Data: 26-Jan-2019
De: Roberto Elias Costa
Cidade: –
Assunto: Sedevacantismo

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Prezado  André Melo:

Primeiro, venho cumprimenta-lo e ao o site Flos Carmelli, assisti videos interessantes e didaticos, como os dos profs. Marcelo Andrade e Lucia Sant´Anna. Ainda não tive o prazer de assistir um video seu.

Porém, na carta em resposta ao leitor Antonio Aquino, de Manaus, o senhor afirmou o seguinte:

Fique distante dos sedevacantistas. Só quem é muito orgulhoso se põe a julgar se o Papa é realmente Papa ou não. Não é isso que Deus pede de nós.

Com o devido respeito, tais afirmações não possuem amparo na doutrina da Igreja Católica.

Venho em particular lhe escrever. Como leigo que apenas refere os documentos da Igreja. Não falo nada por mim: apenas repito o que a Igreja ensina.Trazer esta fraterna observação. Contundente, talvez, mas fraterna.

Primeiro, observo que o senhor não possue competencia objetiva para predicar a doutrina católica. Não possui autoridade pessoal para dizer o que Deus pede ou não pede de nós. A predica da doutrina católica é privativa da Hierarquia (Can. 1.328, CDC 1917) . Ao que se saiba, não é membro da Hierarquia, ou formado em Teologia, ou ao menos em Direito Canonico.

Segundo, é visível a inconsistencia de suas afirmações, carentes de qualquer fundamentação.

A vacancia da Se Apostólica por eventual heresia pública (apostasia) não é excluida pela doutrina da Igreja, que a prevê explicitamente em vários documentos do Magisterio.

Com efeito,  a Igreja proibe que um herege público obtenha ou ocupe o cargo de Papa. Vide o que prescreve a Bula “Cum Ex Apostolatum Officio” do Papa Paulo IV (1559).

Vide o que dispõe o parágrafo 4º do Canon 188 do Código de Direito Canonico (1917), claro ao impedir que herege ou apóstata ocupe qualquer cargo na Igreja.

Para ser apto para receber a ordenação, é necessário ser católico (canon 985). Um não católico é inepto. Se o escolhido no conclave não é apto para receber a ordenação, não pode aceitar o pontificado, ensina Pío XII ( Alocução ao Segundo Congreso Mundial do Apostolado dos Leigos, 5 de outubro de 1957)

Santos, Papas, Doutores da Igreja e prelados ilustres ensinam que é possível a vacancia da Sé Romana por apostasia/heresia pública do Papa.

Confira:

São Roberto Belarmino, Cardeal e Doutor da Igreja, em sua obra De Romano Pontifice, II, 30, ensina: “Um Papa que se manifeste herege, por esse mesmo fato (per se) cessa de ser Papa e cabeça, assim como pelo mesmo  motivo deixa de ser um cristão e membro da Igreja. Portanto, ele pode ser julgado e castigado pela Igreja. Este é o ensinamento de todos os Padres antigos, que ensinavam que os hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição”.

São Francisco de Sales, Doutor da Igreja, (séc. XVII), «The Catholic Controversy» La Controversia Católica, edição inglesa, pp. 305-306: “Agora, quando ele [o Papa] é explícitamente hereje, cai ipso facto de sua dignidade e fora da Igreja…”.

São Antonino (1459): “No caso em que o Papa se convertesse num herege, se encontraría, por esse único fato e sem nenhuma outra sentença, separado da Iglesia. Uma cabeça separada de um corpo não pode, sempre e quando se mantenha separada, ser cabeça da mesma entidade da qual foi cortada. Portanto, um Papa que se separasse da Igreja por heresia, por esse mesmo fato em sí deixaría de ser a cabeça da Igreja. Não pode ser um herege e permanecer sendo Papa, porque, desde que está fora da Igreja, não pode possuir as chaves da Igreja”. (Summa Theologica, citado em Actes de Vatican I. V. Frond pub.)

Serão esses Santos e Papas “pessoas muito orgulhosas”, senhor André Mello ?

Dom Lefebvre e Dom Mayer também eram “muito orgulhosos”?

EM RESUMO:

Constitui grave erro dizer que só os orgulhosos “julgam” se o Papa é Papa. Pois o Papa, enquanto for Papa, não é julgado por ninguém. Porém, quando ele incide em heresia pública, EM MATÉRIA DE FÉ, aí sim ele pode ser reconhecido como herege que é, pois  ele mesmo se afastou do ofício. Não precisa ser julgado pelos outros, ele mesmo se desliga do cargo.

Se a Igreja previu explícitamente essa hipótese de vacancia –  um Papa tornar-se hereje ou eleger-se um Papa herege – é porque ela pode ocorrer, e os fiéis devem estar atentos para não serem enganados. Devemos ser católicos alertas, e não avestruzes.

