A CABALA

 

– Transcrição feita por Ciro Fernandes, a quem agradecemos muito, da aula de mesmo nome-

 

A. INTRODUÇÃO

I. Sobre a Cabala

Cabala (em hebraico, קַבָּלָה, cabalá) significa algo recebido, uma tradição. É a recepção oral dos segredos recônditos das Escrituras. Trata-se de uma corrupção do pensamento judaico (gnose judaica).

A Cabala é uma doutrina secreta. Segundo Gershom Scholem, no livro As Grandes Correntes da Mística Judaica, o esoterismo judaico, sendo a Cabala sua principal vertente, é duplamente secreto, porque, além de ter por objeto os segredos do texto bíblico, era transmitido oral e secretamente em círculos fechados. Pode-se identificar ainda uma terceira camada do hermetismo, consistente na linguagem codificada em símbolos e enigmas, empregada pelos autores cabalísticos.

II. Sobre o conceito de judeu segundo a doutrina católica

A Igreja Católica adota uma definição estritamente confessional de judeu. Judeu é aquele que professa a lei mosaica. Os judeus encontram-se fora da verdadeira Igreja, numa categoria própria, separados dos hereges, infiéis,  apóstatas, cismáticos e excomungados. No Catecismo de S Pio X, Primeira Parte, Capítulo X, § 6, n. 223 e ss., lê-se:

6º – Daqueles que estão fora da Igreja
223) Quem são os que não participam da comunhão dos Santos? Aqueles que não participam da comunhão dos Santos são, na outra vida, os condenados, e nesta vida aqueles que não pertencem nem à alma nem ao corpo da Igreja, quer dizer, aqueles que estão em estado de pecado mortal e se encontram fora da verdadeira Igreja.
224) Quem são os que se encontram fora da verdadeira Igreja? Encontram-se fora da verdadeira Igreja os infiéis, os judeus, os hereges, os apóstatas, os cismáticos e os excomungados.
(…)
226) Quem são os judeus? Os judeus são aqueles que professam a lei de Moisés, não receberam o batismo, nem creem em Jesus Cristo.

Num sentido leigo e mais comum, o termo judeu possui não somente uma acepção religiosa, como também racial; judeu seria tanto aquele que segue a lei mosaica, quanto filho de pai ou mãe judeus.

III. A Igreja Católica e o judaísmo

A Igreja Católica convida o povo judeu à conversão e propugna laços de caridade com seus membros; toda espécie de ato ou discurso antissemita é taxativamente condenada. Na declaração Nostra Aetate, sobre a Igreja e as religiões não-cristãs, de 28 de outubro de 1965, encontra-se:

Além disso, a Igreja, que reprova quaisquer perseguições contra quaisquer homens, lembrada do seu comum patrimônio com os judeus, e levada não por razões políticas, mas pela religiosa. caridade evangélica. deplora todos os ódios, perseguições e manifestações de anti-semitismo, seja qual for o tempo em que isso sucedeu e seja quem for a pessoa que isso promoveu contra os judeus.

IV. Sobre a lei mosaica

S. Tomás de Aquino, na Suma Teológica, Questão 103: Da duração dos preceitos cerimoniais, Art. 4, resposta à primeira objeção, citando S Agostinho, divide a validade da lei mosaica em três fases: 1.fase obrigatória, anterior à Paixão de Cristo; 2. fase morta, entre a Paixão de Cristo e a difusão do Evangelho; 3. fase mortífera, após a difusão do Evangelho.

Por isso e mais apropriadamente, Agostinho distingue três tempos. Um, anterior à paixão de Cristo, em que as cerimônias legais nem eram letra morta, nem mortíferas. Outro, posterior à divulgação do Evangelho, em que são letra morta e mortíferas. Um terceiro tempo é médio, isto é, compreendido entre a paixão de Cristo e a divulgação do Evangelho, em que eram, certo, letra morta, porque já não tinham nenhuma força nem estava ninguém obrigado a observá-las.

À luz da boa doutrina da Igreja Católica, a observância da lei mosaica é mortífera e não conduz ao caminho de salvação revelado por Jesus Cristo. Não há que se falar, portanto, em cultura ou moral judaico-cristã.

B. A CABALA NO MUNDO ANTIGO E NA IDADE MÉDIA

I. Origem histórica

A mística judaica remonta, de acordo com Gershom Scholem, ao Século VI a.C, após a construção do Segundo Templo de Jerusalém.

No ano 539 a.C., Ciro apodera-se da Babilônia e ordena o repatriamento dos judeus mantidos em cativeiro e a reconstrução do seu templo, que, segundo a descrição presente no livro de Esdras, terá tido lugar sob o sacerdote Josua, filho de Jazadaque e Zorobabel, filho de Sealtiel. A obra, porém, foi interrompida durante o reinado de Ciro, e só foi retomada no reinado de Dario.

Alguns autores afirmam que uma parcela dos judeus retornou do Cativeiro da Babilônia impregnados por interpretações místicas e gnósticas das Escrituras. Outros apontam o Egito como origem do esoterismo judaico. De qualquer maneira, tais doutrinas corrompidas enraizaram-se na cultura do povo hebreu, capilarizaram-se em diversas correntes derivadas e, na Idade Média, floresceram na Cabala, o segmento da mística judaica dotado do simbolismo mais desenvolvido.

