueles grandes compositores do romantismo, como Beethoven, que, no começo, não me pareciam tão ruins. Mas mudei de ideia quando comecei a ver na prática aquela subversão da beleza pelo agradável, em primeiro lugar, quando me deparei, num livro de história da filosofia, com o “criador” do termo “estética” (que significaria, no grego, sensação, sensibilidade), o filósofo alemão Baumgarten, que foi uma grande influência para Kant. Essa identificação explícita de belo com o sensivelmente agradável me foi um tanto chocante. Depois, lembrei-me de um comentário de um professor direitista de filosofia (que se dizia “antes platônico do que aristotélico”) em uma postagem com um vídeo daquela famosa sinfonia de Beethoven, dizendo, até com certa simpatia, que ela condizia perfeitamente com a concepção estética de Immanuel Kant. Mas que estranho…

Perdoem-me a extensão do texto, mas, sendo o assunto mais escorregadio do que parece, como de fato os senhores professores me convenceram disso, essas polêmicas sobre a arte merecem atenção.

O que eu gostaria de perguntar desta vez, na verdade, diz respeito a um assunto completamente diferente. Serei breve. Recentemente, comecei a fazer um curso de formação de catequistas, da própria Arquidiocese, com o intuito de ensinar o Catecismo Romano e o de São Pio X ao invés de fazer leituras “críticas” das Sagradas Escrituras, como é costume aqui. Ao invés da Teologia da Libertação, predomina aqui a RCC, que eu acreditava ser “um mal menor” perto do primeiro. Agora compreendi porque é tão ruim quanto. Logo nas primeiras aulas sobre as Escrituras, atribuiu-se um caráter mitológico ao Antigo Testamento quase inteiro, juntamente com aquelas quatro “escolas teológicas” do método histórico-crítico, negou-se a autoria de São Paulo nas Epístolas 1 e 2 a Tm, 2 Cor, Tito, Filêmon e Hebreus, e afirmou-se que os Evangelhos de Matheus e João foram escritos por “comunidades”. Isso é apenas uma síntese do que mais me incomodou.

É claro que negaram a existência de Adão e Eva e disseram que o relato do Pecado Original não é outra coisa se não uma reflexão de uma escola histórica. Isso me decepcionou muito, porque já li alguns comentários ao Gênesis de alguns doutores da Igreja, como de S. Agostinho e S. Tomás naquele artigo do Prof. Fábio Vanini (Dies Unus), e recentemente tenho lido e relido o incrível Sermão da Septuagésima de Santo Antônio, que tem uma profundidade extraordinária, e o abismo exegético, ainda mais o filosófico e teológico, é muito grande.

E houve quem dissesse, na sala, que essa interpretação “histórica” é teologia. Tenho contato com alguns deles, e parecem ignorar Santo Tomás de Aquino até como santo.

A minha questão é, o que deveria pensar a respeito dos progressos tão alardeados pelos difusores do método histórico-crítico? E sobre a composição do Cânon bíblico e de seus respectivos autores? Há possibilidade desse assunto, que parece tão delicado, ser tratado em alguma aula do canal no futuro, até para se ter alguma noção da bibliografia disponível?

Com tudo isso, despeço-me agradecendo pelo trabalho, em particular pelos últimos vídeos do Professor sobre a Gnose e pela polêmica contra o filósofo Olavo de Carvalho, que foram muito elucidativos.

Sob a guarda de Maria Santíssima,
Emmanuel.

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Resposta

Muito prezado Emmanuel, salve Maria!

Os tais cursos de formação de Educadores Católicos são, infelizmente, muito fracos. Isso para falar bem pouco.

Repetem os slogans que os inimigos da Igreja criam ajudando com isso a difundir o ódio à Igreja de Cristo.

Espalham desconfiança em relação à Igreja e, com isso, em relação à revelação e ao próprio Deus.

Não perca seu tempo com esses cursos, a não ser que precise de uma habilitação, um diploma, um reconhecimento formal para poder lecionar.

Passar por tais cursos e manter a fé é muitas vezes um ato de heroísmo.

O Canon da Bíblia foi contestado pelos protestantes, pois eles tinham interessem em retirar da Bíblia os livros que condenavam seus erros. Daí se vê o desprezo que os protestantes têm pelas Sagradas Escrituras. Desprezo que tentam encobrir com uma espécie de idolatria da Bíblia.

