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Data: 15-Ago-2018
De: Hudson
Cidade: –
Assunto: Predestinação

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Prezados senhores,

No livro dos provérbios (16:4) lê-se que “Deus criou todas as coisas para seu propósito; até o ímpio para o dia mau.”. Essa passagem suportaria a predestinação ao inferno?

Obrigado.

Hudson

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Prezado Hudson, salve Maria!

                A predestinação ao inferno é uma decorrência lógica – mas, falsa – quando se nega o valor das boas obras humanas, bem como quando não se compreende a ação da Providência em equilíbrio à liberdade humana. É exatamente disto que trata o capítulo 16 dos Provérbios. Porém, como em toda a Sagrada Escritura, o assunto é tratado de modo tão sublime quanto sutil, pois a “a glória de Deus é encobrir a palavra; e a glória dos reis é investigar o discurso” (Provérbios 25:2).

Considerando que:                                                                                                                                              

  • todas as coisas que Deus fez são boas;
  • o mal é falta de ser ou falta de ordem;

os atos maus do homem são oriundos de uma desordem intelectual ou de amores desordenados. Assim, um roubo, por exemplo, é uma inversão de bens, quando se coloca o bem material acima da justiça. A mentira, por sua vez, é o privilégio de uma vantagem pessoal sobre a realidade dos fatos. Portanto, as ações humanas nascem de uma ordem – ou desordem – em sua alma.

Por esta razão, o primeiro versículo do mesmo capítulo 16 dos Provérbios já expõe um princípio: “É ao homem que pertence preparar a sua alma”. Este princípio já atribui às decisões humanas a sua ordenação  espiritual, de onde decorrerão suas obras.

Pouco adiante, lê-se “o coração do homem dispõe seu caminho” (Prov 16:9). O coração é símbolo da vontade, que é uma das potências da alma e delibera sobre aquilo que o intelecto conhece. Tudo isto atesta que a liberdade é um pressuposto  dos atos humanos: “o coração do sábio instruirá sua boca”. O homem conhece, quer e, em seguida, age.

Portanto, atos maus ou bons decorrem primeira e necessariamente da liberdade humana.

O incauto poderia deduzir, do versículo questionado, que Deus colocou no ímpio uma finalidade de servi-lo até sua desventura, como fosse uma criatura desprovida de liberdade moral, que existisse sem possibilidade alguma de conversão e salvação.

No entanto, esta conclusão está completamente dissociada de todo o contexto em que o versículo está colocado, pois o capítulo trata precisamente da ação de Deus na alma, sem tolher-lhe a liberdade. “É ao homem que pertence preparar a sua alma; ao Senhor governar-lhe a língua” e “o coração do homem dispõe seu caminho; ao Senhor pertence dirigir seus passos”. Deus governa a língua e dirige os passos do homem, sem, no entanto, impedir-lhe o progresso espiritual e o aumento do amor à verdade, frutos de suas ações deliberadas. Ao erro e ao pecado, dá o remédio: “a iniquidade expia-se pela misericórdia e pela verdade; e o mal evita-se pelo temor do Senhor”. Portanto, é possível evitar o mal – previamente – ou expiá-lo – posteriormente. Logo, a preparação da alma e as obras de misericórdia são remédios a todo o mal do homem. Não há homem intrinsecamente mal, a ponto de não ter solução. É o que confirma São Paulo na 1ª Epístola a Timóteo, na qual se lê: “Deus quer que todos os homens sejam salvos” (I Tim 2:4).

Assim, o que o versículo em discussão trata como certo é que toda a criação estará sempre a serviço da Providência Divina, a qual, de uma maneira ou de outra, por bem ou por mal, faz com que as criaturas terminem por atingir a finalidade que Deus mesmo pôs nelas, ou seja, a finalidade de Lhe dar glória. Isso inclui os maus, pois, no que diz respeito às criaturas dotadas de liberdade, ou elas dão glória a Deus amando-O e adorando-O, participando da vida divina pela graça e assim se salvando; ou, no caso dos maus, terminarão por também dar glória a Deus, mas de outra forma: manifestando a justiça divina no inferno, pagando infinitamente a culpa infinita da qual não quiseram ser perdoados.

Além disso, se houvesse um ato mal humano que fosse absolutamente determinado por Deus:

  • este homem não teria culpa, pois foi Deus que o obrigou moralmente a isso;
  • este homem, não tendo culpa, não poderia ser punido com o inferno, que é um castigo ao pecado;
  • Deus poderia agir mal, o que vai contra Sua natureza.

Logo, Deus não poderia ter criado um homem iníquo já destinado ao inferno, pois vai contra a natureza divina, contra a misericórdia e contra a liberdade, seja humana, seja divina (a liberdade divina é a maior possível, pois só pode haver liberdade na verdade e Deus, sendo a Verdade, é absolutamente livre).

Não é à toa que “o homem ímpio cava o mal” (Prov 16:27). É ação deliberada sua afundar-se e abrir sua cova para a morte na graça.

O versículo 4 afirma, sim, que nada escapa ao governo de Deus. Até mesmo o buraco cavado pelo ímpio em seu dia mal, ou seja, de sua desventura, poderá e será usado para a glória de Deus. Seja para provar o justo (“no caminho dos probos evita-se o mal” – Prov 16:17); seja para que fique claro o bem que deveria ser feito (“a soberba precede a ruína” – Prov 16:18); seja para que se conheça a fonte do mal (“o homem iníquo seduz o seu amigo; e o conduz por um caminho mau”- Prov 16:29), que não é Deus; seja, por fim, para que glorifique a justiça de Deus com o castigo do ímpio.

O pecado de Adão foi de culpa totalmente sua, mas Deus aproveitou desta falta tremenda e deste mal tirou um bem ainda maior, que foi a encarnação de Cristo. Por isso, cantamos no Sábado Santo: “O certe necessarium Adae peccatum, quod Christi morte deletum est! O felix culpa, quae talem ac tantum meruit habere Redemptorem!”.

A liberdade existe e o governo de Deus existe. Este é tema de antiga disputa, mas, se resolve como nos ensina Santo Inácio de Loyola, jesuíta: “Ore como se tudo dependesse de Deus e trabalhe como tudo dependesse de você”.

Salve Maria santíssima!

Fabio Vanini