Marcelo Andrade

NO LUTUOSO TÚNEL

 

1. INTRODUÇÃO

Num mundo que cultua a técnica e a ciência como se fossem deuses, que parece ter colocado a religião como algo secundário, era de se esperar que a festa de inauguração do mais longo túnel do mundo prestigiasse justamente a técnica e a ciência e não a…

Satanás…

Exatamente!

No dia 1 de junho de 2016, uma das mais bizarras, macabras e descaradamente cerimônias da história em alusão ao príncipe deste mundo teve lugar na “neutra” Suíça.

O nome oficial do canal subterrâneo é: “O Túnel de base de São Gotardo”, ele percorre 57 km de comprimento por dentro das entranhas dos Alpes.

O objetivo dele é facilitar o carrego e veio para “revolucionar o transporte de mercadorias na Europa”, como foi noticiado.

Ele já é tido como um símbolo da união Europeia. Curiosamente, uma ligação subterrânea…

Chefes de Estado da Alemanha, França, Itália, Áustria e Suíça estiveram na inauguração.

A cerimônia de abertura, que durou mais de uma hora, usou e abusou de símbolos e figuras, muitos evidentes e outros nem tanto, estes, hermeticamente direcionados para, digamos, iniciados…

Sobre os símbolos vale a pena entender o seguinte, conforme explica Fedeli (2005)[1]:

Tratando dos símbolos, é preciso salientar que eles são sempre analógicos. Tomá-los univocamente conduz diretamente ao panteísmo. Considerá-los equivocadamente faz cair na Gnose. O símbolo é inteligível no sensível. E é objetivo.

É claro que sua natureza analógica não permite que se faça dele uma leitura de certeza matemática. A analogia lhe dá contornos não totalmente precisos, do que se aproveitam os gnósticos para dar-lhe uma interpretação que contraria tanto a Fé quanto a lógica. Essa deturpação gnóstica dos símbolos se torna ainda mais fácil graças à ambiguidade deles. Os símbolos podem representar tanto o bem quanto o mal; tanto a virtude quanto o pecado. Assim, a serpente representa o demônio e a traição, assim como representa também a prudência; a pomba simboliza a a mansidão, visto que Nosso senhor Jesus Cristo disse: “Sede mansos como as pombas” (Mt X, 16). Mas, a pomba também é símbolo de estupidez, pois está dito: “Não sejais estúpidos como as pombas”. Cristo é chamado o “leão de Judá”, portanto o leão pode ser símbolo de Cristo por sua majestade, assim como pode ser também símbolo do demônio, pois, como disse S. Pedro, o demônio como um leão faminto ruge entre vós, procurando a quem devorar” (I Pe.V,8).

Pretendemos analisar sucintamente esta tétrica cerimônia. Devido à dificuldade de interpretar muitos símbolos, outras interpretações seriam possíveis, mas dificilmente escapariam ao simulacro de satanismo, dada sua evidência.

Dividimos o “espetáculo” em três partes para facilitar a análise. E ao descrevermos os principais acontecimentos já tentamos interpretá-los.

2. CENA  1  

Dentro de um espaço fechado com luzes controladas.

O simbolismo já começa em se fazer uma cerimônia por causa de um túnel. Construções subterrâneas tais como metrôs, túneis, porões, passagens secretas de subsolo etc, sempre fascinaram frequentadores de lojas e seitas místicas.

Estariam as nações além das comunicações aparentes e visíveis, conectadas por estranhas redes subterrâneas e este túnel é um símbolo disto?

Claro que sim.

Antes do início da lôbrega festa, um padre benzeu o local, acompanhado de um rabino, de um muçulmano e de um pastor protestante.

Uma carruagem inaugura a cena e some logo em seguida.

Atores e atrizes aparecem com roupa laranja de trabalhadores marchando como zumbis ou como máquinas, com olhos moribundos (fig. 1). Música com ritmo demarcado evocando respiração e barulho de máquinas funcionando.

Fig.1 – A marcha dos dominados.

Um outro grupo marcha ou simula uma marcha em cima de um vagão aberto de carga.

