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1286- Humanismo, Misericórdia e Justiça

Orlando Fedeli

Humanismo, Misericórdia e Justiça

 

  • Localização: Brasil

Caro Prof. Orlando Fedeli.
Salve Maria !

Sou psicólogo, com mestrado na PUC-SP e especialização em filosofia, pela mesma universidade. Como católico, leio sempre os artigos do seu site, bem como perguntas e respostas. Eu tb tenho algumas dúvidas, que, espero, o Sr. possa me ajudar.

É o seginte: Pode-se dizer que o cristianismo é uma forma de humanismo? Já não digo, é claro, o humanismo enquanto movimento filosófico renascentista ou afins, mas de algum outro modo. Pode-se dizer que somos “humanistas”? Se sim, como? De que forma?

Outra questão: O sr. pertenceu em tempos idos à organização conhecida como TFP, desligando-se dela por motivos que o sr. mesmo já exlareceu. Pergunto: O sr. acredita na vinda do chamado “Reino de Maria” como acreditam os pertencentes à TFP? Se sim, de que modo? E se não, porque? Ora, a decadência da sociedade em geral é um fato que infelizmente atingiu a própria Igreja de Cristo. Temos uma espécie de heresia “romantica-sentimentalista” que graça dentro da nossa querida e única Igreja de Deus. Para esses, Deus tudo perdoa, mesmo se o pecador não tenha pedido o perdão de Deus. É um Deus que “tudo aceita”, que ama, (mas um amor um tanto infantil…) sem se preocupar com a real situação espiritual do pecador. O sr. concorda com essa meu diagnóstico? Parece-me claro que essa idéia de um Deus que perdoa tudo, fere a justiça do próprio Deus. Claro que existe a Misericórdia de Deus, mas isso é outra coisa…Misericórdia para quem a pede, para quem se confessa pecador, e tenta mudar de vida. Enfim, o que o sr. pensa de tudo isso dito acima? Por favor discorra sobre essas questões tão preemente para nos católicos.

Que Deus o abençoe.

Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP

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Prezado Dr,
salve Maria!

Quero agradecer sua grande confiança e sua paciência imensa por ler minhas fastidiosas cartas. Que Deus lhe pague pelas duas.

Quanto a mim, em troca, e aproveitando o tema que o Sr. me sugere, deveria dizer-lhe, com Dante:

“(…) L”affetto che dimostri
meco parlando, e la buona sembianza
ch io veggio e noto in tutti li ardor vostri,
così m” ha dilatata mia fidanza,
come “l sol fa la rosa quando aperta,
tanto divien quant” ell” ha di possanza”.

(Dante, Paradiso, XXII, 52-57).

[“(…) A afeição que demonstrais / falando comigo, e a boa aparência / que vejo e noto em todos vossas palavras, / de tal modo dilatou a minha confiança, / como ao sol faz a rosa quando aberta, / tanto se torna quanto ela tem de potência”].

O Sr. me propõe três temas importantes e longos. Não seria conveniente tratar de todos eles, numa só carta. Por isso, numa primeira carta, tratarei do Humanismo; noutra, da Justiça e Misericórdia, e, finalmente, numa terceira, lhe falarei do mirífico Reino de Maria, conforme os delírios do “Dr.” P. C. de Oliveira e da TFP.

Começo, pois, esta primeira resposta, sobre o Humanismo e da possibilidade de o humanismo ser cristão. Embora o senhor me advirta de antemão que recusa o humanismo renascentista e seu afins, permita-me começar a tratar dessa questão aludindo, inicialmente, exatamente a esse humanismo do Renascimento, pai de todos os demais humanismos.

Citei-lhe Dante, e os versos me fizeram lembra de um livro que li, há uns quarenta anos atrás — o Sr. vê bem por esse número que estou ficando velho, pois o li, quando eu já era maduro… — e que se chamava “Riserve su l”Umanesimo”.

O autor era Fausto Montanari. E o título do livro mostrava bem que, como italiano, Montanari não ousava condenar o Humanismo. Mantinha para com ele apenas … “delle riserve”…

Desse livro, ficou-me, no fundo da memória, após quarenta sofridos anos, uma página extremamente interessante, na qual Montanari compara a mentalidade medieval com a mentalidade moderna, o teocentrismo medieval, com o antropocentrismo do Humanismo.

Montanari começava um dos capítulos de seu livro – que já não possuo — com uma frase inesquecível: “Nel Paradiso di Dante io trovai una rosa…”.

E continuava explicando — desta vez no Convívio — que, essa rosa não era a imensa rosa formada pelos anjos e santos em torno de Deus, e que Dante descreve nos últimos sublimes cantos do Paradiso.