À primeira hipótese confluem outros indícios. No livro de Ezequiel 8:7-13, por exemplo, mencionam-se práticas esotéricas por parte de um grupo de judeus. Nesse período, surgiram também os doutores da lei e os escribas, que ajudaram na disseminação do misticismo.

Conduziu-me até a entrada do adro e, reparando, vi que havia um rombo no muro. Filho do homem, disse-me ele, fura a muralha. Quando a furei, divisei uma porta. Aproxima-te, diz ele, e contempla as horríveis abominações a que se entregam aqui. Fui até ali para olhar: enxerguei aí toda espécie de imagens de répteis e de animais imundos e, pintados em volta da parede, todos os ídolos da casa de Israel. Setenta anciãos da casa de Israel, entre os quais Jazanias, filho de Safã, se achavam de pé diante deles, segurando cada qual o seu turíbulo, do qual se elevava espessa nuvem de fumaça. Filho do homem, disse-me ele, vês tu o que fazem os anciãos de Israel na obscuridade, cada um deles em sua câmara, guarnecida de ídolos, pensando que o Senhor não os vê, e que ele abandonou a terra? E ajuntou: Verás ainda abominações mais graves que eles estão cometendo.

Ao tempo de Jesus Cristo, a doutrina judaica já se encontrava consideravelmente corrompida. Era possível detectar certos pensamentos cabalistas incipientes. Sobre o tema, ver o livro Escribas, Doutores da Lei e Fariseus, do Prof. Orlando Fedeli. Rabi Baal ha-Sulam (1885-1954), o Mestre da Escada, afirmava que Gamaliel, o Ancião (I a.C.-52 d.C.), mestre de São Paulo, teria sido cabalista.

II. A Cabala na Idade Média

A Cabala veio a corporificar-se num conjunto orgânico de pensamento na Idade Média. Somente a partir de então é possível falar-se em Cabala no sentido próprio da palavra.

Durante as lutas de Reconquista (722 a1492, a guerra mais longa da História), os judeus gozavam de ampla liberdade de ir e vir no território da Península Ibérica. Nesse período, os judeus desenvolveram um centro de estudos rabínicos em Toledo, que por esse motivo ficou conhecida como a Jerusalém do Ocidente. Mesmo depois da expulsão dos mouros, os judeus deram continuidade aos projetos cabalistas. Destaca-se a Escola Cabalista de Girona, bem assim autores de renome, como Moses de Léon (1240-1305) e Abraham Abulafia (1240-1291). No Sul da França, foi escrito o livro Sefer HaBahir, que descreve a árvore da vida. Os cabalistas tiveram contato cultural com a poesia de Provença, com os cátaros e também com os espiritualistas franciscanos.

Comenta-se que a maior influência da Cabala no mundo católico tenha se dado pelo monge calabrês Joaquim de Fiore (1135-1202), cuja tese das três idades possui nítido conteúdo esotérico. O pensador divide a História em três fases: 1. a Época do Pai, na qual vigia a lei mosaica; 2. a Época do Filho, o tempo da graça; e 3. a Época do Espírito Santo, governada pela Igreja do amor, quando toda lei seria abolida. Esta doutrina serviu de base para o milenarismo moderno. Gershom Scholem afirma que, embora Joaquim de Fiore não tenha sido educado por cabalistas, verificam-se diversos pontos de convergência entre sua obra e o pensamento místico. Outros autores, como Gleen Alexander Magee, em Hegel and the Hermetic Tradition, defendem que Joaquim de Fiore tenha sim sido discípulo de cabalistas. De fato, judeus habitavam a região da Calábria, inclusive ocupando postos de ensino nas universidades.

III. O Livro do Zohar

No Século XIII, Moses de Léon escreveu a obra magna da Cabala, o Zohar, o Livro do Esplendor. A partir de então, a história da Cabala se confunde com a história do Zohar. A obra se tornou a referência central do misticismo judaico. Trata-se de um livro de leitura complexa. A linguagem é cifrada, o estilo literário, variado e as idéias veiculadas, descontínuas e assistematizadas.

A autoria do Zohar é contestável: alguns afirmam se tratar de uma compilação de diversos textos, transmitidos por tradição desde o Século I d.C., outros atribuem a autoria exclusiva a Moses de Léon. Gershom Scholem é da opinião de que o livro foi escrito por Moses, com base nas tradições judaicas antigas.

A corrente dominante nos círculos cabalistas, no entanto, mistura informações históricas e lendas, para legitimar a tese de que as visões da Cabala, compiladas no Zohar, remontariam aos tempos de Abraão. O patriarca seria politeísta e, após a conversão ao judaísmo, jogou fora todas as imagens das divindades. De acordo ainda com essa versão, o autor do Zohar seria Shimon bar Yochai (cerca de 160 d.C.), o qual teria recebido revelações diretamente do profeta Elias. Aliás, é comum na Cabala a indicação do profeta Elias como mentor esotérico das doutrinas. O próprio Moses de León, autor do Zohar, afirma ter sido o livro escrito por Shimon bar Yochai. Gershom Scholem reputa por falsa tal alegação e a acusa de pseudográfica (atribuição da autoria de obra a outrem). Certo é que Shimon bar Yochai é citado no Zohar. Sabe-se também que ele foi discípulo do Rabi Akiva, um dos nomes mais famosos do judaísmo, responsável pela compilação da Mishná e do Talmude.