Marcha é um modo organizado, constante e rítmico de andar, associado normalmente, a fins militares. Quem marcha cumpre ordens, atendendo a um plano previamente estabelecido.

Logo, a interpretação é que estes grupos que marcham se movem a comando. A comando de quem? Do mundo?

De repente, a marcha é interrompida em cima do vagão, e os trabalhadores dançam e correm freneticamente sem alvo definido.

Como quem está querendo se libertar.

Aparece mais um vagão que conduz pessoas vestidas de operários para o palco.

De repente, muitos trabalhadores resolvem subir em correntes, em um movimento de fuga. A música entra em clímax.

Correria, muitos não sabem para onde vão. E fogem.

Surge um novo vagão com pessoas somente com roupa de baixo (homens e mulheres) Evidentemente algo sexual, evocando libertação pelo sexo livre, algo como um ritual tântrico. Na gnose, o sexo livre é libertador e o casamento é aprisionador.

Surge também, neste mesmo vagão, uma pessoa vestida de anjo com cabeça enorme de criança deformada!!! Um anjo caído? Um Lúcifer filhote? (fig 2)

Fig. 2 – O lúcifer-filhote

Este lúcifer-filhote fica um tempo durante o ritual tântrico.

Este belzebu trás a morte, pois muitos simulam estar desfalecidos, mas não para os atores seminus.

Aparece outro vagão com uma pessoa com correntes, iracunda, revoltada. Por que não conseguiu ainda se libertar deste mundo?

O anjo caído e os trabalhadores saem de cena.

Nitidamente, nesta cena, o demônio-filhote se impôs e conduziu tudo, trazendo medo e “libertação”.

3. CENA 2  

Um vagão traz criaturas estranhas, todas cabeludas sem face e corpo nítidos.

Uma criatura com chifres simulando um bode aparece e passa conduzir danças sem sentido.

Pessoas sobem por cordas.

Surgem outras pessoas vestidas de preto e outras em procissão com chifres e crânios de vacas na mão, como oferenda.

Surge uma mulher levando um cordeiro e outras mulheres vestidas de branco portando chifres (fig.3), também em procissão, obviamente, simbolizando sacrifício ou hecatombe[2] grega, no caso, oferecidos a satanás.

Fig. 3 – Mulheres como vítimas a serem sacrificadas.

Ouve-se um canto em voz aguda, um canto tirolês, feita por um homem com roupa normal, paletó e chapéu, como que chamando um bicho chifrudo (fig.4). O palco fica bem vermelho, por causa do holocausto ao demônio?

Fig. 4 – Bicho chifrudo.

Mais um vagão levando uma banda que toca músicas e trabalhadores

Pessoas como loucas correndo como num circo fazendo palhaçada.

Neste contexto aparece um carro com uma pessoa vestida de papa portando olhos escuros como um “pop-star” rindo e acenando cercado por duas freiras. Evidentemente, a figura papal foi ridicularizada.

Toca-se como se fosse um baile e dança-se uma valsa louca. O carro do papa continua andando neste ambiente de festa, baile e circo. No centro está o mesmo homem que cantava em tirolês, comendo e parecendo não se importar com o circo, pois já fora iniciado?

Por que todo este “carnaval”? A vida aparente é um circo? Uma mentira? A realidade é uma ópera bufa? E o papa e a Igreja fazem parte desta farsa? A par desta vida-circo e de uma Igreja visível, existe um mundo sério, real, subterrâneo que é o que importa, onde é cultuado o belzebu, senhor da verdadeira religião?

No final, todos saúdam uma mulher gigante vestida de vermelho.

4. CENA 3  

Em ambiente aberto, fase mais virulentamente endiabrada.

Muitas figuras surgem tanto no palco quanto numa tela gigante.

A mesma marcha de trabalhadores do inicio da “cena 1”. De repente, eles correm em direção a uma tela gigante que mostra um cenário fictício de montanha onde são simuladas mortes de trabalhadores.

Em determinado momento três trabalhadores movimentam os braços provavelmente em alusão a Shiva[3], o deus destruidor e renovador da mitologia indiana.