Não há documentos inúteis no Magistério. A Igreja não editou esses documentos para que ficassem embolorando escondidos em algum armario, mas para o conhecimento dos fiéis. Para que pudessem se precaver contra um falso pastor, um falso Papa.

É precisamente o que está ocorrendo hoje com Mario Jorge Bergoglio, herege público e notório; ademais, escandaloso.

Nem mesmo os modernistas acreditam mais nele. Vide os escandalos quase diários no noticiário; vide, entre tantos, o site home |

Pois o católico deve ser puro como a pomba mas esperto como a serpente, não deve ser uma avestruz que enfia a cabeça na areia. Não é agir com orgulho seguir o Magistério da Igreja e conferir o que os pastores fazem.

Portanto, perguntar-se se o Papa é mesmo Papa não é um ato de orgulho, mas de uso do discernimento dado por Deus, uso esse determinado por Jesus Cristo.

Sua afirmação contrária, sem base alguma, ignora e desobedece ensinamento da Igreja Católica, e não é bom conselho ao leitor, lamento dizer.

A orientação das almas é tarefa muito grave e séria, por isso privativa da Igreja. O Direito Canonico preve que  leigos só podem exerce-la excepcionalmente e com autorização do Ordinário local.

Também, sua frase é ofensiva e falta com a caridade ao estigmatizar os muitos católicos que já perceberam que o trono de Pedro é usurpado por um herege. A posição sedevacantista é uma posição teológica respeitável; logo, deve ser ao menos respeitada.

Não é orgulho perceber a realidade. Não é orgulho pensar. Não é orgulho estudar o que Igreja ensina. Não é orgulho ter uma correta percepção da crise atual, a maior e mais profunda de todos os tempos.

A candente e sangrenta história da Igreja não é algo distante da vida da gente. Os primeiros cincoenta (50) Papas foram todos martirizados. A Igreja  já teve antes 42 anti-papas; hoje presenciamos o numero 43.

Prezado Andre, com todo o respeito e consideração lhe sugiro corrigir o que disse, tirar a carta do site e avisar o leitor amazonense.

Por isso lhe escrevo em particular, sabedor de sua boa vontade e de sua atitude respeitosa para os leitores.

Se porem entender que estou enganado, por favor me corrija; estou a sua disposição para qualquer esclarecimento.

Deus nos ajude

atenciosamente

Roberto Elias Costa

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Resposta

Caro Roberto, salve Maria!

Há quanto tempo não nos falamos.

Sua carta, que começa com uma casca de respeito, elogios e cortesia, termina por nos atacar e a cair em flagrante contradição.

Em sua missiva, o senhor afirma que eu, leigo que sou, não tenho “competencia objetiva para predicar a doutrina católica”.

Mas em nome de quem o senhor afirma isso?

Seria através de um poder que lhe foi dado do alto?

“Não!” O senhor logo afirmaria em sua defesa. “Estou apenas repetindo o que diz o Código de Direito Canônico!” Sou apenas um leigo que “refere os documentos da Igreja”.

Pergunto: sua fraterna e contundente observação, feita por um leigo como eu, deve ser classificada como uma prédica da doutrina católica ou como mero palpite do Excelentíssimo Senhor Carlos Enrique?

Quanta contradição…

E como se não bastasse tamanha contradição, o senhor, que antes de nos atacar inicia sua carta se fazendo de amigo, chega a elogiar os vídeos de nosso canal. Ora, mas o que fazemos nesses vídeos senão repetir aquilo que a Igreja sempre ensinou?

Contradição!

Por que o senhor só se ofendeu quanto ataquei o sedevacantismo?

Posso, então, solenemente afirmar que o Papa não é Papa, mas não posso repetir para meus alunos o que a Igreja sempre ensinou?

Mas sou professor de História e de Religião. Como fazer para conciliar meus deveres de professor católico com as exigências do senhor Carlos Enrique?

Se não posso repetir o que a Igreja sempre ensinou, para que então ser professor? Para pontificar se o Papa é ou não Papa? Ora, se fosse para isso não valeria a pena…

Saiba o senhor que todo professor católico tem o dever de ensinar e defender a religião, repetindo aquilo que a Igreja sempre ensinou.

Mas o papel de ensinar cabe ao clero, afirmaria o senhor.

E nisso eu concordaria com o senhor. É claro que cabe ao clero ensinar. Afinal, foi para o clero que Cristo disse “Ide e ensinai”. Mas quando um leigo coopera no ensino da religião repetindo a doutrina para seus filhos, seus alunos, seus amigos e demais pessoas ele não está usurpando um papel que não lhe pertence, pois, a Igreja sempre fez uso dos leigos para ajudá-la no ensino e na propagação da fé. Isso não é ir contra o Código de Direito Canônico, mas ajudar o clero a cumpri-lo.

