Data: 09-Out-2018
De: Simão
Cidade: –
Assunto: Barroco

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Salve Maria Imaculada,

Que Nossa Senhora o guarde em suas mãos.

 Bom Dia,

Tenho algumas dúvidas:

 I – o que é Barroco?

A – é conveniente para um Cristão apreciar isto?

 II – o que é Música Barroca?

A – é conveniente para um Cristão apreciar música Barroca?

 III – o que é Arquitetura Barroca? 

A – no Brasil, ainda é conveniente construir casas com este estilo?

  Seja Nosso Senhor para sempre Bendito, que suas criaturas cantem seus louvores.

  Simão Henriques

  09/10/18

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Resposta

Prezado Simão, salve Maria!

Sua carta é muito oportuna, pois nos permite tratar de um dos mais sublimes estilos de arte, sua conveniência à prática da religião católica e suas implicações. Em nossa breve experiência, temos visto que a defesa da religião católica e o modo como se estuda e se difunde o cristianismo, hoje em dia, tem sido desvinculado da arte, como se não houvesse um compromisso moral entre elas e como se uma arte ruim não fizesse mal às almas. Pior ainda, como se um católico esclarecido com relação à doutrina e Missa de sempre, preparado contra o modernismo e contra o comunismo, estivesse já imune à má arte. E isto significa destruir a devoção e a prática real da religião.

Os teóricos têm dificuldade em definir o barroco, não sem razão. Os renascentistas, anteriores ao barroco, tinham uma grande preocupação teórica com seu novo estilo, pois havia uma intenção em se substituir, convincentemente, o mais sublime de todos os estilos, que foi o gótico. O Renascimento precisava de uma pesada carga teórica racional para justificar o misticismo irracionalista da Academia Platônica de Florença, de Marsilio Ficino, que pretendia superar o estilo mais católico de todos os tempos e, assim, convencer os padres, nobreza e a burguesia a aceitar um neo-paganismo com aparência de cristão. Ao mesmo tempo, surgia com furor o protestantismo e sua reforma doutrinária. O barroco seria uma resposta artística da contra-reforma ao incêndio protestante. No entanto, não representou uma absoluta ruptura com o renascimento, como fora este com o gótico. Aproveitou-se muito do estilo do século XV e XVI para se produzir um estilo extremamente agradável, sublime, católico, com uma força expansiva que se aproveitava da expansão marítima e das novas colônias e riquezas para difundir a doutrina por meio das missões, emolduradas por um estilo extremamente alegre e convidativo. Considerando que a arte eleva e dá um sabor à razão e à lógica da doutrina, a soma destes fatores fortaleceu enormemente a expansão da doutrina católica por todo o mundo.

Porém, quando se diz que há dificuldade em se definir o barroco, é que a mesma preocupação teórica do renascimento não se manteve. Usa-se a expressão barroco como  similar a bizarro, absurdo ou como o termo francês, de etimologia incerta, baroco, para descrever uma pérola não perfeitamente redonda (H. Wölfflin, 1968, Renascença e Barroco). Costuma-se, desse modo, partir para uma descrição como forma de se conhecer o estilo. O barroco é uma “suavização” do renascimento, quanto à carga matemática e geométrica, em que as linhas e números ficam velados sobre curvas e contra-curvas, ornamentação às vezes exagerada, folhas de acanto, panos e volutas. Também a imoralidade do renascimento torna-se suavizada, às vezes corrigida de fato, outras vezes apenas coberta por largos panos, sem perder uma certa sensualidade – o que é de se lamentar. De qualquer modo, o barroco ganha muito movimento, numa alegria muitas vezes otimista e, por vezes, mundana. Por outro lado, não se perde a piedade e supera-se a frieza do renascimento. Há que se atentar ao perigo do panteísmo no barroco, já que se dá uma tendência a uma alegria neste mundo, uma atenção especial à materia e aos afetos humanos. Não podemos deixar de citar a sua vertente tendente à gnose, fruto de um exagero do irracionalismo místico do renascimento, que culmina no maneirismo, onde perde-se a preocupação com as proporções e, até mesmo, com a natureza das coisas, propositalmente, buscando uma posição da matéria e do mundo. Tem como expoente Michelangelo Buonarroti.

Ao católico, dito isto, é um estilo extremamente conveniente, com o cuidado de não se parar nele ou de se opor ao estilo mais católico de todos, que é o gótico, naquilo que tem de mais católico, que é a espiritualidade elevada, o simbolismo inspirador das virtudes e a aliança com a escolástica e a moral. Um dos perigos do barroco é cair num sentimentalismo romântico por causa de um excesso dos afetos humanos, tão considerados pelos artistas.

A música barroca tem uma particularidade em relação às outras artes. Enquanto o renascimento se baseou na cultura greco-romana e o barroco tem nele uma continuidade, em certo sentido, na música isto não foi possível. Não há um registro da música greco-romana como há para as outras artes. Assim, a música profana continuou um desenvolvimento estilístico e estético desde a idade média até o barroco, sendo bruscamente interrompido com a música romântica, a grosso modo. De qualquer maneira, a música barroca é bastante conveniente a um católico, sem muitas restrições, especialmente como meio de se educar o gosto musical. Apenas, faz-se algumas ressalvas a autores importantes como Bach, por causa da sua tendência pietista, que fornecerá subsídios para a música romântica, e ao exagero de pompa e mundanismo com as músicas de corte francesas, por exemplo, que são belas e fortes, mas serviam a uma nobreza já muito decadente e com descontrole das paixões humanas, pelo gozo do mundo.

A Arquitetura barroca, por sua vez, é extremamente conveniente. Por ser a arquitetura a mais racional das artes, uma vez que não pode conter absurdos, pois tem de ser muito funcional, o estilo barroco lhe fez muito bem. A unidade entre arquitetura, escultura, pintura e música trouxe às missões jesuítas uma força impressionante, que até hoje impressiona aos melhores artistas. O nível europeu mais elevado foi praticado, desenvolvido e multiplicado por todo o novo mundo, produzindo matizes espetaculares, seja nas Américas, na Ásia e por onde chegou a Companhia de Jesus, grande motor da contrarreforma e do estilo barroco.

A reprodução, hoje, de uma arquitetura colonial de inspiração barroca, deve servir de estímulo à boa arte. Não há fonte melhor para nós, brasileiros, por exemplo. No entanto, já advirto que não é fácil, dado que não respiramos mais um espírito artístico católico como antes, bem como os artistas e artesãos não têm mais a familiaridade com o estilo e a técnica do passado. Muito há que se fazer, desde a teoria à aplicação.

O católico de hoje está desprovido de um estilo contemporâneo que lhe fortaleça a fé. Porém, não pode alegar falta de suporte histórico, já que se tem farto acesso à arte barroca. É uma pena que não podemos desfrutar do estilo gótico bem representado no Brasil, mas temos a arte colonial à disposição e, certamente, podemos nos inspirar nela para nos ajudar na prática das virtudes, buscando a verdadeira alegria da ala cristã. Difundi-la, por meio de reproduções seria excelente.

No Coração de Maria Santíssima,

Fabio Vanini

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