1637- Dominus Jesus e Vaticano II

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Orlando Fedeli

Dominus Jesus e Vaticano II

 

  • Localização: Portão – RS,

Prezado professor Orlando.
Salve Maria, Primeira Prenda do Céu, Mãe do meu Senhor.

Estive lendo atentamente o documento Dominus Iesus e, de maneira geral, entendi que a declaração fixa a universalidade e unicidade da Revelação. Entretanto fiquei com tremendas dúvidas com relação a alguns temas ali expostos e resolvi lhe pedir auxílio.
Creio firmemente que deve haver alguma interpretação correta do texto e por confiar no seu conhecimento acerca da sã doutrina venho lhe pedir ajuda.
Para facilitar sua compreensão acerca de minha dúvidas recortei os textos que encontrei dificuldades e logo abaixo deles coloco minhas questões.
Se, no seu entender, fiz algum corte que prejudicou minha compreensão do contexto peço que me corrija porque não é minha intenção usar a “tesoura” como fazem os protestantes.

Seguem os textos:

“Embora querendo congregar em Cristo todas as gentes e comunicar-lhes a plenitude da sua revelação e do seu amor, Deus não deixa de Se tornar presente sob variadas formas « quer aos indivíduos, quer aos povos, através das suas riquezas espirituais, das quais a principal e essencial expressão são as religiões, mesmo se contêm “lacunas, insuficiências e erros” ».27 Portanto, os livros sagrados das outras religiões, que sem dúvida alimentam e orientam a existência dos seus sequazes, recebem do mistério de Cristo os elementos de bondade e de graça neles presentes.”

Dúvida:
Como explicar a presença de Deus em meio a “lacunas, insuficiências e erros”?
Que são esses elementos de bondade e de graça? Cristo se manifesta nestes livros? De que forma?

Texto:
“Além disso, a ação salvífica de Jesus Cristo, com e pelo seu Espírito, estende-se, para além dos confins visíveis da Igreja, a toda a humanidade. Falando do mistério pascal, em que Cristo agora já associa vitalmente a Si no Espírito o crente e lhe dá a esperança da ressurreição, o Concílio afirma: « E isto vale não apenas para aqueles que crêem em Cristo, mas para todos os homens de boa vontade, no coração dos quais, invisivelmente, opera a graça. Na verdade, se Cristo morreu por todos e a vocação última do homem é realmente uma só, a saber divina, nós devemos acreditar que o Espírito Santo oferece a todos, de um modo que só Deus conhece, a possibilidade de serem associados ao mistério pascal ».37”

Dúvida:
Os terroristas do 11/09 também agiram em nome de Deus (Alá). Seriam eles “homens de boa vontade”? Como identificar os tais “homens de boa vontade”?

Texto:
“Por isso, as próprias Igrejas e Comunidades separadas, embora pensemos que têm faltas, não se pode dizer que não tenham peso no mistério da salvação ou sejam vazias de significado, já que o Espírito Se não recusa a servir-Se delas como de instrumentos de salvação, cujo valor deriva da mesma plenitude da graça e da verdade que foi confiada à Igreja Católica ».66”

Dúvida:
Se as Igrejas separadas estão em heresia, que peso é este que elas tem no mistério da salvação? Pela mesma razão como pode o Espírito Santo “servir-Se delas”? Em que sentido Ele se serviria delas? Como instrumentos de salvação????

Texto:
“Para aqueles que não são formal e visivelmente membros da Igreja, « a salvação de Cristo torna-se acessível em virtude de uma graça que, embora dotada de uma misteriosa relação com a Igreja, todavia não os introduz formalmente nela, mas ilumina convenientemente a sua situação interior e ambiental. Esta graça provém de Cristo, é fruto do seu sacrifício e é comunicada pelo Espírito Santo ».81 Tem uma relação com a Igreja, que por sua vez « tem a sua origem na missão do Filho e na missão do Espírito Santo, segundo o desígnio de Deus Pai ».82”

Dúvida:
Se “fora da Igreja não há salvação ( Trentro, Latrão) como entender o texto acima? Que significa isso de que “a salvação de Cristo… ilumina…”?

Texto:
““… seria obviamente contrário à fé católica considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos constituídos pelas outras religiões, como se estes fossem complementares à Igreja, ou até substancialmente equivalentes à mesma, embora convergindo com ela para o Reino escatológico de Deus”.
Com efeito, algumas orações e ritos das outras religiões podem assumir um papel de preparação ao Evangelho, enquanto ocasiões ou pedagogias que estimulam os corações dos homens a se abrirem à ação de Deus. 87 Não se lhes pode porém atribuir a origem divina nem a eficácia salvífica ex opere operato, própria dos sacramentos cristãos.”

Dúvida:
Como conciliar estes textos com o anterior?

Texto:
““… a Igreja nutrir pelas religiões do mundo um sincero respeito, mas, ao mesmo tempo, exclui de forma radical a mentalidade indiferentista « imbuída de um relativismo religioso que leva a pensar que “tanto vale uma religião como outra” ».”

Dúvida:
Que é este “respeito” que a Igreja nutre pelas outras religiões? Em que sentido?