Dizia Montanari, que a rosa que ele encontrara no Paradiso (XXII, 52-57) era uma simples rosa do campo, que hoje existe, e amanhã já feneceu. Pobre, rosa que se abre ao sol, apesar de que, por isso, morrerá, logo mais. Mas ela se abre ao sol quanto ela pode, porque ela só existe para dar o seu perfume ao mundo, ainda que isto lhe custe a vida.

Todas as coisas existem para outrem.

Montanari, a seguir, lembra que Dante, ainda no Convívio, ao falar dessa rosa, a compara com o ser humano.

O homem — cada homem, como aquela rosa do campo — tem um “perfume” próprio, um valor único, que Deus deu apenas a ele, já que Deus nos criou à sua imagem e semelhança, cada um de nós refletindo uma qualidade de Deus, sob certo ângulo. Daí cada homem ser único. Cada um com um valor pessoal inigualável.

Deus nos fez como seus espelhos. Mas, sendo Deus infinito, se nos tivesse feito iguais, a imagem que refletiríamos dEle seria mínima. Sabiamente, então, Deus nos fez, como espelhos colocados a seu redor, num círculo imenso, de modo que, cada um de nós reflete a imagem de Deus, sob certo ângulo.

Cada homem, tem assim, em sua alma, uma imagem de Deus única. Desde o início do mundo até o fim da História, não haverá outro.

Se somos bons, isto é, se vivemos em estado de graça, a luz de Deus se reflete fulgidíssima em nossa alma, iluminando o mundo.

Quando pecamos, colocamos lama sobre o espelho de nossa alma, e impedimos que a luz, que Deus queria fazer penetrar e refulgir em nós, brilhe diante dos anjos e dos homens.

Nas criaturas inferiores ao homem, a luz divina só se reflete através dos símbolos, assim como pela ordem e pelo bem, nelas existentes. São Boaventura, no seu Itenerarium, diz que nas criaturas inferiores só aparecem vestígios de Deus, enquanto que em nós, está impressa a imagem de Deus, por nossa inteligência e vontade. E, se somos santos, nos tornamos semelhantes a Deus, pela graça santificante.

Por isso diz Dante:

“La gloria di Colui che tutto muove,
per l”universo penetra e risplende,
in un aparte più, e meno altrove”

Porque, em nós, a luz de Deus “penetra” — pela graça — mas nas criaturas inferiores “risplende”, mas em todos com desigualdade. Não somos feitos iguais por Deus. Não nascemos iguais. Em que pese aos famigerados “Direitos do Homem e do Cidadão”, impostos pela guilhotina e pela Mídia, que escraviza a humanidade em nome da liberdade.

E até parece que a mídia é mais eficiente que a guilhotina, pois esta decepava cabeças, e a Mídia decepa as inteligências.

Portanto, cada homem, tem um valor único.

E assim como a rosa se abre ao sol, mesmo que isso a faça morrer, ela se abre para dar o seu perfume ao mundo, assim, também, devemos abrir-nos ao Sol de Justiça, para dar ao próximo a nossa luz, o nosso perfume, ainda que isto nos custe a vida. É o que lembra até o gibeliníssimo (Guelfo branco) Dante Alighieri, no Convivio (IV, 27).

Pobre rosa… Heróica rosa!

Pobre homem, que vive e morre para dar o seu pequeno-grande valor ao próximo. Heróico homem! Homem santo!

Esta era a visão católica do homem na Idade Média, exposta pelo já moderno, em tantos sentidos, Dante Alighieri.

Montanari compara então o que diz o Dante, medieval, sobre a rosa e sobre o homem, com o que dizem dessa mesma rosa, Lorenzo, il Magnifico — que tinha ele de grande para ser assim apodado? — e Poliziano.

Ambos têm lindas poesias sobre a precariedade da vida da rosa. São duas poesias, as deles, muito bem feitas, descrevendo a louçania de rosas apanhadas pela manhã, ainda com gotas de orvalho sobre as pétalas, e cheias de perfume. Ao retornarem, à tarde, eles encontram as rosas fenecidas, sem louçania e sem perfume, morrendo. Ambos tiram a mesma conclusão: a vida e a juventude são passageiras. Aproveitemos a juventude e a vida, antes que feneçam.

“Io mi trovai, fanciulle, un bel mattino
Di mezzo maggio in un verde giardino
(…)

“Quando la rosa ogni suo” fogli spanda,
Quando è più bella, quando è più gradita,
Allora è buona a mettere in ghirlande.
Prima che sua belezza sai fuggita:
Sicchè, fanciulle, mentre è più fiorita,
Coglian la bella rosa del giardino.

(Poliziano).

