Laura Palma

SANTA MARIA E O MAR

 

“Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar; reuniu todas as graças e chamou-as Maria.”[1]

Assim enuncia S. Luis de Montfort no início de seu Tratado da Verdadeira Devoção. Faz alusão ao próprio nome da Virgem, que entre diversas explicações de sentido tem, recorrentemente nos Padres da Igreja  também a significação de Mar.

São Luís faz alusão à analogia entre a imensidão do oceano e o imenso mar de graças que é a Santíssima Virgem. É bonito reconhecer no mar a profundidade desse símbolo. É bonito ler no Mar, página tão extensa do Livro do Mundo, os versos aí escritos por Deus, que falam daquela a quem “todas as gerações chamarão de Bem-aventurada” e que Deus também no mar bendiz.

 A extensão

A extensão do mar, é maior, em área, que a de todas as terras emersas. E assim como o oceano supera o tamanho das terras todas reunidas, terra que é comumente  símbolo do homem -“tu és pó, e ao o pó voltarás”- assim a Santíssima Virgem é maior em santidade que todos os santos, maior que todos os homens, não só maior que cada um em particular, mas maior que todos os homens reunidos. 

 O volume

O oceano também é maior que a terra em volume: todas as terras emersas caberiam dentro do mar. Todos os vales, montes, planaltos poderiam ser submersos no mar, mesmo a maior das montanhas da Terra caberia com largueza dentro das águas do oceano.  Assim também não só a Santíssima Virgem é maior que todas os santos e que todos os homens reunidos, mas é maior, é superior a todas as criaturas reunidas. Sua dignidade infinita de Mãe de Deus supera toda e qualquer criatura inclusive os anjos. A dignidade de ser Mãe de Deus é uma dignidade quase infinita, afirma São Tomás.[2] O Mistério da Maternidade divina é um abismo que ultrapassa toda a criação. Por isso é o anjo na anunciação que se inclina e a saúda a pequena jovem e não o contrário. Os maiores picos, as maiores cordilheiras,  poderiam ser submersos na profundidade dos oceanos, os anjos, os coros angélicos, os seres mais altos criados todos reunidos tem dignidade inferior àquela que foi feita Mãe de Deus.

 A profundidade

 Porém apesar de sua grande extensão o leito do mar é a mais baixa de todas as terras. Assim Nossa Senhora, apesar de ser maior que qualquer criatura em dignidade, foi a mais humilde delas. Diz São Bernardino: Como nenhuma outra criatura, depois do Filho de Deus, foi tão elevada em dignidade e graça, assim também nenhuma desceu tanto no abismo da humildade como Maria[3].

E porque o mar é a parte da Terra que menos se eleva, todas as águas correm para ele. Porque Santa Maria de toda a Terra, de todos homens,  foi a que mais se humilhou, todas as graças correm para ela.

“Deus reuniu todas as águas e chamou-as mar, reuniu todas as graças e chamou-as Maria.”

Foi a profundeza da humildade de Nossa Senhora que atraiu as graças de Deus. Deus “pôs os olhos” foi atraído “pela baixeza de sua serva”. Assim como a baixeza das terras do mar atraí pela gravidade todas as águas.

Todas as águas correm para o mar e todas as graças correm para Santa Maria. Esse é seu nome, Cheia de Graças, o anjo não a chama primeiro de Maria, mas de Cheia de Graças.

É a “baixeza”, a humilhação que faz profundo o mar. Apesar de sua imensa extensão em área, o que o faz verdadeira e espantosamente grande é sua profundidade. É o fato de do assoalho do oceano estar muito baixo, tendo média 5 mil metros de profundidade e abismos de mais de 11 mil metros. Assim é por ser profundo, por ser muito baixo, que o mar é verdadeiramente grande. O que o faz grande é sua profundidade.

De mesma forma, toda grandeza natural com que Deus dotou Nossa Senhora não é o seu maior valor. O que a faz grande não é a extensão de todos os seus dons naturais, pois por esses ainda seria menor do que os anjos.  O que a fez grande foi, como ao mar, sua “baixeza”, sua grande humildade. Como disse Nosso Senhor “Quem quiser ser o maior entre vós seja aquele que vos serve, e quem quiser ser o primeiro entre vós seja o escravo de todos” .

A reflexão

Deus fez o mundo como espelho de sua grandeza. No mundo Deus espelhou as coisas céu. E na Terra, é o mar aquilo que materialmente mais reflete o céu físico. Como diz o poeta “Foi nele que [Deus] espelhou o céu”.

 A Santíssima Virgem é como o mar; todo cercado por terras, aberto somente para céu. Foi Nossa Senhora o mais perfeito espelho Deus, onde a imagem idêntica de Deus, o Verbo, se encarnou e se fez visível aos homens. Foi nela que Deus espelhou o céu.

O reservatório 

Do mar nenhuma água sai por gravidade, não há como, pois é todo cercado de terra.  De maneira semelhante da Santíssima Virgem nenhuma graça sai por causa do pecado, pela inclinação desordenada às coisas da terra. Não há como, pois Ela é fechada a toda a inclinação desordenada: “És um jardim fechado minha irmã (…)e não há mácula em ti” [4]

Como iria correr para a terra algo d’aquela que de todo o apego terrestre se privou?

