Data: 20-Jul-2018
De: Odair Fabriz
Cidade: –
Assunto: Voto de castidade

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Caros amigos, Salve Maria !

Primeiramente quero agradecer e parabeniza-los pelo site, por disponibilizarem os artigos do saudoso professor Orlando, que constituem uma riquíssima fonte de conhecimento. Há algum tempo me surgiu uma dúvida, que talvez os senhores possam me ajudar a esclarecer: Tenho ouvido de algumas pessoas, inclusive de clérigos, que Nossa Senhora tinha feito o propósito de permanecer virgem ainda antes de receber a anunciação do anjo Gabriel. Eu nunca pensei que fosse assim, pois ela estava prometida em casamento antes de saber que seria a Mãe de Deus. Não estou de forma alguma contestando o dogma de sua virgindade perpétua, mas eu pensava que ela tivesse feito esse propósito depois que recebeu a anunciação, por entender que Deus a escolheu para uma missão especial e única. Eis a minha dúvida: existiam casamentos em que os esposos permaneciam celibatários após as núpcias, justamente num contexto cultural em que um casal que não tivesse filhos era considerado amaldiçoado por Deus?

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Prezado Odair, salve Maria!
Primeiramente, minhas desculpas pela demora em dar-lhe retorno.
Obrigado pelas gentis palavras. Peço que reze por nosso apostolado, para que consigamos dar continuidade ao trabalho de nosso querido Professor Orlando.
Sua dúvida se baseia, corretamente,  em vista do “contexto cultural em que um casal que não tivesse filhos era considerado amaldiçoado por Deus“.
A resposta é dada por: Sto, Agostinho, S. Gregório de Nissa (citado por S. Tomás de Aquino), Sto. Afonso de Ligório e, ao modo de síntese dos dados da Tradição, Pe. Manuel Bernardes.
Comecemos então por Sto. Agostinho, mediante a compilação de “Cem Textos Marianos com comentários” (edição da Paulus, 1996) baseada na obra do Cardeal Pellegrini (La Vergine Maria).
Neste livro temos o trecho da obra “A Virgindade Consagrada”, onde Sto. Agostinho explica a passagem de S. Lucas (I, 34), em que Nossa Senhora questiona a concepção do Messias anunciado pelo Anjo: “Como se fará isso, se eu não conheço varão?”. 
Sto. Agostinho nos mostra que Nossa Senhora fez o voto de virgindade antes do casamento, “enquanto ainda ignorava de quem havia sido chamada a ser mãe“. E que o candidato a ser o seu futuro marido devia estar ciente desse voto realizado, pois “fora dada em casamento a um varão justo, o qual longe de lhe tirar o que ela já havia prometido por voto a Deus, seria ao contrário o seu fiel guardião“.
Por certo, ela não teria falado dessa maneira, se não houvesse consagrado anteriormente sua virgindade a Deus. Mas como esse voto ainda não havia entrado nos costumes dos judeus, fora dada em casamento a um varão justo, o qual longe de lhe tirar o que ela já havia prometido por voto a Deus, seria ao contrário o seu fiel guardião. (…) certamente não ignorava que, como mulher, não precisaria perguntar como daria à luz esse filho prometido, no caso de estar casada para ter filhos. (…) Assim, Maria consagrou sua virgindade a Deus, enquanto ainda ignorava de quem havia sido chamada a ser mãe” (A Virgem Maria – Cem Textos Marianos com comentários, Sto. Agostinho, ed. Paulus, 1996, 7ª edição, p. 52, grifos nossos).
Já na “Catena Áurea”, S. Tomás de Aquino cita, para esse mesmo trecho do Evangelho de S. Lucas, o comentário de S. Gregório de Nissa:
Porque se quisesse casar com José para o ato conjugal, por que razão ficaria admirada sobre a concepção, uma vez que esperaria ser mãe um dia, segundo a lei da natureza? Mas como seu corpo, oferecido a Deus como uma hóstia sagrada, deveria se conservar inviolado, por isso disse: ‘Pois não conheço varão’. É como se dissesse: ainda que sejas um Anjo, sem embargo, como não conheço varão, isto me parece impossível. Como serei mãe se não tenho marido? Eu só conheço José como noivo” (Catena Áurea, Santo Tomás de Aquino, Cursos de Cultura Catolica, Buenos Aires, p. 20, grifo nosso, tradução livre do espanhol).
Sto. Afonso de Ligório, em sua monumental obra “Glórias de Maria” (Editora Santuário, 1989, negritos nossos nas citações a seguir) a resposta para sua dúvida é mais explicitada, não somente pelo fato do voto perpétuo de virgindade de Nossa Senhora, como também pelo seu desejo de servir à futura mãe do Messias.