Os trabalhadores tiram a roupa, simulando libertação, dançam freneticamente.

Surgem pessoa vestidas de branco que sobem. Anjos?

A música se torna pesada, homens e mulheres vestidos de branco com véu. Almas penadas?

Surge um enorme olho na gigantesca tela.

Um homem como Baphomet[4] aterroriza (fig. 5) e conduz a cena tanto no palco quanto na tela gigante.

Fig. 5 – Baphomet.

Aparecem escaravelhos na tela gigante sob os olhares de Baphomet (fig. 6), ora os escaravelhos são símbolos egípcios que representam renascimento, o eterno retorno à vida, o sol e a reencarnação. No caso, a nova vida sob Lúcifer?

Fig. 6 – Baphomet com os escaravelhos.

Aparece uma árvore de cabeça para baixo. Símbolo da inversão da realidade e da falsa paz.

Surgem na tela vários olhos concêntricos (fig. 7) dando a entender vários níveis de observação e entendimento. Os olhos que tudo vê, que enxergam além da realidade aparente, obviamente só para os iniciados, só para os que estão no centro. Existiriam várias “realidades” encapsuladas umas dentro das outras.

Fig. 7 – Vários olhos.

Na tela surgem máquinas, representando o culto à técnica.

Aparece uma mulher de vermelho que vai dar a luz! E há uma outra simulando grotescamente ser uma prostituta. É alusão à passagem do Apocalipse que fala de uma mulher vestida de vermelho e da prostituição com os reis da terra?[5]

No final da macabra festa, cabeções com terno aparecem. São as figuras dos políticos e dos homens de Estado?

Logo depois, surge um relógio louco virando sem parar, na tela grande.

E as pessoas caminham em direção a este relógio como se fosse um deus, e todos se ajoelham (incluindo os cabeções homens de Estado) e prestam reverência religiosa ao tempo enlouquecido.

Há uma reverência à técnica, simbolizando que o homem por meio da ciência chegaria à Utopia.

Por outro lado, dialeticamente, como o tempo aprisiona a matéria segundo a Gnose, o relógio enlouquecido, surrealisticamente parece libertador, logo, é homem sonhando e louvando um mundo sem tempo, místico, irracional, o Milenarismo.

5. CONCLUSÃO

Em raras vezes se viu uma cerimônia tão grotesca simulando (ou efetivamente?) culto ao demônio.

Parece que o poder do mal está tão forte no nosso tempo que os servos do demônio não precisam se esconder mais.

A cerimônia foi eivada de simbologia gnóstica como turvação do tempo, salvação pelo sexo livre, fuga do mundo etc.

Combina culto ao progresso com imersão mística, tenta fazer uma síntese.

Síntese esta comandada pelo príncipe deste mundo.

São Gotardo, tão tristemente associado a este túnel, rogai por nós, para ficarmos bem longe de toda esta imundície.

Marcelo Andrade, agosto de 2016.

REFERÊNCIAS

[1] http://www.montfort.org.br/bra/cadernos/arte/3revolucoes/

[2] Hecatombe significava na Grécia antiga o sacrifício de bois para os deuses.

[3] Curiosamente, Shiva é o símbolo do Cern o maior acelerador de partículas do mundo, supostamente construído apenas para fins científicos. Aliás, no Cern, também aconteceram eventos estranhos.

[4] O baphomet é uma divindade associada à magia, ao ocultismo, ao satanismo e às várias seitas esotéricas. A versão desenhada por Eliphas Lévi é esta:

 

[5] Apocalipse 17, 1-5: Um dos sete anjos que tinham as sete taças aproximou-se e me disse: Venha, eu lhe mostrarei o julgamento da grande prostituta que está sentada sobre muitas águas, com quem os reis da terra se prostituíram; os habitantes da terra se embriagaram com o vinho da sua prostituição.  Então o anjo me levou no Espírito para um deserto. Ali vi uma mulher montada numa besta vermelha, que estava coberta de nomes blasfemos e que tinha sete cabeças e dez chifres.  Traduzir para os originais A mulher estava vestida de púrpura e vermelho, e adornada de ouro, pedras preciosas e pérolas.

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