[Eu me achei, donzelas, numa bela manhã / em meio do mês de maio num verde jardim/ (…) Quando a rosa abrir cada uma de suas folhas / quando ela é mais bela, quando é mais apreciada / então é bom colocá-la em guirlanda / Antes que sua beleza tenha fugido / De modo que, donzelas, enquanto está mais florida / colhamos a bela rosa do jardim].

A visão da rosa e do homem na Idade Média é que todo ser existe para outro. A visão do humanismo é que, como tudo existe para o Homem, é preciso aproveitar os bens que se nos apresentam. O egoísmo passou a ser a grande lei. Tudo para o Homem.

Conforme a vontade moderna, ninguém existe para servir a Deus e ao próximo. Todos só existem para servir o Homem. E cada um pensa: o Homem sou Eu. “Ecce Homo: Ego”.

“Ecce venio”…

A visão medieval é a de um amor mais alto e altruísta. A visão humanista é egoísta. Antropocêntrica. O Homem está no centro de tudo, e o homem sou eu, pensavam Polizziano e o Lorenzo, que de realmente Magnífico tinha muito pouca coisa.

A cosmovisão católica tem Deus como centro. Isto significa que aceita Deus como causa de tudo, a norma de tudo, o fim de todas as coisas. Deus é a causa eficiente — Alfa — e a causa final de tudo — Ômega.

O catolicismo ensina que o homem existe para Deus.

O Humanismo afirma que tudo existe para o Homem, e que o Homem existe para si mesmo.

Com efeito, a cosmovisão católica só pode ser Teocêntrica, enquanto a concepção do mundo moderno — nascida no Renascimento — é antropocêntrica.

Essas duas cosmovisões são mutuamente excludentes.

Cristo nos disse, o que a Liturgia do Sábado Santo repete, na bênção do círio pascal: “Ego sum Alpha et Omega ! Principium et Finis”.

Para o Humanismo, o Homem — sempre com esse maldito H maiúsculo — ele é a causa, a medida e o fim de todas as coisas. De certa forma, a Modernidade proclamou: “Homo, principium et Finis, Alpha et Omega”!

O Humanismo é pagão. Ele faz do Homem um ídolo e o entroniza no lugar de Deus!

O Homem passa a ser a medida de todas as coisas.

Mas…”Isto diz Deus: Maldito o homem que confia no homem”, diz a Sagrada Escritura (Jer. XVII, 5).

O senhor deve se lembrar bem do que escreveu Santo Agostinho no Civitas Dei:

“Dois amores construíram duas Cidades. O amor a Deus, levado até o desprezo de si mesmo, construiu a Cidade de Deus6v

“O amor de si mesmo, levado até o desprezo de Deus, construiu a cidade terrena? (Santo Agostinho, Civitas Dei).

Construiu a Cidade do Homem. A Civilização cristã, na Idade Média, teocêntrica, foi, em certo sentido a Civitas Dei.

Mas a Civilização do Mundo Moderno, iniciada com o Humanismo, foi a Cidade do Homem. E entre essas duas Cidades não há conciliação possível.

Não há senão ódio entre essas duas Cidades, um ódio posto por Deus, desde a maldição da serpente, a grande arquiteta do universo humano: “Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua raça — a tua Cidade — e a dela, e ele mesma te esmagará a cabeça” (Gen. III, 15).

Tendo em vista tudo isso, como imaginar um Humanismo cristão?

Como imaginar uma conciliação possível entre a Civitas Dei e a Civitas Homini?

Como excogitar uma conciliação entre os dois amores inconciliáveis que as causaram?

Se o cristianismo tem Cristo como Alpha et Ômega, como manter-se cristão, afirmando que o homem é o princípio e o fim de tudo?

Humanismo e Cristianismo são termos contraditórios. Ninguém pode ser verdadeiramente cristão e humanista, ao mesmo tempo.

Com efeito, a cosmovisão católica só pode ser Teocêntrica, enquanto a concepção do mundo moderno — nascida no Renascimento — é antropocêntrica.

Mas, apesar dos muito prováveis protestos irados, não atino como se poderia ter um humanismo que não fosse eivado do naturalismo, inerente ao mundo moderno. Pois exatamente é o Humanismo um dos pontos fundamentais do Mundo Moderno, com o qual a Igreja não pode ter qualquer conciliação, segundo reza o Syllabus de Pio IX.

Que significa esse antropocentrismo senão a colocação do homem como fim de todas as coisas? Ora, só Deus pode ser o fim de todas as coisas. Se todas as coisas existem para outrem, nós existimos para um “Outrem” que transcende o universo: Deus Altíssimo. Todo o humanismo moderno visa colocar o Homem no lugar de Deus. Nesse sentido, o Humanismo é necessariamente naturalista, imanentista, ou na forma panteísta, ou — o que é mais grave — na forma gnóstica.