É o que procuro, com todas minhas limitações, fazer. Ajudar no que posso, repetindo o catecismo que aprendi.

Depois o senhor afirma que não tenho competência para dizer o que Deus quer de nós. Ora, nem nunca disse que tenho tal competência. Longe mim! Não cabe a mim dizer o que Deus, de forma estrita, pede de cada um. Mas o que ele nos pede, de forma geral, isso posso dizer. Posso por exemplo dizer que Deus quer que todos observemos os mandamentos, que todos busquemos ter virtude, que amemos o bem e odiemos o mal, que obedeçamos às legítimas autoridades da Igreja. É nesse sentido que me referi em minha carta. Deus espera, por exemplo, que cumpramos nossos deveres de estado, não que percamos tempo discutindo para decidir se o Papa é ou não Papa. Aliás, autonomear-se juiz para decidir se o Papa é ou não Papa, isso sim, que é atribuir-se uma competência que se não tem.

E se atribuir uma competência que não se tem não é orgulho?

Passo então a tratar da questão central de sua carta, o sedevacantismo.

Para criticar a afirmação que fiz, o senhor afirma que um herege não pode ocupar o trono papal.

E do topo de sua erudição chega a evocar o auxílio de São Roberto Belarmino. Pobre São Roberto… mal imaginava como sua argumentação seria usada…

A citação de São Roberto Belarmino, Doutor de autoridade inquestionável, é muito importante e bem merece ser repetida:

“Um Papa que se manifeste herege, por esse mesmo fato (per se) cessa de ser Papa e cabeça, assim como pelo mesmo motivo deixa de ser um cristão e membro da Igreja. Portanto, ele pode ser julgado e castigado pela Igreja. Este é o ensinamento de todos os Padres antigos, que ensinavam que os hereges manifestos perdem imediatamente toda jurisdição”. (o grifo é meu).

De fato, essa grande verdade é óbvia e cristalina, pois se o pecado de heresia é um dos pecados que exclui da comunhão com a Igreja, como uma pessoa estando fora da Igreja poderia chefiá-la? É o argumento de Santo Antonino que o senhor teve a bondade de nos citar.

Mas o ponto não é esse.

A questão é: quem vai julgar e definir que o Papa é herege? Segundo São Roberto Belarmino deveria ser a Igreja.

E até onde sei, o senhor Carlos Enrique não é a Igreja. Tão pouco os sedevancatistas tupiniquins. Corrija-me se eu estiver equivocado.

O senhor me pergunta, como que querendo fazer cair sobre os santos, sobre Dom Lefebvre e Dom Mayer, o ataque que fiz aos sedevacantistas, se eles seriam orgulhosos.

Mas é claro que não! Orgulhosos são os sedevacantistas. O senhor não leu minha carta? Não disse que São Roberto Belarmino, São Francisco de Sales ou Santo Antonino são orgulhos. Disse que os sedevacantistas são orgulhosos. Esses santos nunca se puseram a julgar e definir se o Papa reinante era ou não Papa. E é nisso que está o orgulho.

Estudar a questão e explicar que um herege não pode ser Papa é bem diferente da atitude soberba do sedevacantista que se põe como juiz cuja decisão deve ser aceita por todos.

O ensinamento da Igreja é claro. Um herege não pode ser Papa. Outra coisa é uma pessoa, seja do clero ou não, ou mesmo um concílio, querer julgar um Papa. Nunca um inferior julga um superior. Só um Papa pode julgar outro Papa.

E se um Papa ou uma autoridade ensinar ou ordenar algo contrário ao que a Igreja sempre ensinou? Nisso não se deve obedecê-lo.

Mas nunca se constituir juiz para julgar se agora ele é ou não é mais Papa, bispo ou pároco. Isso um outro Papa julgará. Não nós.

O pai que ordena algo errado ao filho não deve ser obedecido naquilo que de errado ordenou. No mais, ele continua sendo pai e merecedor de obediência.

A História da Igreja possui diversos exemplos de como os católicos devem agir em momentos de crise, de confusão e perplexidade. Em momentos como este em que vivemos.

Ora, fazer-se sedevacantista nunca foi um deles.

Por isso que insisto: Fique distante dos sedevacantistas. Só quem é muito orgulhoso se põe a julgar se o Papa é realmente Papa ou não. Não é isso que Deus pede de nós.

Que Nossa Senhora, que é Mater Ecclesiae e que diversas vezes ajudou a Igreja de seu Filho a superar tantas outras crises, ajuda-a a superar também a atual. E que Ela nos faça humildes para sabermos enxergar qual é nosso real papel em toda essa história.

Salve Maria!

André Melo

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