Disse ainda o anjo à mesma Santa [Brígida]: Nossa Rainha determinou logo sacrificar a sua vontade a Deus com todo o seu amor, por todo o tempo de sua vida. E ninguém pode compreender quanto a vontade se sujeitou então a abraçar todas as coisas agradáveis ao Senhor” (p. 274).
Foi então, como se julga, que, para agradar a Deus, fez voto de sua virgindade, voto que Maria foi a primeira a fazer, segundo diz Roberto, abade. Sua oferta foi sem limitação de tempo, como assevera Bernardino de Busti. Pois era sua intenção servir a Divina Majestade no Templo, por toda a sua vida, se assim fosse do agrado de Deus, sem mais sair daquele lugar!” (p. 277).
E novamente [Nossa Senhora disse] a Sta. Isabel: entre todos os preceitos, tinha particularmente diante de mim o de amar a Deus. Levantava-me à meia-noite e ia ao Templo orar ao Senhor, diante do altar, para que me concedesse a graça de observar os preceitos e de contemplar a mãe do Redentor. Roguei-lhe que me conservasse os olhos para vê-la, a língua para louvá-la, as mãos e os pés para a servir, e os joelhos para adorar em seu seio o Divino Filho” (p. 279)
Especial atenção merecem as revelações de Sta. Brígida acerca dos exercícios das virtudes praticadas pela Santíssima Virgem na sua infância. (…) Sobretudo desejava alcançar a vinda do Messias, na esperança de ser a serva daquela feliz Virgem, que merecesse ser sua Mãe” (p. 280). 
Embora a questão esteja centrada em Nossa Senhora, poderíamos perguntar sobre S. José. Estaria ele alheio às intenções de Nossa Senhora?
Para este ponto, cito um trecho do Pe. Manoel Bernardes, de seu livro “Meditações”.
Considera como, havendo já onze anos que a soberana Virgem habitava no Templo, e sendo já de idade de catorze (tempo mui propínquo ao prazo em que o Príncipe das eternidades determinara baixar ao mundo por esta escada de Jacó), trataram seus parentes e os magistrados do mesmo Templo de lhe dar estado. Era, porém, tal a opinião de santidade que seus procedimentos tinham granjeado, e tão singulares e avantajadas as prendas que nela, sem embargo de tanto retiro, resplandeciam, que ao sumo sacerdote lhe parecia coisa absurda entregar joia tão preciosa a um marido, nem lhe ocorria qual o pudesse ser dignamente, e, por outra parte, não podia deixar de ir com o geral costume daquele povo e colégio. Orou, pois, a Deus, fosse servido de significar o que neste ponto era mais de sua glória; e a mesma oração, com maior afeto e rendimento, fazia a Senhora, confiando que o Altíssimo se agradaria de conservar-lhe a virgindade que lhe tinha votado. Deferiu Deus a esses desejos pios, e saiu do Propiciatório uma voz: Que se desposasse Maria com um varão da Casa de Davi, em cuja mão florescesse uma vara. Muitos, divulgando esse oráculo, concorreram suspirando por tão ditosa sorte; e todos com varas secas nas mãos, entre eles veio José primo-irmão da Virgem, filho de Jacó, irmão de S. Joaquim. Logo a sua vara, à vista de todos, brotou em formosas flores brancas e acrescentando Deus milagre sobre milagre, baixou uma pomba e se sentou sobre o cume da vara, com admiração de todos e grande consolação de ambos os sagrados esposos, pois José era também virgem, e viam que o Espírito Santo era o paraninfo daqueles desposórios e os guiava para o seu divino agrado, certificados interiormente de que haviam de guardar virgindade” (Meditações sobre os principais Mistérios da Virgem Santíssima Senhora Nossa, Padre Manuel Bernardes, Editora Pinus, 2010, p. 89, grifos nosso).
Por fim, à guisa de conclusão cito um comentário (infelizmente não localizei a fonte) que cabe muito bem em resposta à sua dúvida.
Exatamente, em vista do “contexto cultural em que um casal que não tivesse filhos era considerado amaldiçoado por Deus“, Nossa Senhora desejou, até nisso, se humilhar diante de Deus e ser considerada amaldiçoada diante dos homens, tudo para servir à mãe do Redentor…
Como se diz hoje em dia: parece que o Filho “puxou” a Mãe…
Se houve entendimento do exposto, reze uma Ave-Maria em agradecimento pela graça da compreensão.
Se ainda resta alguma dúvida, volte a nos escrever, e peço-lhe uma Ave-Maria para que eu entenda e saiba explicar melhor verdades tão altas quanto estas.
Ad Majorem Dei Gloriam
Emerson Takase

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