Entretanto, entretanto…

Entretanto, foi feita a tentativa de conciliar Cristianismo e Humanismo. Porque sempre há os que procuram ver o que há de verdade em toda e qualquer heresia. E sempre alguma encontram, porque é impossível haver uma mentira absoluta. E encontrando um grama de verdade numa tonelada de mentiras, esses conciliadores exultam, e com o grãozinho de verdade defendido pela heresia montam sistemas complexos de sofismas, para justificar o injustificável.

O grande mal, ocorrido já no nascer do mundo moderno, foi que se procurou fazer essa conciliação impossível entre a mentalidade moderna e o catolicismo, tentando inventar um humanismo pretensamente cristão, como mais tarde se procurou fazer um liberalismo católico, e, hoje, um socialismo cristão. Esse pseudo-humanismo cristão — como o de Maritain, um autor admirado por Paulo VI — salienta algumas verdades, dando uma interpretação aceitável do termo herético, e colocando sobre o conjunto mal ajambrado o rótulo de cristão sobre a heresia humanista camuflada. Desse modo se inventou um Humanismo ambiguo, dando uma interpretação aceitável ao termo herético, e, fazendo isso, contribuíram para montar uma grande confusão, pois o mesmo termo — no caso, o Humanismo — passa a ter dois sentidos diversos: um sentido cristão e um sentido pagão, o que permitirá todas as anfibologias e todos os deslizamentos para o abismo do erro.

Éclaro que se pode afirmar que a verdadeira grandeza do ser humano só é atingida pela concepção católica do universo. Só a Igreja Católica reconhece ao homem a sua verdadeira dignidade que consiste em se tornar filho adotivo de Deus pelo batismo.

Contudo, procurar dar a essa concepção católica do homem o termo já poluído de humanismo é propiciar aos inimigos da Igreja uma brecha pela qual entrarão na Cidade de Dues todos os miasmas do naturalismo.

Adotar um termo eivado de tantos significados maus, nunca é conveniente.

E quem seria O Homem?

O termo é um universal, que em cada época se procurou reconhecê-lo num tipo de homem particular.

Inicialmente, foram os gênios renascentistas que se julgaram o Homem. Depois foram os Reis absolutos que se colocaram como princípio e fim de tudo, querendo que todos, inclusive Deus e a Igreja, os servissem. Essa pretensão auto divinizadora do Homem do Renascimento e do Absolutismo tiveram a benção complacente de Papas humanistas tais como Pio II, Leão X, Júlio II, etc.

Os Papas do Renascimento — conhecidos, infelizmente por seus escândalos — aderiram ao humanismo. Não houve, nessa época, uma condenação do Humanismo. E essa doutrina espúria entrou nos meios católicos e especialmente no Vaticano. O blasfemo e sacrílego herege Lorenzo Valla, negador da Santíssima Trindade, foi nomeado pelo Papa do seu tempo, para exercer um cargo no Vaticano, a fim de escapar da Inquisição de Nápoles.

Outra prova dessa proteção dos Papas ao humanismo pagão é a Capela Sixtina, onde Michelangelo pintou uma Criação do Mundo gnóstica, e um Juízo Final ainda pior. O máximo que se fez contra o paganismo humanista de Michelangelo foi um Papa mandar pintar uns véus pudicos nas figuras nuas do “Juízo Final” — (nesse afresco, mesmo a Virgem Maria e Cristo apareciam nus) — onde um Apolo toma o lugar de Cristo, e onde se exalta o suicídio de Hércules (na figura de São Lourenço), e ódio à matéria (na figura do Apóstolo São Bartolomeu, que, na verdade, é Marsias retirado da própria pele por Apolo).

Portanto, o chamado humanismo cristão do Renascimento é uma fábula. O Humanismo sempre foi pagão. E o pior Humanismo daquele tempo foi o que se travestiu de cristão, no Vaticano.

É claro que se protestará contra o que lhe digo. Sempre haverá quem se alce na ponta dos borzeguins ou dos coturnos clássicos para protestar, defendendo o Humanismo renascentista em nome da arte ou da cultura.

Non raggionam di loro…

E os Reis Absolutos do Humanismo, soberanos do egoísmo? Que dizer deles e de seu Humanismo?

O egoísmo dos monarcas absolutos, fautores de religiões nacionais (inglesas ou francesas), acabou na guilhotina ou no Parlamentarismo, que foi uma guilhotina seca… E a guilhotina — a molhada — fez triunfar o Homem sob a forma de Citoyen. De Cidadão. A seca, em forma de Deputado Tudo em prol do cidadão. Ainda hoje muito se fala em “exercer a cidadania”…

Com a Revolução de 1789, o Humanismo, do artista e do soberano solar se transmutou em advogado e comerciante.

