Marcelo Andrade

 

EXTREMOS

 

A Semana Santa da pandemia está sendo diferente. Não houve locomoção, não houve missa, não houve vigília na sexta-feira santa. Tudo trancado, tudo fechado, cidades seladas, estabelecimentos cerrados, motores interditados, tudo ocluso e as pessoas lacradas em seus lares. Não haverá a comemoração pós o Lumen Christi e o único o Ofício das Trevas de quarta-feira realizado parece ter sido o de se abrir a janela do quarto, de noite, e não ouvir nem um som de carro se movendo. São Paulo tão viva, estava morta.

Este tempo fez-me lembrar de outra Semana Santa vivida há alguns anos, que foi diferente, per diametrum, cujo Tríduo foi realizado em ambiente campestre, na qual estava tudo aberto. Vi o pasto, o gado, a chuva, os morros, as estrelas, a aurora, ouvi os barulhos campestres, o galo cantar e senti os aromas de terra molhada. Anotei à época:

 

UMA VIGÍLIA NA MADRUGADA SANTA

O orbe campestre e o horizonte,
a noite já havia cerrado.
Não se via nem o chão nem o monte.

Neste cenário todo abumbrado,
a chona avançada era bela
e tudo parecia silenciado.

Porém, na margem da vessadela,
só Iluminava o luzeiro,
uma antiga e pastoril capela.

Vi a torre, o sino e o cruzeiro,
nesta vigília de sexta santa.
E o momento era certeiro.

Na simples Orada que acalanta,
entrei, ajoelhei e rezei,
diante do sacrário que abrilhanta.

Indigno ante a cena, contemplei
sete sofrimentos de Maria.
E nas dores do Filho, meditei.

O galo cantava antes do dia,
o único, a romper a mudez,
pois, não a noite, o sol queria.

Um juízo se impôs com solidez,
na hora que a madrugada conduz.
Só a Cristo eu veja com nitidez.

Que do mundo eu não tire a luz,
nem tenha confiança e encanto.
Que eu me apegue somente à Cruz.

Posto pelo silêncio santo,
que eu tenha o ser purificado,
pelo credo como interno canto.

Alma e coração pacificado,
surdo para este século imundo.
Por fim, tive o voto renovado:

Estar no mundo, não ser do mundo.

 

Foi tudo diferente, então, entre uma e outra Semana Santa?

Na realidade foi desigual só na aparência, só nos acidentes, na essência foi tudo igual, porque pouco importa o que fizemos ou deixamos de fazer ou onde estávamos ou deveríamos estar.

Deus não muda e a Ele servimos.

Isto basta.

Marcelo Andrade, 11 de abril de 2020.

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