Data: 08-Jun-2019
De: Kaique.
Cidade: não mencionada
Assunto: Sobre se: “Somente a igreja Católica Romana é a verdadeira, que somente nela há salvação?”

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Olá, meus nobres colegas do canal flos carmeli. Meu nome é kaique, possuo formação protestante, e costumo assistir alguns vídeos que você disponibilizam na Internet, inclusive sou inscrito no canal de vocês no You Tube.

Indo direto ao ponto, é muito comum vários católicos de formação tradicionalista como vocês alegarem que somente a igreja Católica Romana é a verdadeira, que somente nela há salvação e que as outras religiões são falsas. Bem, o meu questionamento é: o que dizer das inúmeras contradições entre os concílios, encíclicas, bulas papais e das inovações teológicas que foram introduzidas dentro do catolicismo ao longo dos séculos?

Em relação ao documentos mais antigos da igreja romana; nas atas do concílio de Florença, por exemplo, encontramos a afirmação que todos aqueles que se encontram fora da igreja de vocês como judeus, hereges, cismáticos e pagãos não podem compartilhar da vida eterna irão para o fogo eterno com o diabo e seus anjos. Entretanto, quando lemos documentos do concílio Vaticano como o “decreto Unintatis Redintegratio” a afirmações de que as igrejas separadas podem produzir a vida da graça, abrir à porta à comunhão da salvação, etc. Pois bem, a pergunta que fica como que vocês podem considerar a organização religiosa como sendo a única infalível diante dessas contradições? Como a igreja católica Romana pode ser a única religião genuinamente verdadeira, sendo que ela promulgou muito daquilo que tinha condenado séculos atrás?

A resposta que ouço de muitos católicos é que o Concílio Vaticano II é apenas um concílio pastoral que não contém nenhuma afirmação dogmática; contudo, penso que isso é uma péssima resposta pois a natureza de um fato não alterada pelo modo como alguém diz que acontece; ou seja, uma contradição não deixam de ser como tal somente pelo fato de certos romanistas alegarem que tal afirmação de concílio não é dogma.

Uma igreja que se diz inerrante na figura do papa, jamais poderia contrariar o seu ensino histórico, independentemente do fato se determinados decretos não serem considerados dogmáticos. Uma instituição que se considera infalível deveria ser coerente sempre, algo que simplesmente não há na igreja de vocês. Do resto, além dos documentos eu poderia citar as inovações teológicas foram surgindo ao longo dos séculos dentro do catolicismo, mas creio que isso já é o suficiente.

Atenciosamente

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Resposta

Prezado Kaique,

salve Maria, cheia de graça! (Lc 1,28)

 

Que a Igreja Católica é a única verdadeira e, portanto, a única portadora da verdade e da salvação, se deduz de forma muito simples.

Havendo um só Deus, há uma só verdade e um só batismo. Logo, só pode haver uma religião verdadeira.

E essa religião verdadeira deve ser estabelecida pelo próprio Deus, e não por um homem.

Ora, Cristo é o próprio fundador da Igreja Católica estabelecendo-a sobre a pedra (Mt 16,13-19).

A Igreja Católica perdura assim na História tendo como vigário de Cristo os Papas, sucessores de São Pedro, apóstolo que recebeu tal missão (a de ser rocha, fundamento, da Igreja de Cristo) justamente após ter confessado que Cristo era o Messias, o filho de Deus.

Sendo Cristo o único redentor e salvador da humanidade, é somente através da Igreja que Ele fundou que pode haver salvação. Portanto, “fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados”[1].

Essa é a verdade católica, cristalina como água do pote.

Você nos apresenta uma questão talvez pensando que ela possa comprometer a verdade acima exposta.

Pelo contrário, o problema por você relatado vem confirmar a origem divina da Igreja.

Vejamos.

Jesus fundou Sua Igreja contando com 12 apóstolos. Um deles, além de roubar o grupo (Jo 12,6), traiu o Mestre entregando-o. Cristo, mesmo conhecendo a má conduta de Judas, tentou até o fim ajudá-lo.