E “O Homem”– sempre com o maldito H maiúsculo — entronizado pela guilhotina e carregando a Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão sob o braço, passou a ser o burguês capitalista, adorador de si mesmo, ainda quando se punha como devoto do grande arquiteto do universo, ou da Deusa Razão.

Também essa visão burguesa e capitalista do Homem, vitoriosa com a Revolução Francesa de Robespierre e de Napoleão, contou com o beneplácito dos católicos radicalmente moderados e conciliadores: O Homem da Revolução foi ungido e abençoado por Pio VII, em Notre Dame de Paris…

E perguntou um poeta: “E como pode o Pastor Supremo confundir o bode com o cordeiro?” (Paul Claudel, L”Otage)

É de espantar que depois da sagração de Napoleão — “A Revolução a cavalo” — por um Papa, surgissem os católicos liberais?

Seria espantoso que eles não tivessem surgido, os defensores do Humanismo Cristão sob forma liberal!

Assim como Leão X quis batizar e abençoou o paganismo humanista, Pio VII coroou Napoleão e seu Código burguês e capitalista. E, mais tarde, Leão XIII, determinou e forçou o “ralliement” dos católicos à república nascida nas lojas…

Graças a Deus, havia ainda reações contra essas capitulações, e Gregório XVI condenou o liberalismo e o tradicionalismo “católicos” de Lamennais, na encíclica Mirari Vos. Depois, Pio IX, na Quanta Cura e no Syllabus, condenou, de novo e solenemente, o liberalismo católico.

Faltou uma condenação do Romantismo, que foi usado pelos inimigos da Fé, para introduzir a Gnose na Igreja, conforme salientou Allain de Besançon.

Meu caro Dr., permita-me uma inserção. Enquanto lhe escrevia esta carta, minha esposa redigia uma tese de Mestrado sobre o romantismo e me forneceu uma poesia romântica sobre a rosa. E como via a rosa um poeta do Romantismo? Veja que horror gnóstico:

“Pura em sua inocência,
entre a sarça espinhosa,
purpúrea esplende, inda botão intacto,
na madrugada a rosa.

É da campina a virgem
a pudibunda flor;
Em seus eflúvios matutina brisa
bebe o primeiro amor.

O sol inunda as veigas:
calou-se o rouxinol;
e a flor, ébria de glória, à luz fervente
desabrochou-a o sol

O sopro matutino
no seio seu pousara:
Prostituída à luz, fugiu-lhe a brisa,
que a linda rosa amara.

Pode haver maior aviltamento do símbolo da luz?

É assim que a Gnose romântica vê a luz, e é assim que vê a rosa, símbolo da virgindade, profanada pela luz da verdade.

Mas o Humanismo, aburguesado e capitalista do liberalismo, igualitariamente democrático, não podia satisfazer os proletários nascidos da Revolução industrial e da extinção das corporações. O egoísmo monárquico foi sucedido pelo egoísmo do lucro separado da moral. Marx lançou então o novo Humanismo: “O Homem” era o Proletário “explorado” pelo burguês “guloso da fantasiosa mais valia”.

Ecce Homo! Ecce Proletarius! O Marxismo se apresentou como a conclusão lógica do humanismo de Ficino e de Erasmo. O Humanismo, que levantara altares ao Homem, agora tirava a conclusão final de sua idolatria, proclamando a morte de Deus — a absoluta blasfemia — com Nietzsche, e o materialismo abosluto — a absoluta imbecilidade — com Marx.

O Humanismo chegava à sua concusão lógica.

O sofisma se desnudara.

Socialismo e comunismo se declararam a verdadeira e derradeira face do Humanismo: aquela que se preocupa com o Homem enquanto aparelho digestivo. Essa seria a verdadeira dignidade do Homem: ser capaz de digerir. A vida física passou a ser o supremo valor e o dinheiro o motor da História.

Mas essa também era uma idéia.

E falsa.

O Homem renascentista, gênio artístico ou filosófico, se transmutara em comerciante obeso, com uma corrente de ouro pendente do colete. Este Homem durou pouco. Depois dele, nascia com Marx, O Homo Proletarius, ufano de sua materialidade e animalidade. Lenin, Stalin, Mao e Fidel se encarregaram de difundir os dogmas da “Bíblia da Imbecilidade e do ódio” — a expressão excelente é de Paul Claudel — bíblia laica escrita pelo falso profeta do Homem Proletário, Karl Marx.

Hitler contestou Marx. O Homem era O Alemão. O Ariano. O Homo Germanicus, ao qual se imolaram vítimas humanas em Auschwitz e em Treblinka.