Então como correm as graças desse campo fechado de Deus?

Para que encerrar no mar tantas águas, mais precisamente 97 % das águas existentes? Para que encerrar nela tantas graças?

No mar Deus guarda todas as águas. Guarda e conserva, pois a água do mar tem o sal que a preserva da corrupção. Não fosse o sal o mar seria um grande pântano, com águas turvas e apodrecidas.

Nossa Senhora é a guardiã das graças de Deus, pois tem a Santíssima Virgem o sal da sabedoria e da castidade perfeita que a preserva de toda a corrupção.

 As nuvens

 O Mar só se abre para céu. Como as águas saem do mar?

Aquele que ama quer o bem daquele que é amado. Porém à Deus nenhum bem diretamente se pode fazer. Deus não pode ser acrescido de felicidade, não pode ser acrescido de beleza, pois em Deus nada muda, Ele é a plenitude de todo o bem e nada falta. Dessa forma, nem mesmo os santos, nem mesmo Nossa Senhora pode fazer um bem direto a Deus.

Nossa Senhora tem por Deus um amor perfeito, no qual se rejubila pela felicidade absoluta que Ele encontra em Si mesmo e busca sempre o aumento de sua glória extrínseca.  Mas diretamente não pode fazer bem à Aquele que é Bem absoluto. O amor da Santíssima Virgem se volta então para os homens.

Como diz S. Terezinha “A caridade fraterna é tudo nessa terra. Amamos a Deus na medida que a praticamos”[5]. Amamos a Deus na medida que amamos o próximo. Nossa Senhora que ama a Deus sem medida, sem medida também nos ama e encontra em nós o que “falta” em Deus. Em nós encontra a deficiência, a miséria, a sede, a ignorância. A nós veste com seus méritos, a nós mata a sede com suas graças. Realiza aquilo que Nosso Senhor ensinou no Evangelho:

“Estava nu e me vestisse, tive fome e me deste de comer, tive sede e me deste de beber (…) cada vez que fizeste isso a um destes pequeninos é a mim que o fazeis.”

Assim a Santíssima Virgem por amor a Deus socorre as nossas misérias. Ama a Deus amando o próximo.  É perfeito amor de caridade.

Mais uma vez se parece com o mar, de onde nenhuma água escapa por nenhum lugar, somente pela evaporação.

É o calor do Sol que arranca a água do mar.

É o amor de Deus que arranca as graças do coração de Nossa Senhora. Onde nada pode ser feito senão pela caridade, senão pelo amor Deus.

As graças saem de Nossa Senhora como um vapor, como incenso que só a glória de Deus têm como destino.

E  assim Deus faz aquela que mais desceu subir acima de toda a terra pois “todo vale será exaltado…”.[6]

Fonte de toda água

Não há água na terra que não provenha do mar. Toda a água vem do mar, até a que está dentro de nós. A água dos rios, a água lagos, a água congelada dos polos, a água dos aquíferos subterrâneos vem da água que evaporou do mar. Mesmo a água que constitui as plantas e a que forma maior parte de nosso organismo vem do mar.

De mesma forma não há graça que não venha de Nossa Senhora. Não há graça na terra que não tenha vindo da caridade de Nossa Senhora

Toda graça atual, a graça de nosso batismo, a graça da conversão, toda graça nos vem de Santa Maria. Ainda que o ignoremos, ainda que se faça em segredo, como faz o mar, que mesmo muito longe da costa, onde não pode ser visto, faz chover.

Os  rios  que muitas vezes trazem a chuva e abastecem as cidades são formados pelo mar. Os rios assemelham-se aos  muitos santos da Igreja, que junto com os aquíferos subterrâneos, santos escondidos, são grandes depósitos de água na terra e é Nossa Senhora a formadora de todos os santos. Direta ou indiretamente, pela ação dos rios, dos santos, todas as águas vêm do mar, todas as graças de Santa Maria.

O grande rio Amazonas assemelha-se a São José, rio que parece mar, pois não se veem as margens de terra, homem que parece tanto com Nossa Senhora, pois como o mar, parece não ter margens, não ter limites, apesar de ambos os terem.

Toda água vem do Mar, não alguma, não uma parte apenas, mas toda.

De mesma forma, toda graça vem de Maria. Não alguma, não uma parte apenas, mas toda. Por isso o título, “Medianeira de todas as graças”.

E sem água não há vida. Deus fez toda a vida existente dependente de água. Sem água nenhum ser vivo consegue persistir e realizar seu ciclo de vital.

De mesmo modo sem a graça não há vida espiritual. “Sem mim nada podeis fazer” diz Nosso Senhor. Sem a água colocada por Deus no mar não pode haver vida. Sem as graças de Deus depositadas em Nossa Senhora não pode haver vida espiritual.

Assim, onde buscar água ? Onde matar nossa sede ?

Para que Deus fez o mar? Para que a terra não fosse seca, para que tivesse a terra de onde tirar umidade, para produzir frutos.