O Talmude é uma coletânea de livros sagrados dos judeus, um dos textos centrais do judaísmo rabínico. O Talmude tem dois componentes: a Mishná, o primeiro compêndio escrito da Lei Oral judaica; e o Guemará, uma discussão da Mishná e dos escritos tanaíticos que frequentemente abordam outros tópicos. A Mishná é a primeira grande compilação escrita da tradição oral judaica, chamada a Torá Oral. Tanto o Talmude quanto a Mishná já contavam com certa veia esotérica, principalmente na linha da Merkabah e do Bereshit.

Em 1290, o Zohar já era amplamente difundido nos círculos cabalistas. Em 1263, por exemplo, o Rei Jaime I, de Aragão, promoveu em Barcelona um célebre debate público entre Pablo Christiani, judeu convertido ao Cristianismo, e o Rabi Nachmanides. Isto prova a ampla liberdade que tinham os judeus para ensinar e debater suas doutrinas na Idade Média, longe das fantasias difundidas pela propaganda anti-católica na modernidade.

C. DOUTRINAS ESOTÉRICAS DA CABALA

I. Merkabah (trono ou carruagem de Deus)

Tradição da mística judaica centrada em visões como as do Capítulo I do livro do profeta Ezequiel ou nas alegorias do Hekhalot (palácios), que retratam carruagens divinas que subiam e desciam através de câmaras ou palácios celestiais até o trono de Deus. O corpo central da literatura do Merkabah foi composto entre 200 a 700 a.C.;

II. Bereshit (primeira palavra da Torá)

Na tradição judaica, cada um dos cinco livros da Torá é identificado pela primeira palavra. O Gênesis, por exemplo, é chamado Bereshit (“no princípio”). Em Gn 1:1, encontra-se: “No princípio, Deus criou os céus e a terra.”. Os cabalistas interpretam o sujeito da oração como sendo “o princípio” e não “Deus”. Disso resulta a seguinte leitura mística: “Bereshit (o princípio) criou o nome de Deus” (v. Bahir, n. 3). O Bereshit, isto é, o que viria antes de Deus, seria o Nada (Ain ou Ein), o qual teria se desdobrado em um Nada ilimitado (Ain Soph ou Ein Sof), que por sua vez gerou uma Luz ilimitada (Ain Soph Aur). O Nada (Ain) consistiria numa não-existência totalmente oculta, impossível de ser nomeada ou definida.

III. A árvore da vida e as dez emanações (Sefirot)

Do Nada (Ain Soph) pulsam dez emanações (Sefirot), através das quais a divindade se revela e sustenta tanto o reino físico quanto metafísico. Tais emanações são representadas pelos dez pontos (ou frutos) da árvore da vida (v. Bahir, n. 141 ss.). Elas se organizam, horizontalmente, em quatro níveis ou mundos:  1. Azilut (mundo da manifestação):  contém três emações, Kether, Chokmah e Binah;  2. Beriah (mundo da criação, Elohim):  engloba a Chesed, Geburah e Tipareth: 3. Yetzirah (mundo da formação, YHVH):  compreende a Netzach, Hod e Yesod: 4. Assiah (mundo da manifestação):  contém o Malkuth; a Cabala, portanto, entende existir uma terra (Assiah) e três níveis superiores de céu.

