Fernando Schlithler

BREVE COMENTÁRIO SOBRE UMA CITAÇÃO DE IGOR STRAVINSKY:

HERESIA MODERNISTA NA MÚSICA?

 

Muitas pessoas ficam perplexas e desconfiadas com a afirmação de que uma obra de arte é símbolo de uma concepção de mundo, homem e Deus (ou seja, de uma filosofia, teologia, doutrina ou cosmovisão). Mais perplexas ainda ficam quando se afirma que obras de arte, literatura, arquitetura, e música possam ser até mesmo veículos de transmissão de doutrinas heréticas através de suas respectivas formas simbólicas.

Sem no entanto pretendermos investigar exaustivamente nesse curto artigo essa questão – cuja explicitação demanda evidentemente diversos trabalhos de maior extensão –  procuramos aqui reproduzirmos apenas algumas referências insuspeitas que podem fundamentar brevemente essa concepção.  

Para mostrar que tal concepção não é baseada numa interpretação subjetiva ou extrapolação indevida e fantasiosa, recorremos a uma passagem da Poética Musical em seis lições do compositor russo Igor Stravinsky (1882-1971), reconhecido gênio da modernidade musical. Essa obra trata-se da transcrição da série de seis conferências proferidas dentro do programa da Charles Eliot Norton Lectures em 1939/40 na Universidade de Harvard, nos Estados Unidos e publicadas em 1942, e escritas com o auxílio de seu amigo Pierre Souvtchinsky (Pyotr Petrovich Suvchinsky , 1892-1985), patrono de diversas iniciativas artísticas e musicais modernas e que, além disso, também escrevia sobre música. Há certo consenso hoje em dia, aliás, que Pierre Souvtchinsky seja o verdadeiro autor por trás dessa série de conferências[1].

Em certa passagem dessa série de conferências, Stravinsky/Souvtchinsky afirmam que há uma relação entre o que se concebe como a estética modernista e a heresia modernista (condenada pelo magistério da Igreja em 1907, pelo Papa São Pio X no decreto Lamentabili Sine Exitu, na encíclica Pascendi Dominici Gregis, no Motu Proprio Praestantia Scripturae e em 1910 no Motu Proprio Sacrorum Antistitum):

“Antes de mais nada, que neologismo estéril essa palavra modernismo! Exatamente, o que quer dizer? Em seu sentido mais estrito, indica uma forma de liberalismo teológico que corresponde a uma falácia condenada pela Igreja de Roma. Aplicado às artes, estaria o modernismo aberto a uma condenação análoga? Inclino-me fortemente a pensar que sim… Moderno é o que é representativo de seu próprio tempo, e deve estar afinado com e ao alcance de seu próprio tempo. Volta e meia artistas são censurados por serem demasiado modernos, ou não suficientemente modernos. Uma recente pesquisa de opinião mostrou que, segundo tudo indica, Beethoven é o compositor mais solicitado nos Estados Unidos. Por esse critério seria possível dizer que Beethoven é moderníssimo, e que um compositor tão importante como Paul Hindemith não é nem um pouco moderno, já que a lista de vencedores nem mesmo menciona seu nome.

Em si mesmo, o termo modernismo não implica elogio ou censura, e não implica qualquer obrigação. Esta é justamente a sua fraqueza. A palavra nos escapa, escondendo-se sob qualquer aplicação que dela se quiser fazer. É verdade que, segundo se diz, cada um de nós deve viver em seu próprio tempo. O conselho é supérfulo: como poderia alguém fazer de outro modo? Mesmo se eu quisesse reviver o passado, as mais enérgicas tentativavs de uma vontade desgarrada seriam fúteis.” (STRAVINSKY, Igor. Poética musical em seis lições. São Paulo: Zahar, 1996, p. 78).

Seria necessário também ressaltar que Paul Hindemith (1895-1963) pode ser considerado também um compositor moderno, embora não tenhamos como analisarmos sua obra no presente artigo pois nos desviaríamos do assunto principal e de nosso propósito.    

Apesar de Stravinsky mostrar certo posicionamento crítico em relação ao termo modernismo e no trecho seguinte opô-lo ao academicismo (STRAVINSKY, Igor. Poética musical em seis lições. São Paulo: Zahar, 1996, p. 79-80), “defendendo-se” de certo modo de ambos os “rótulos” (concepção e oposição que consideramos também ser um tanto problemática e que mereceria mais atenção e elaboração), o que é interessante é a afirmação que a estética moderna estaria sujeita a uma condenação análoga a heresia modernista.Ainda que Stravinsky não desenvolva e embase suficientemente o que entende por essa relação entre a estética moderna e a heresia modernista, afirmando apenas “inclinar-se” a afirmá-la, não deixa de ser interessante e um ponto de partida pertinente para posteriores reflexões e investigações a respeito.

A referência feita por Stravinsky ao compositor Ludwig Van Beethoven (1770-1827) é também um assunto à parte, uma vez que a influência do filósofo Immanuel Kant (1724-1804) em sua obra musical foi analisada por autores como o musicólogo Enrico Fubini (FUBINI, Enrico. El Romanticismo: entre música y filosofía, Valencia: Universitat de València, 2007) bem como a influência da filosofia de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) também em suas obras musicais foi analisada em diversas obras dentre elas  Die Klage des Ideellen (Il lamento dell’ideale)  – Beethoven e la filosofia hegeliana a cura di Letizia Michielon (MICHIELION, Letizia (org.), Trieste: Edizioni Università di Trieste, 2018). Ao contrário do que muitos pensam, portanto, entre música e filosofia há uma grande afinidade.

Intencionamos com esse pequeno artigo somente expor a nossos leitores essa interessante citação de um reconhecido compositor moderno, com total consciência de que seria necessário ainda mostrar o que se entende por uma estética moderna na música e como efetivamente ela pode ser considerada análoga a heresia modernista condenada por São Pio X (algo que, aparentemente, até onde sabemos, o próprio Stravinsky não fez) para verificar se a afirmação de Stravinsky realmente é fundamentada. Embora isso não seja feito nesse artigo, a afirmação não deixa de ter valor e de ser digna de consideração, uma vez que quem o afirma é o próprio Stravinsky (juntamente com Pierre Souvtchinsky), reconhecido representante da modernidade musical do século XX. 

             

[1] WHITE, Eric Walter. Stravinsky: The Composer and His Works. Berkeley/Los Angeles: University of California Press, 1966, p. 113.