Também em face do materialismo marxista — como do nazismo — houve os eternos simpatizantes da mentira, tentando conciliar o Humanismo animalizado do marxismo com a Justiça do Cristianismo, o arianismo pagão hitlerista com a noção de pátria e nação defendida pela Igreja.

Jacques Maritain — um amigo de Paulo VI, e um dos inspiradores do Concílio Vaticano II — escreveu o livro “Humanismo Integral”, no qual defende a doutrina da progressiva libertação do homem através da Reforma, da revolução Francesa e da revolução bolchevista.. E Monsenhor Kaas, líder do Zentrum, o partido católico na Alemanha votou por Hitler para Chanceler do Reich alemão, e lhe concedeu plenos poderes.

E não faltaram os que defenderam um socialismo cristão, embora Pio XI tivesse declarado que ninguém pode ser católico e socialista ao mesmo tempo, pois são termos contraditórios. Pio XI condenou, na Quadragésimo anno, o socialismo cristão, demonstrando que esses termos são antitéticos e inconciliáveis. (Cfr.Pio XI, Quadragesimo Anno), ensinamento que João XXIII repetiu na Mater et Magistra. Como não faltaram também os católicos que apoiaram o nazismo, a pretexto de que era preciso salvar a Europa do comunismo.

Não faltaram os Bispos socialistas. Nós mesmos tivemos, e temos, aqui no Brasil, Bispos e Cardeais bem vermelhos… Como não faltaram os que consideravam Hitler um “cristão autêntico” (Por exemplo, o Cardeal Faulhaber). Nós tivemos mesmo Arcebispos que começaram verdes — a camisa integralista-nazista sob a batina — e que depois amadureceram, e ficaram vermelhinhos vermelhinhos… Mas sempre humanistas. Sempre preocupados com O Homem (com H maiúsculo!).

Pouco acima citei Maritain. Citar Maritain é aproximar-se de Paulo VI, seu amigo, admirador, e discípulo. Mas, citar Maritain é aproximar-se do Modernismo.

Ora, no início do século XX, Loisy, o padre cujas obras fizeram vir a lume a heresia modernista que caminhava secretamente nos seminários, nas Dioceses, e mesmo no Vaticano, o Padre Alfred Loisy, excomungado por São Pio X, escreveu em seu livro herético “L” Évangile et L”Église”, em 1902:

“Em Cristo, a humanidade se eleva até a Divindade. Pode-se dizer, se se quiser, que a humanidade adora a si mesma em Jesus; mas se deve acrescentar que, fazendo isso, ela não esquece nem a sua própria condição, nem a de Deus” (A. Loisy, “L” Évangile et L”Église, p. 263). E falando das perspectivas do Modernismo lançado por Loisy, afirma Émile Poulat:

“De fato, [na obra de Loisy] o olhar, para onde quer que ele se dirigisse, não encontraria jamais um ponto onde pudesse se deter ou chegar . Diante de si, o futuro ilimitado do catolicismo supunha sua transformação, uma transformação com relação à qual a religião da humanidade se deixa advinhar como um prolongamento possível” (Émile Poulat, Histoire, Dogme et Critique dans la Crise Moderniste, Albin Michel, Paris, 1996, p.98. O negrito é meu. A edição original é de Castermann, 1962).

O que era uma perspectiva possível no inicio do Modernismo e sob o seu impulso — a Religião do Homem – realizou-se, e foi proclamada a sua realização, por Paulo VI, sessenta anos depois, ao encerrar o Concílio Vaticano II. Não me faltarão aqueles que contra argumentarão, em defesa do Humanismo, com documentos de Paulo VI na mão.

E eles terão um muito bom arsenal de citações contra mim.

(E, se não tiverem vou lhas dar eu mesmo, pois não as temo).

Por exemplo, meus adversários poderão citar o Discurso de encerramento do Vaticano II, no qual Paulo VI declarou que:

“Neste Concílio [Vaticano II] a Igreja quase que se fez escrava da Humanidade”. E ainda: “Humanistas do século XX, reconhecei que Nós também temos o culto do Homem”.

Por exemplo, meus adversários poderão citar contra mim — e eu me alegraria com isso — o que disse o Padre Maurice Zundel:

“É preciso portanto admitir, com os mais humildes fiéis, que Jesus realmente escreveu no centro da História esta prodigiosa equação: o homem = Deus” (M.Zundel, Quale Uomo e Quale Dio, Esercizi spirituali predicati a Paulo VI e alla Curia Romana. Edit. Messagero, Padova, 1989, p. 158. O itálico é do original).

Isto foi dito por Zundel, no Vaticano, para o Papa Paulo VI e para os Cardeais da Cúria: “É este “tu és eu” — [do antigo ritual indu] — reconduzido à origem do mundo, que ilumina a equação redentora: para Deus, o homem = Deus”. (M. Zundel, op.cit p. 158. O negrito é meu).