As dez emanações (Sefirot) são:  1. Kether (suprema coroa de Deus):  a quintessência última e suprema de todas as emanações. Tem natureza divina e nome abençoado, sendo identificado como a fonte dos treze atributos fundamentais da misericórdia. Ao mesmo tempo, é totalmente oculta e irracionalizável pelo intelecto humano. Embora contenha todas as potencialidades, não tem conteúdo;  2. Chokmah (sabedoria): a sabedoria é o primeiro poder do intelecto consciente dentro da criação e o primeiro ponto concreto da existência, tendo se originado diretamente do Nada (Ain). No Bahir, n. 142, encontra-se: “está portanto escrito (Provérbios 8:22): ‘Deus me obteve, o começo do Seu caminho, antes de Suas obras, desde então […]’. O ‘começo’ não é senão o Conhecimento, conforme escrito (Salmos 111:10): ‘O começo é sabedoria, o temor de Deus’”. A Chokmah é infinitamente pequena e, ainda assim, condensa todo o ser, permanecendo incompreensível até ganhar forma na Binah. É uma força pura, sem forma e com tendência expansiva;  3. Binah (entendimento):  é a pura intuição ou contemplação. Consiste na forma limitadora da Chokmah, responsável por moldar a criação. Por ter dado origem a todas as coisas, normalmente é retratada por alegorias maternas. É chamada, por exemplo, de Amma (a Grande Mãe), pois teria incubado o Universo em seu ventre;  4. Chesed (misericórdia):  consiste na infinita e absoluta bondade e gentileza divina. É representada pela mão direita de Deus ou por um rei que governa em tempos de paz;  5. Geburah (julgamento):  em contraposição a Chesed, a Geburah é manifestação destrutiva da força. Está atrelado à superação das provações pelo espírito heróico. É representada pela mão esquerda de Deus ou por um rei em tempos de guerra;  6. Tipareth (beleza):  localizada no centro da árvore, a Tipareth é o ponto de equilíbrio da criação. Enquanto a Kether, no topo, simboliza o Pai (Deus), criador de todas as coisas, a Tipareth, logo abaixo, é o Filho (Jesus), aquele que veio para harmonizar  o mundo. Tal precedência, segundo os cabalistas, é corroborada em Jo 14:6 (“ninguém vem ao Pai [Kether], senão por mim [Tipareth]”). A Tipareth serve ainda como intermediadora entre o macrocosmo ou Eu Superior (Chokmah, Binah, Chesed e Geburah) e o microcosmo ou Eu Inferior (Netzach, Hod, Yesod e Malkuth). É representada por uma criança ou um rei majestoso, em relação ao Kether (Deus) e ao Malkuth (reino), respectivamente;  7. Netzach (vitória):  exprime a idéia de perpetuação mediante resistência ao sofrimento e vitória sobre as provações mundanas. Nesse sentido, consistiria numa energia catalizadora da vontade necessária para superar os desafios e quebrar os próprios limites. Tem ligação com habilidades pessoais tais como a liderança, a comunicação e o controle das paixões;  8. Hod (esplendor):  em contraposição a Netzach, Hod expressa a energia da intelectualidade, capaz de quebrar as relações naturais em leis abstratas e universais. Atrela-se à racionalidade e à linguagem, bem como à capacidade de adaptação paciente às situações vividas;  9. Yesod (fundamento):  é o fundamento sobre o qual Deus construiu o mundo. Também serve como um transmissor das energias entre as emanações superiores e o reino ou realidade (Malkuth). É associado com a masculidade;  10. Malkuth (reino):  consiste no mundo físico, o resultado da afluência de todas as emanações superiores. Tais energias se condensam e ganham forma tangível. Em razão da distância em relação ao Kether (coroa), o Malkuth é assolado pela escassez. Está ligado à feminilidade.

Há ainda uma décima primeira emanação, chamada Da’at (conhecimento), localizada na coluna central da árvore da vida, entre o Kether e o Tipareth. Seria um ponto místico, onde todas as dez sefirot se uniriam numa só, num estado de perfeita sintonia e compartilhamento. A luz divina irradiada pelas emanações é oculta e intangível para o homem. Por essa razão, algumas ilustrações da árvore omitem a Da’at.

A Malkuth é a emanação com mais desdobramentos teóricos relevantes. Com frequência, é apresentada como Knesset Israel (Assembléia de Israel). Na Malkuth, se encontram as Shekhinah, partículas divinas aprisionadas na matéria por cascas, denominadas Qliphoth ou Kelipot, num esquema semelhante ao da gnose.

O gnosticismo (do grego, γνῶσις gnosis, conhecimento) é o conjunto de variadas idéias religiosas, as quais acreditam, fundamental,ente, que o mundo material foi criado por uma emanação de uma divindade superior, aprisionando a centelha divina dentro do corpo humano. Esta centelha é liberada pela gnose.

D. A CABALA NA ERA MODERNA

I. Cabala e Renascimento

Quando os judeus foram expulsos da Espanha em 1492, um núcleo cabalista migrou para Israel, enquanto outro permaneceu na Europa, exercendo forte influência sobre o pensamento corrente. Sobre a relação entre Cabala e o renascimento europeu, ver Kabbalah – New Perspective, de Moshe Idel. O autor descreve que cabalistas se infiltraram em universidades e círculos eruditos na Itália e a partir deles disseminaram suas doutrinas místicas. O cabalista italiano mais famoso se chama Giovanni Pico della Mirandola (1463-1494). Outra corrente cabalista surgiu na Alemanha, onde encontrou em Johann Reuchlin (1455-1522) seu principal expoente. Martinho Lutero, um obcecado pelo tetragrama, estudou os trabalhos de Reuchlin.

II. Pontos de influência da Cabala no Protestantismo

Os principais pontos de contato entre a Cabala e o Protestantismo são:

1. Imagens: a proibição de imagens no protestantismo deriva do judaísmo. Como dito, de acordo com a tradição cabalista, Abraão seria um misticista que, depois da conversão, teria destruído todas as imagens das divindades a que cultuava. Como é comum no pensamento judaico e protestante, primeiro formula-se uma conclusão arbitrária para, em seguida, serem elaboradas suas justificativas teóricas. Ventilam-se duas possíveis razões para a proibição de imagens:  a. a existência de santos e, consequentemente, sua representação em imagens, fere o igualitarismo;  b.qualquer contato com a divindade, localizada nos três níveis superiores da árvore da vida, se dá por vias místicas e irracionais. As imagens, ao contrário, consistem em representações com propriedades objetivas, como matéria, dimensões e proporções, e estabelece um elo racional entre símbolo e significado. Pelo mesmo motivo, o protestantismo e a cabala se opõem à beleza estética e à arte;