Para justificar a censura que fizeram da Bíblia, os protestantes se valem de uma decisão tomada pelos judeus, no séc. I da era cristã, num sínodo em Jamnia na Palestina.

O objetivo do sínodo judaico do ano 100 era impedir que os livros do Novo Testamento fossem tidos por inspirados e, portanto, adicionais ao conjunto dos livros sagrados. Dessa forma, os critérios usados pelos judeus de Jamnia para definir se um livro era inspirado eram:

– o livro sagrado não pode ter sido escrito fora da terra de Israel;

– não em língua aramaica ou grega, mas somente em hebraico;

– não depois de Esdras (458-425 aC);

– não em contradição com a Torá ou Lei de Moisés

Vê-se que os critérios, verdadeiros limitadores do poder e da liberdade de Deus, eram nacionalistas.

Ademais, no ano 100 da era cristã, os judeus já não possuíam qualquer autoridade teológica ou religiosa.

Esses critérios não foram, contudo, adotados pelos judeus que viviam em Alexandria. Vivendo em terra estrangeira, os judeus do Egito haviam adotado língua estrangeira, o grego, e haviam inclusive feito uma tradução das Escrituras para o grego. Isso por volta de 250 a 100 Ac. É a famosa versão dos Setenta. Nela há livros que posteriormente os judeus de Jamnia não aceitaram.

Havia, portanto, entre os judeus dois cânones de livros sagrados: o de Alexandria, mais amplo, e o de Jamnia, mais restrito.

Nos Evangelhos, quando há uma citação do Antigo Testamento, os escritores sagrados citam a versão dos Setenta, mesmo quando ela diferia do texto hebraico. Citam, inclusive, livros não aceitos pelo sínodo de Jamnia

– Rm 1,19-32 => Sb 12,15

– Rm 13,1 => Sb 6,4-8

– Mt 27,43 => Sb 2,13-18

– Tg 1,19 => Eclo 4,34

– Mt 11,29s => Eclo 51, 23-30

– Hb 11,34s => 2Mc 6,7-42

Também os Padres da Igreja em seus escritos fazem uso da versão dos Setenta, citando livros não aceitos pelos judeus em Jamnia:

             – Epístola de S. Clemente aos Coríntios cita os livros de Judite e Sabedoria, além de fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico;

             – Santo Hipólito comenta o livro de Daniel com os fragmentos não aceitos pelos judeus e cita como escritura sagrada os livros Sabedoria e Baruque, além de utilizar Tobias e 1º e 2º Macabeus.

Diversos concílios da Igreja (Hipona, 393; III Cartago, 397; IV Cartago, 419; Trulos, 692; Florença, 1442; Trento, 1546; Vaticano I, 1870) confirmaram o cânon estendido como sendo o de inspiração divina.

Vale também notar que durante toda a Idade Média não houve dúvidas em relação ao cânon sagrado.

Foi no século XVI que a questão voltou a ser discutida quando Lutero resolveu adotar o cânon dos judeus de Jamnia.

Daí a Bíblia dos protestantes estar incompleta, não possuindo sete livros: Tobias, Judite, Sabedoria, Baruque, Eclesiástico, 1º e 2º Macabeus. Além desses livros faltam também na Bíblia protestante trechos do livro de Esther e Daniel.

Contudo, tanto os judeus do século I dC quanto os protestantes do século XVI, não tinham qualquer autoridade para definir quais eram os livros inspirados.

Autoridade tinham os apóstolos. E estes citavam a versão dos Setenta fazendo uso do cânon estendido.

Em toda essa questão vê-se a importância fundamental da Tradição. A Bíblia não traz um catálogo dos livros inspirados. É a Tradição que nos dá a certeza inconfundível para crermos que a Bíblia contém livros revelados e quais são os livros revelados.

Espero tê-lo ajudado.

Recomendo-lhe também que assista a esta aula:

http://www.montfort.org.br/bra/multimidia/Videos/a_veracidade_dos_evangelhos/

salve Maria!

Bibliografia:

BETTENCOURT OSB, Dom Estevão. Conversando sobre 15 Questões de Fé. Editora Santuário: Aparecida-SP, 1994.

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