Se Paulo VI convidou um padre que diz isso ao pregar um retiro, para ele e para os Cardeais, no Vaticano, seria de espantar que ele mesmo exaltasse o homem, e dissese do homem as frases que vou citar?

No Discurso de encerramento do Vaticano II, Paulo VI declarou que:

“A Igreja do Concílio [Vaticano II] ocupou-se bastante do homem, do homem tal qual ele se apresenta em nosa época, o homem vivo, o homem todo ocupado consigo mesmo, o homem que se faz não só o centro de tudo o que o interessa, mas que ousa ser o princípio e a razão última de toda a realidade… O humanismo laico e profano apareceu, enfim, em sua terrível estatura e, em certo sentido, desafiou o Concílio. A religião de Deus que se fez homem encontrou-se com a religião do homem que se fez Deus.

“Que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema?

“Isto poderia acontecer; mas isto não aconteceu.

“A antiga história do Samaritano foi o modelo da espiritualidade do Concílio. Uma simaptia imensa o investiu inteiramente. A descoberta das necessidades humanas… absorveu a atenção deste Sínodo. Reconhecei-lhe pelo menos este mérito, ó vós humanistas modernos, que renunciais à transcendência das coisas supremas, e saibais reconhecer o nosso novo humanismo: nós também, Nós mais do que qualquer outro, nós temos o culto do homem (Paulo VI, Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, 7 de Dezembro de 1965).

“Este Concílio (…) em conclusão, dará uma lição nova, simples e solene para ensinar a amar o homem, para amar a Deus.”(Paulo VI, Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, 7 de Dezembro de 1965).

Era uma proclamação de concórdia inaudita entre a Igreja — a Civitas Dei por excelência — e o mundo Moderno, com o Humanismo, fundamento da Cidade do Homem.

E desta conciliação impossível só poderia nascer a submissão, a servidão da Igreja ao Homem.

“Há um outro ponto ainda que Nós devemos destacar: toda esta riqueza doutrinária [do Concílio Vaticano II] visa apenas a um só coisa: servir o homem” (idem).

“Tudo isto, e tudo o que Nós possamos dizer ainda do valor humano do Concílio [Vaticano II], fez talvez desviar o pensamento da Igreja do Concílio para posicionamentos antropocêntricos, tomadas da cultura moderna? Não, a Igreja não se desviou, mas Ela se voltou para o homem… A mentalidade moderna, habituada a julgar a todas as coisas pelo seu valor, pela sua utilidade, quererá bem admitir que o valor do Concílio é grande pelo menos por esta razão: tudo foi orientado para a utilidade do homem! Não se declare, portanto, jamais inútil uma religião, como a religião Católica que, na sua forma, a mais consistente e eficaz como esta do Concílio, proclama que Ela está toda inteira a serviço do homem…” (idem).

“Neste Concílio [Vaticano II] a Igreja quase que se fez escrava da Humanidade” (idem).

Vimos que a Sagrada Escritura proclamou: “Maldito o homem que confia no homem” ( )…

Paulo VI escreveu: “Nós temos confiança no homem. Cremos neste fundo de bondade que existe em cada coração, conhecemos os motivos de justiça, de verdade, de renovação, de progresso, de fraterniddae que estão na origem de tantas belas iniciativas e até mesmo de tantas contestações, e, desgraçadamente, por vezes de tantas violências… (Paulo VI, entrevista em Sidney, 2 de Dezembro de 1970).

Finalmente, depois de um texto que lembra Rousseau, o hino de glória ao homem, feito por paulo VI, pela primeira viagem espacial em 1971:

“Honra ao homem! Honra ao pensamento! Honra à Ciência! Honra à síntese da atividade científica e organizativa do homem, do homem que diferenemente de todo outro animal, sabe dar instrumentos de conquista à sua mente e à sua mão!

“Honra ao homem Rei da Terra, e agora também Príncipe do céu! Honra ao ser vivo que nós somos, o qual em si espelha a Deus, e, dominando as coisas obedece à ordem bíblica: crescei e dominai”!

Até parece uma paráfrase do Glória a Deus nas alturas!

Até parece uma exaltação do homem, qual um ídolo!

Como era diferente a posição de São Pio X a respeito do homem:

“É necessário que com todo meio e fadiga nós façamos desaparecer radicalmente a enorme e detestável maldade, própria do nosso tempo, que faz a substituição do homem a Deus”. (S.Pio X, Supremi Apostolatus, 14)

E São Francisco escreveu:

“quia quantum est homo coram Deo, tantum est et non plus” (Admonitiones, XIX). “Porque o homem vale o que é diante de Deus e nada mais”. Bem literalmente seria: “porque quanto é o homem diante de Deus, tanto ele é e nada mais”.