             2. Livre exame do texto sagrado: o livre exame era pregado e realizado por cabalistas muito antes de Lutero. De acordo com mitos cabalistas, havia seiscentos mil judeus ao pé do Monte Sinai e cada um deles teria recebido uma chave para interpretação da Torá. Como o livro tem pouco mais de trezentas mil letras1, as restantes estariam ocultas. Seria necessário proceder a um rearranjo místico para decifrá-las. Afirma-se, inclusive, que o leitor que efetuar corretamente tal decodificação poderá realizar milagres ao ler a Torá;

1 Prof. Marcelo Andrade fala três mil e seiscentas letras. Em pesquisa própria, encontrei a cifra de 304.805 letras.

             3. Idolatria do texto sagrado: protestantes e cabalistas acreditam que a leitura do texto sagrado é capaz de operar milagres. Os contornos básicos dos três métodos hermenêuticos do misticismo judaico (Gematria, Notarikon e Temurah) foram incorporados pelo protestantismo. O método da Gematria, por exemplo, atribui o número 45 tanto à palavra Yaveh, quanto à palavra Adão, logo Adão é divino;

            4. Templos de oração: após a destruição do Segundo Templo (Século VI a.C), foram proibidos sacrifícios nas sinagogas. O protestantismo, influenciado pelo judaísmo rabínico, conservou a proibição;

             5. Contratualismo: o contratualismo teria nascido de uma visão mística, segundo a qual a relação entre o povo de Israel e Deus não se fundaria quer no direito natural, quer na relação Pai e filho, quer na servidão completa, mas sim num contrato. Judeus e protestantes, principalmente calvinistas e puritanos, entendem que, se o homem cumpre certas obrigações, Deus é obrigado, por força de contrato, a honrar as Suas. Via puritanismo, esse pensamento se arraigou profundamente na cultura norte-americana. Do contratualismo também deriva a ideia de que o sucesso material na terra importa num sinal de salvação, seja do indivíduo, seja do povo. O raciocínio se assenta em dois fundamentos cabalistas: a. por influência da Knesset Israel (Malkuth), tudo o que se opera neste mundo se repete nas emanações superiores. Quem é rico materialmente o será espiritualmente; e b. concepção dialética da Cabala;

             6. Ódio à metafísica: cabalistas e alguns ramos protestantes têm aversão à lógica, às disciplinas naturais e ao entendimento harmonizado das matérias em geral;

             7. Aversão à hierarquia religiosa: numa visão alegórica judaico-cabalista da primeira fase da Torá, não havia reis e o povo de Israel era governado diretamente por Deus. Por conseguinte, a vida religiosa do homem contemporâneo, dessedente do povo do Antigo Testamento, também não pode se subordinar a uma hierarquia, muito menos a uma Igreja visível, mas deve ser conduzida diretamente por Deus;

             8. Trabalho como instrumento de redenção: o trabalho redime o homem. Na filosofia, a tese foi defendida por Hegel e, posteriormente, Marx. A Cabala e a gnose são revoltas antimetafísicas contra Deus e a vida espiritual. Em razão do pecado original, a dupla maldição da terra e do trabalho recaiu sobre Adão e sua descendência. Na visão cabalista-protestante, sendo o homem redentor de si mesmo, livrará tanto a terra, quanto o trabalho. Nesse sentido, Marx afirma que, no paraíso comunista, o trabalho não pesará mais sobre o homem. Várias correntes cabalistas pregam que, quando sobrevir o tempo do Olam HaTikun (o mundo da ordem ou retificação), a terra se tornará perfeita. Os puritanos americanos e os protestantes holandeses fanáticos acreditavam que os Estados Unidos e a África do Sul, respectivamente, seriam a terra prometida a ser redimida no final dos tempos;

9. Sola Fide:

10. Antinomismo: a tese de Lutero, de que quem crê firmemente será salvo, assenta-se em antigas doutrinas cabalistas. No Século II, por exemplo, afirma-se no Midrash que a negação da Torá é a sua realização;

11. Ódio à Nossa Senhora: enquanto a criatura mais perfeita de Deus que esmaga todas as heresias, Nossa Senhora harmoniza em si virtudes opostas. Ela é Virgem e Mãe, Mãe e Filha de Deus, Escrava do Senhor e Rainha do céu e da terra. A estrutura de pensamento dialético da Cabala, ao contrário, une vícios opostos, razão pela qual vai de encontro com a existência complementar de Nossa Senhora.

III. Isaac Luria

Isaac Luria (1534-1572) nasceu em Jerusalém. Estudou o pensamento de Moses Cordovero (1522-1570) e fez peregrinação para o Egito. Ao regressar para Safed, na região da Galiléia, montou uma escola, onde estudou o Zohar e estabeleceu um esquema simplificado do livro. O trabalho teve impacto decisivo sobre o desenvolvimento da Cabala, sendo até hoje discutido, aprofundado e expandido para outras áreas de conhecimento.