Cristo também rezou de forma especial por São Pedro (Lc 22,31s), pois é natural que um Papa seja mais tentado que um homem comum.

Veja que o perigo, vindo tanto de fora quanto de dentro da Igreja, sempre existiu.

Cristo rezou ao Pai pedindo “para que todos sejam um” como o Pai e o Filho são um (Jo 17,21).

São Paulo adverte os cristãos de Corinto para que não haja cismas: “Ora, rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos o mesmo e que entre vós não haja cismas, mas sede perfeitos no mesmo espírito e no mesmo parecer” (Cor 1,12).

Os exemplos acima não testemunham contra a Igreja, mas a seu favor.

Se com tantos ataques ela sobrevive, só pode ser devido à sua origem divina.

Os ataques nunca cessaram sendo uma constante na História da Igreja. Eles são tanto piores quanto mais do interior da Igreja procedem.

Dessa forma, a traição de, por exemplo, um monge agostiniano é pior que a perseguição perpetrada pelos muçulmanos. Estes produzem mártires enquanto aqueles fazem com que as pessoas saiam da Igreja abandonando a fé que poderia salvá-los.

Mas não é a traição de alguns que torna a Igreja má. A maldade de Judas não pode ser credita à Igreja fundada por Cristo. Em outras palavras, não podemos atribuir à Igreja o erro de um católico em particular. Ainda que seja do Papa.

Logo, não há contradição, por parte da Igreja Católica, em haver pessoas que, de dentro da Igreja, trabalham em desacordo com o que o próprio Cristo e sua Igreja ensinam e defendem.

Passando ao pondo mais relevante e específico de sua carta, vejamos como pode haver pessoas que, mesmo de dentro da Igreja, contrariam aquilo que Cristo e sua Igreja sempre ensinaram.

Ora, com vimos, não podemos atribuir à Igreja a atitude de pessoas ainda quando agem de dentro da Igreja.

A doutrina da Igreja, aquela contida na revelação, é sempre a mesma. Devemos dar fé aquilo que a Igreja sempre ensinou de forma contínua em todo lugar durante todo o tempo. A verdade tem aversão a novidades.  

O depósito da fé é sempre o mesmo. E mesmo quando houve pessoas defendendo mudanças, o ensinamento perene da Igreja nunca mudou. E nunca mudará. Mesmo que aqueles que desejam e promovem as mudanças não saiam oficialmente da Igreja.

Mesmo que um anjo do céu o fizer (Gl 1,8-12). Note que interessante esse alerta dado por São Paulo. A metáfora por ele usada é bastante veemente. São Paulo sabia disso. E ele não a teria utilizado caso não soubesse do risco real de pessoas de grande autoridade terem a tentação de mudar aquilo que Cristo revelou.

Daí tantos inventores de novidades em todos os tempos. Basta estudar da História da Igreja para constatar isso que digo.

A infalibilidade do Papa vem em nosso auxílio nessa matéria. Assim como Deus falou pela boca de São Pedro (Mt 16,17), da mesma forma Ele fala pela boca do Papa.

Compreendendo-se bem o dogma da infalibilidade papal compreende-se a situação atual da Igreja. De sua incompreensão decorre em grande parte a confusão atual.

Nem tudo o que Papa diz tem o mesmo peso. Assim, se o Papa comenta que acha que vai chover a tarde, isso não significa que choverá infalivelmente. O Papa não é infalível em meteorologia, mas em fé e moral e quando fala ex-cathedra.

Dessa forma, se na história – mesmo na atual – houve momentos em que um determinado papa emitiu juízo diferente daquele que a Igreja sempre acreditou e ensinou, nisso se resiste respeitosamente. Sem atribuir tal ato à Igreja ou a uma falha da infalibilidade.

A Igreja é sempre coerente porque a verdade é coerente. Mas ser coerente não significa estar isento de ataques.

A verdade é sempre atacada.

E você, Kaique, não gostaria de, nesses tempos difíceis, lutar pela verdade conosco? 

Salve Maria!

André Melo

 

  1. Bonifácio VIII, Bula Unam Sanctam.

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