E também nas Sagradas Escrituras se diz:

“Teme a Deus, e observa os seus mandamentos, este é todo o homem”. (Ec., 12, 13). Ou seja, homem é, de fato, aquele que teme a Deus e observa seus mandamentos.

Noutra ocasião, viajando Paulo VI pela Palestina, em Belém, onde Cristo nasceu, o Papa disse as seguintes palavras:

“O homem… conhece dúvidas atrozes… Nós temos que dizer a ele uma mensagem que Nós acreditamos libertadora. E Nós, Nós acreditamos tanto mais ser autorizados a propor-lhe esta mensagem, porque é plenamente humana. É a mensagem do homem para o homem!

Cristo nos disse que nos deixava a sua paz, não a paz como a dá o mundo. Só com Cristo o mundo terá paz, pois Ele é o Príncipe da Paz.

Paulo VI, todavia, considerava que a paz podia ser estabelecida com base no humanismo:

“Arriscamos um termo que pode parecer, ele também ambíguo; mas consideremô-lo na exigências de sua profundidade. É um termo flamejante e sublime, de amor: amor do homem, primeiro valor da ordem terrestre… A paz, a verdadeira paz, a paz humana, é um efeito do amor (Paulo VI, Discurso na canonização de Tereza de Jesus Jornet Edibards, 27 de Janeiro de 1974).

“(…) o que caracteriza, de fato, os nossos tempos é o aspeto humanitário social, organizado, assinalado pelo culto do homem pelo homem”

Era natural que esse culto da paz humana, e esse culto do homem pelo homem, proclamado por Paulo VI, se concluissem pela proclamação da ONU como verdadeira fonte da paz.

Em discurso que Paulo VI fez na ONU, ele declarou:

“Nós trazemos a esta Organização o sufrágio dos nossos últimos predecessores, especialmente de todo o episcopado católico e o Nosso, convencidos, como Nós o estamos que esta Organização representa o caminho obrigatório da civilização moderna e da paz mundial … Os povos olham para as Nações Unidas como para a última esperança da concórdia e da paz Nós ousamos trazer aqui, com o Nosso, o seu tributo de honra e de esperança” (Paulo VI, Discurso na ONU, 4 de outubro de 1970).

A paz da ONU…

Da ONU, “cette chose là de New York”, como a denominava, com desprezo, De Gaulle.

A paz daONU é a paz da Cidade do Homem, não a paz de Cristo, a paz da Civitas Dei.

Desde que a ONU nasceu, não cessaram de troar os canhões, nem de matraquear as metralhadoras, nem os aviões de lançar os foguetes, nem a guerrilha de massacrar.

A paz da ONU é a Nigéria. É Ruanda Burundi. É a Colombia das Farc e do narcotráfico. É a paz do Vietnam e do Cambodge. É a paz de Biafra. É a paz da morte e da injustiça. A paz do homem. A paz do humanismo.

Qual a autoridade teológica desses pronunciamentos de Paulo VI?

Embora as palavras de um Papa mereçam sempre grande e respeitosa atenção, a elas se de deve uma adesão proporcionada ao grau de autoridade usada por ele, ao pronunciá-las. Quanto aos textos do Vaticano II, o próprio Paulo VI declarou que seus textos não implicavam uma autoridade dogmática infalível.

Quanto aos discursos feitos em viagens, e na ONU, a autoridade teológica deles é muito menor ainda do que a do Discurso de encerramento do Concílio.

Espero ter atendido, pelo menos parcialmente seu pedido. Caso contrário, escreva-me, para elucidarmos algum ponto ainda obscuro.

In Corde Jesu, semper, Orlando Fedeli.

[Sic!!] … Se queremos a paz,, devemos reconhecer a necessidade de fundá-la sobre bases mais sólidas… A verdadeira paz deve ser fundada sobre a justiça [Ainda bem!], sobre o sentimento de uma intangível dignidade humana, sobre o conhecimento de uma inefável e feliz igualdade entre os homens [Sic ???], sobre o dogma fundamental da fraternidade humana, isto é, sobre o respeito e o amor devido a todo homem na sua qualidade de homem” (Paulo VI, Mensagem para a Jornada da Paz, 14 de Novembro de 1970). (Paulo VI, Discurso em Belém, 6 de janeiro de 1964).(Alexandre Herculano, Poesias, vol. I , Liv. Bertrand Lisboa, 1977, p.175).
(Dante, Paradiso, I – 1-3).
[“A glória dAquele que tudo move,
pelo universo penetra e resplandece,
num aparte mais, e menos alhures”]