O esquema de interpretação do Zohar apresentado por Luria delineia três etapas históricas da ação da divindade na terra, aqui entendida como uma potestade oculta, que não se confunde com o Deus do Antigo Testamento. São elas: 1. Tzimtzum: nesta primeira fase, a divindade contrai-se. Ao contrário das correntes místicas tradicionais, que falavam de uma expansão, Luria concebe uma contração inicial do ente supremo, num processo de esvaziamento súbito, do qual resultam poças de divindade espalhadas pelo mundo. Estas poças consistem na totalidade da criação. Com o tempo, elas teriam desenvolvido uma espécie de invólucro, denominado Klipot, Kelipot ou Qliphoth (do hebraico, casca), que aprisionaria a substância divina original, chamada de Shekhinah (do hebraico, habitação ou presença [de Deus]). As centelhas deveriam ser eventualmente coletadas pelo Adam Kadmon, o Adão Primordial (ou Espiritual), em cujo corpo está impressa a árvore da vida enquanto símbolo do mundo e da própria emanação da divindade. Contudo, em razão do primeiro decaimento, equivalente ao pecado original do Cristianismo, Adão teria falhado na sua tarefa; 2. Shevirat HaKelim ou Shevirah: na segunda etapa, ocorre a quebra dos vasos nos quais a substância da divindade estava aprisionada. Luria interpreta o evento como algo negativo, de modo que as partículas deverão obrigatoriamente retornar à divindade num futuro escatológico; 3. Tikun: na última fase, as centelhas espalhadas se reaglutinam, reconstituindo a divindade primitiva. O Tikun estabelece um marco para a redenção definitiva mediante o retorno ao nada absoluto (Ain Soph).

A doutrina de Isaac Luria chegou à Europa via Hayyim ben Joseph Vital, conhecido como Vital Calabresa, seu aluno mais importante, e, graças especialmente à divulgação de Jacob ben Hayyim Zemah, teve forte impacto na filosofia européia. Todo o idealismo alemão de Hegel e Schering baseia-se em última análise no misticismo luriânico. Já o protestantismo foi influenciado preponderantemente pela Cabala pré-luriânica.

IV. Sabbatai Zevi e Jakob Joseph Frank

Sabbatai Zevi (1626-1676) foi um cabalista atuante na região do Império Otomano e profundo estudioso dos trabalhos de Isaac Luria. Teve influência não somente sobre o pensamento cabalista, como judaico como um todo. Declarou-se o Messias vivo em 1666, chegando a reunir mais de cem mil seguidores. Depois, apostatou e converteu-se ao islamismo. Segundo Gershom Scholem, a biografia de Sabbatai Zevi não se opõe, mas sim concretiza os planos cabalistas, por dois motivos: 1. se, de acordo com a visão misticista, a negação da Torá é sua a realização plena, a apostasia é caminho obrigatório para o cumprimento da palavra. Negando a religião judaica, o Messias a realizaria; 2. um dos sinais do cataclisma esperado no final dos tempos seria uma apostasia coletiva. O exemplo de Sabbatai Zevi introduz a semente revolucionária na cultura judaica-cabalista, que mais tarde floresce no movimento sionista. Quando em 1917, o governo britânico envia ao líder da comunidade judaica no Reino Unido a Declaração de Balfour, em que se comprometia com a fundação do Estado de Israel, um poeta polonês [cujo nome o Prof.º Marcelo Andrade não cita], entusiasta da causa sionista, declarou ser chegada a hora de concretizar os planos sabataístas. O professor de História judeu Jacob Talmon enviou carta ao primeiro-ministro de Israel Menachem Begin, nos anos setenta, na qual fazia referência a Sabbatai Zevi. Os exemplos demonstram que o sabataísmo impregnou-se no judaísmo com tal profundidade, que se transformou em doutrina de fundamentação da alta política israelense.

Por muito tempo, o sabataísmo permaneceu contido nos limites do Império Otomano. Quem introduziu o pensamento na Europa foi Jakob Joseph Frank (1726-1791), comerciante judeu de origem polonesa, nascido no atual território da Ucrânia. Seguindo os passos de Sabbatai, Frank montou um núcleo para práticas místicas, negou o judaísmo e converteu-se ao Cristianismo. O frankismo, enquanto braço radical do sabataísmo, defende que: 1. a corrupção espiritual, decorrente da negação da Torá, deve ser acompanhada de uma corrupção física e moral absoluta. A fim de levar o preceito às últimas consequências, Frank chegava a organizar orgias sexuais em seus grupos de encontro. Muitos afirmam que a depravação sexual moderna tem origens no frankismo; 2. os indivíduos são compelidos à luta política em vista da introdução de valores revolucionários na sociedade.