Para que Deus fez Santa Maria? Para que os homens não fossem desprovidos da graça. Para que tivessem de onde tirar a graça necessária para produzir frutos com suas obras.

O calor 

Ainda, os oceanos também são uma poderosa força que modifica e o clima de todo o mundo. Dois terços do mundo são cobertos por água, portanto é nos oceanos, e não nos continentes, que incide a maior parte da energia solar. É pelos oceanos que a energia do Sol é mormente captada. E não só, a natureza da terra e da água é bastante diversa. A terra esquenta rapidamente, mas rapidamente também esfria, não retém o calor. A água é muito mais estável do ponto de vista térmico, demora mais que a terra para esquentar, mas quando esquenta retém por muito tempo o calor.

Essa diferença é responsável, por exemplo, pelo grande fenômeno das monções e pelas brisas terrestres. Isso se dá pelo fato do mar conservar o calor mesmo à noite, mesmo no inverno. Essa diferença de temperatura entre a terra e o mar é também o que faz soprar a maioria dos ventos. Dessa forma, é o oceano o grande captador e retentor da energia solar, tão essencial à vida na Terra. A água dos oceanos, presente na atmosfera na forma de vapor, também faz grande parte dessa regulagem.

A ação dos oceanos tempera a vida dos continentes, no verão abrandando o rigor do Sol e no inverno aquecendo.

Dessa forma, mesmo se por absurdo não dependêssemos da água para viver, o que seria das terras sem o oceano? O que seria das terras sem o calor armazenado pelos oceanos? Como seria mantido o calor do Sol nos invernos? Como seria abrandado nos verões?  Aliás, de que adiantaria o calor do Sol se não houvesse quem o recebesse e conservasse?

E o que seria do homem sem a Santíssima Virgem, que conserva sempre aceso o fervor do amor Deus? Que seria da terra tão volúvel, que tão rapidamente se faz fria sem o calor conservado pelas águas estáveis? Que seria do homem, como diz São Luís de Montfort, tão facilmente vencido, tantas vezes violado pelo demônio, não fosse aquela chamada Imaculada? Aquela que aberta só para o céu recebeu todo o Sol, recebeu todas as graças de Deus? Pobre terra não fosse aquela que estavelmente conservou sempre todas as graças recebidas!

A luz

Apesar do calor ser absorvido e retido pelo oceano não acontece o mesmo com a luz.  A luz não consegue penetrar muito longe dentro águas oceânicas. Só a luz azul, de curto comprimento de onda, mergulha mais profundamente no oceano (90 m). A luz de longo comprimento de onda (vermelha) penetra somente cerca de 10 m. Abaixo de 40 m tudo se tinge de azul, abaixo de 60 m não há praticamente visão. A vista alcança pouco mais que a superfície, pouco mais que 0,1% da média de 5 mil metros de profundidade do oceano. Sem mencionar seus abismos que são insondáveis, com enorme pressão e escuridão completa.

De mesma forma, apesar do muito que já foi dito e escrito a respeito da Santíssima Virgem pouco dela se pode ver. Nosso entendimento não penetra muito nesse oceano de graças mesmo com os poderosos holofotes que são a inteligência e santidade dos padres e doutores da Igreja. Nesse oceano também a luz caminha muito pouco.

Como comenta o padre Faber, falando das Dores de Nossa Senhora, o que vemos e conhecemos da Santíssima Virgem é apenas a superfície[7]. Podemos com esforço, por partes apreciar sua extensão mas não o interior.

Diferente da terra que se expõe ostentando suas belezas, o oceano se guarda, se esconde como Nossa Senhora que apesar da enorme grandeza viveu oculta, foi tesouro escondido apenas de Deus conhecido.

Deus para Si a guardou. Ali nossos olhos tão pobres não podem penetrar. Como poderiam? Como nós pecadores, expulsos do paraíso terrestre, no Paraíso de Deus que é a Virgem Santíssima ousaríamos entrar?

É o jardim fechado de Deus onde só o Esposo pode entrar. Só Ele conhece a imensidão de seu interior. Ficamos fora.

 A nós, pobres, resta-nos sentar junto à costa e admirar a grandeza e a beleza do Mar. Resta contemplar o que nossos míopes olhos podem ver, que apesar muito pouco, já é muitíssimo e magnífico. Resta ainda, como terra árida que somos, pedir a brisa ao mar, pedir a Ela que nos cubra com a sombra de suas nuvens, para esconder nossa culpa dos rigores da justiça divina. Resta enfim, como terra ferida pela seca, pedir sua chuva, repetindo o brado irresistível que ouviu de seu Filho na Cruz: “Sitio”

 

Laura Palma- 27/11/2018

 

[1] S. Luís de Montfort, TVD 23

[2] Suma Teológica 1, q.25, a.6 ad 4.

[3] 4 Sr. fest. B.V.M. 3,3

[4] Cant, 4, 7,11

[5] S. Tereza do Menino Jesus, Processo Apostólico, p. 174.

[6] Is. 40,4

[7] FABER, W. Ao pé da Cruz, seção 1.

Leave a Reply