V. Cabala e Iluminismo

A Cabala consiste numa das principais influências do Iluminismo e da maçonaria. David Biale comenta: “um grande número de sabataístas [frankistas] da Boêmia e Moldávia entraram em lojas maçônicas no final do Século XVIII e introduziram doutrinas cabalistas radicais no ritual maçônico”. Um deles foi Junius Frey, frankista com atuação secreta em lojas maçônicas e participação ativa na Revolução Francesa ao lado dos jacobinos. Foi guilhotinado junto com Danton. Diversas lojas maçônicas secretas, das quais se destacam os iluminados da Baviera e o movimento Rosa Cruz, propagavam práticas cabalistas. Albert Pike, um dos maçons norte-americanos de maior renome, autor do livro Moral e Dogma, afirmou expressamente que sua visão de maçonaria é inspirada na Cabala e que esta é a luz a seguir seguida. Diderot tinha conhecimentos de Cabala, tanto que escreveu um verbete sobre o tema na Enciclopédia. Os pais do iluminismo viam com simpatia as idéias revolucionárias cabalistas. A Revolução Francesa está em consonância com o sabataísmo. Diz Gershom Scholem: “a Revolução Francesa foi o ponto culminante da apostasia sabataísta, a qual resultou a derrubada do sistema, a modernização dos judeus e o desenvolvimento do sionismo”. Recomenda-se a leitura do livro Modernismo e Sionismo, de David Ohana. Jacob Talmon afirma que todo totalitarismo é messiânico.

D. OUTRAS DOUTRINAS CABALISTAS

I. Doutrina das três revoluções

A evolução histórica do Zohar, que se confunde com a da Cabala, conta com três fases: a primeira fase corresponde à difusão inicial do Zohar na Europa; a segunda, deu-se com os trabalhos de Isaac Luria e Sabbatai Zevi; por fim, a terceira, com a secularização da Cabala no Século XIX, particularmente através do idealismo e do marxismo. Cada uma dessas etapas históricas culmina em uma das três grandes revoluções da História, a protestante, a francesa e a comunista, respectivamente.

II. Dialeticismo

A Cabala não concebe uma contraposição maniqueísta entre o bem e o mal. O mal é um subproduto da divindade, como uma espécie de seiva remanescente do ente primitivo. A ausência de uma separação radical entre bem e mal confere sofisticação ímpar à dialética cabalista. Ela não almeja projetar contradições ao longo de um período histórico determinado, mas sim introduzi-las no indivíduo e na sociedade ao mesmo tempo. A Cabala é concomitantemente materialista e mística, conservadora e revolucionária, individualista e comunista, imanente e transcendente. No esquema de Isaac Luria, por exemplo, os vasos que aprisionam a substância divina na Klipot representam o aspecto imanente, enquanto que a parcela transcendente corresponde ao núcleo da divindade remanescente. A defesa de idéias contraditórias não significa, portanto, correntes divergentes da Cabala, mas realces distintos de uma mesma doutrina. Alguns cabalistas são anarquistas, outros estatistas. Marx apresenta uma proposta ordenadora: primeiro se instauraria o socialismo com um Estado forte, o qual seria sucedido pelo comunismo anarquista. Certo autor [cujo nome o Prof.º Marcelo Andrade não se recorda; provavelmente, Karl Christian Friedrich Krause] afirma que seria insuficiente considerar a Cabala e o movimento hassidista exclusivamente gnósticos ou exclusivamente panteístas. Por conter elementos de ambas as vertentes, o autor cunha o termo panenteísmo para descrevê-los. A Cabala é a doutrina mais poderosa, porque reúne gnose e panteísmo num único corpo doutrinário, com capilarização imanente e desdobramento transcendente ao longo do tempo. As divindades se revelam e se ocultam nos diversos momentos históricos, ora ressaltando o viés mais racionalista e materialista da Cabala, ora mais místico e ocultista.

O Rabbi Asher Crispe, na aula intitulada As Origens Cabalistas do Conservadorismo e do Liberalismo (The Kabbalistic Origins of Liberalism and Conservatism) afirma que as visões opostas de tais correntes políticas servem na Cabala ao mesmo propósito. Os conservadores seriam aqueles que olham para o passado, numa perspectiva mais verticalizada de análise histórica, o que no Zohar é representado pelos morros. Os liberais olham para o futuro sob um prisma horizontal, cujo símbolo esotérico é o mar. O choque entre essas duas forças dialéticas e contraditórias serve de motor propulsor, num esquema tese-antítese-síntese, das transformações da sociedade e de sua política. Conservadorismo e liberalismo, portanto, funcionam como instrumentos de realização dos projetos da gnose e da Cabala. É incompleto considerar que o único objetivo revolucionário almejado pelas elites globalistas restringe-se ao fomento do marxismo no mundo. Por esse motivo, Hegel, cujo pensamento é cabalista em essência, considera a dialética o motor da História. Além disso, as visões conservadoras e liberais não são estáticas. Ser conservador não é sinônimo de ser católico, defender valores tradicionais ou afirmar a existência de uma verdade imutável. Dentro da engrenagem social cabalista, o conservador (morro) caminha progressivamente ao liberalismo (mar) e serve apenas como freio necessário ao processo contínuo e inevitável da corrupção humana, que precede o final dos tempos com a Tikun. A Cabala, ao contrário das proto-religiões orientais, não concebe um ciclo existencial perpétuo. A vinda do Messias é preparada pelo próprio homem, enquanto redentor de si mesmo, mediante corrupção absoluta da existência e do mundo. O escolhido então coroará a obra humana, instaurando a fase da restauração pela Tikun e decretando o fim da História. Qualquer pensador que se utiliza do termo fim da História, como Marx, demonstra possuir conhecimentos cabalistas.

E. A CABALA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Poucas doutrinas se enraizaram na cultura contemporânea ocidental com tanta profundidade quanto a Cabala.

  1. Na arte

Por influência da Cabala, a arte vem sofrendo desde o Renascimento intenso esvaziamento de seus valores. O processo se assenta em dois raciocínios fundamentais: 1. a arte não possui finalidade e não serve à expressão de qualquer ideia. De acordo com a visão teocêntrica dos gregos antigos, a arte funciona como elo entre o homem e o divino e, enquanto tal, se orienta à expressão do bem, da verdade, da justiça e da beleza. Uma vez que esses valores inexistem na Cabala, a arte não atende a qualquer propósito específico. A ponte entre o homem e Deus não passa mais por representações concretas ou racionais, mas sim abstratas e irracionais. O acesso ao sagrado se dá por vias herméticas, como experiências inexplicáveis e esotéricas (veja, nesse ponto, obras do romantismo alemão, como Fausto de Goethe e a literatura gótica britânica, a exemplo de O Retrato de Dorian Gray). Desde que o misticismo começou a influenciar os movimentos românticos do Século XIX, visões do que é bom ou mau perdem completamente o sentido, atingindo o ápice na arte moderna, destituída de qualquer valor ou princípio. Não somente a arte, como o indivíduo e a sociedade devem também se esvaziar de seus valores tradicionais. Além disso, a idealização romântica e mística da natureza simboliza a redenção da terra. Trata-se de uma projeção escatológica do futuro ideal professado na Cabala. O Zohar, por exemplo, retrata uma Palestina ideal, onde subsistiria uma harmonia perfeita entre morros e mares. A alegoria de um local real com características romantizadas se encaixa no esquema de pensamento cabalista. A ideia, como dito, acabou introduzindo o pensamento dialético na política moderna; 2. a arte é estritamente psicológica. O Zohar é um livro psicológico, na medida em que um fenômeno ocorrido em uma esfera repercute nas demais. Estabelece-se uma cadeia de reverberações místicas que parte da divindade, passa pelo Adam Kadmon e pelo mundo, até atingir cada indivíduo. No ser humano, os efeitos desses fenômenos superiores são sentidos na esfera psicológica. Para a Cabala, o homem possui uma alma dita racional e outra, de natureza divina, com subdivisões próprias. O acesso à alma divina do homem se dá por mergulhos irracionais no eu interior. Se a arte é hermética, no sentido que somente ao autor é dado conhecer o verdadeiro sentido da obra, ela se reduz a um mergulho psicodélico na intimidade do artista.

  1. Na arquitetura

A arquitetura cabalista é desprovida de qualquer decoração e elementos acidentais. O edifício tem natureza meramente funcional. O estilo predominante em Tel Aviv é o Bauhaus, caracterizado por casas construídas por formas cúbicas justapostas, portas e janelas quadradas e telhado reto.

Conforme estudos de David Backe, a psicologia freudiana é baseada na Cabala. O subconsciente de Freud e o inconsciente coletivo de Jung se relacionam com o mergulho interior necessário para o alcance do núcleo da alma divina. Freud, de fato, frequentou a B’nai Brith, a maior sociedade judaica alemã.

  1. Na linguística

Na tese de doutorado com o título Um Obscuro Encanto: Gnose, Gnosticismo e a Poesia Moderna, o poeta brasileiro Cláudio Willer, citando o historiador romeno Moshe Idel, põe a Cabala como item indispensável para a interpretação literária. Para o poeta, entender Charles Baudelaire depende menos de conhecimentos de poesia e métrica e mais de gnosticismo, o mesmo se aplicando a William Blake e outros.

A influência da Cabala sobre a linguagem foi pesquisada por Walter Benjamin e Martin Buber. Como os contatos com a divindade ocorrem por vias irracionais e obscuras, a linguagem não é capaz de definir os objetos com exatidão. Toda linguagem é imprecisa. Nos limitamos a apreender percepções das coisas reais. Buber, por exemplo, afirma que num diálogo entre duas pessoas não há transmissão de conhecimento, mas apenas uma presença. Nesse ambiente etéreo, a divindade se manifesta aos atores da comunicação mediante percepções sensíveis. Tal abstração se espelha na linguagem através do emprego de verbos na forma infinitiva ou de expressões vagas e atécnicas. Os diálogos platônicos, principalmente os tardios, pressupõem que aquele que sabe mais ensina o que sabe menos. O aluno se obriga por amor à verdade a aceitar e praticar o ensinamento do mestre. O diálogo buberano foge completamente ao esquema platônico clássico. Os sujeitos assumem posições dialéticas e da comunicação entre elas resultam sínteses de verdade relativa. A concepção se assemelha à linguagem conciliar. A Igreja e o mundo operam em tese-antítese e, por meio de documentos obscuros e imprecisos, são fornecidos elementos comunicativos abstratos. Pode-se dizer que o antinomismo da Igreja moderna é joaquinista. Nela não se encontra coordenação, hierarquia ou dogmas.

 

Leave a Reply