Texto
“O diálogo, portanto, embora faça parte da missão evangelizadora, é apenas uma das ações da Igreja na sua missão ad gentes. 97 A paridade, que é um pressuposto do diálogo, refere-se à igual dignidade pessoal das partes, não aos conteúdos doutrinais e muito menos a Jesus Cristo — que é o próprio Deus feito Homem — em relação com os fundadores das outras religiões.”

Dúvida:
Aqui volto com minha dúvida com relação à “Semana de oração pela unidade dos cristãos”: se a doutrina não é discutível, porque não podemos rezar para Nossa Senhora?

Estas são, meu amigo e irmão prof. Orlando, minhas questões.
Conforme lhe disse anteriormente em outro e-mail, saberei esperar conforme o Eclesiastes: “há tempo pra tudo e tudo tem o seu tempo.”

Que o Patrão da Querência Eterna o abençoe hoje e sempre.
Seu irmão,
—————————–

Muito prezado,
salve Maria !

Você me pergunta sobre textos da Dominus Jesus.
Recomendo-lhe que leia a análise que fiz desse documento, no site Montfort*.
Nessa análise, mostrei que o documento Dominus Jesus tem o mérito de proclamar dez verdades de Fé excelentes. Mas que tem o defeito de querer conciliar essas dez verdades proclamadas com o que foi dito e feito no Vaticano II, e depois dele. Daí, a contradição entre as verdades de Fé –excelentes ! — proclamadas com uma explicação cheia de falhas.
No primeiro texto que você me propõe, você considera , com razão:
“Como explicar a presença de Deus em meio a “lacunas, insuficiências e erros”?
“Que são esses elementos de bondade e de graça? Cristo se manifesta nestes livros? De que forma?”

No Vaticano II, se procurou agradar até os pagãos, dizendo que em suas religiões havia algumas verdades.

Ora, o mal dessas religiões está exatamente no fato que, SENDO IMPOSSÍVEL HAVER UMA MENTIRA ABSOLUTA — toda religião forçosamente tem que afirmar alguma verdade que engana, fazendo engolir com ela a mentira.
Um sorvete envenenado é sempre envenenado. E se alguém quer me fazer aceitá-lo, mostrando-me que ele é de morango e que esta geladinho, nem por isso esse sorvete é aceitável. Pelo contrário: o que ele tem de bem, é o que o torna tentador e perigoso.
Assim também, quanto mais uma religião falsa tem de verdades, pior ela é.
Foi por isso que Nosso Senhor atacou mais os fariseus, exatamente porque eles, tendo mais verdades, mais facilmente enganavam o povo.
Portanto, o Vaticano II adotou uma atitude pastoral oposta a de Jesus Cristo.

No segundo texto que você me coloca, o Vaticano II afirma que o Espírito Santo atua com a sua graça mesmo nos pagãos: “no coração dos quais, invisivelmente, opera a graça”.
Que o Espírito Santo pode dar graças atuais — e as dá — a qualquer homem, em qualquer situação, é bem verdade.

Que Ele dê a graça santificante, sem nenhuma distinção, não é certo. No texto do Vaticano II não se distingue o modo de atuação do Espírito Santo. Daí, a confusão e a contradição.

Quanto aos famosos “Homens de boa Vontade”, que começaram a aparecer nos textos de João XXIII e depois se tornaram de praxe, você tem razão em perguntar quem são eles afinal. Porque eles não são nem cristãos, nem maometanos, nem pagãos, nem ateus simplesmente.
Quem seriam eles então?
Só existe um grupo que se enquadra nessa expressão: são aqueles que Jules Romain chamava “Les Hommes de Bonne Volonté” e que Paulo VI foi encontrar na  dizendo que ela era a única instituição que poderia dar a paz ao mundo.
Certamente não a paz de Cristo. Não a paz que vem do alto.
Que paz seria essa ?

Dou-lhe também inteira razão, e faço minhas as perguntas que você coloca ao terceiro texto, mostrando a contradição que há nele:
“Se as Igrejas separadas estão em heresia, que peso é este que elas tem no mistério da salvação? Pela mesma razão como pode o Espírito Santo “servir-Se delas”? Em que sentido Ele se serviria delas? Como instrumentos de salvação????”
No quarto texto que você coloca em pauta, a palavra graça só pode ser entendida no sentido de graça atual, e não graça santificante. Não fosse assim, você tem, de novo, plena razão no que pergunta:
“Se “fora da Igreja não há salvação (Trento, Latrão) como entender o texto acima? Que significa isso de que “a salvação de Cristo… ilumina…”?”
Portanto, você tem toda a razão mostrando como o texto seguinte contradiz o anterior.
Concordo plenamente com sua pergunta: como se pode respeitar um erro? O erro só pode ser condenado. um professor que respeita o erro de um aluno é como um médico que respeita o câncer de um seu paciente. Com relação ao câncer e ao erro, todo “respeito” é conivência com o erro e com a doença. “Respeitar” um pecado é ser cúmplice dele.
E é claro que essas orações ecumênicas excluem Nossa Senhora, porque Ela não tem nenhuma atitude ecumenicamente conivente com o erro, nem cúmplice com o pecado.
Esperando, um dia, se Deus o permitir, visitá-lo em sua querência, subscrevo-me,
In Corde Jesu, semper,
Orlando Fedeli]

*O professor Orlando Fedeli foi presidente da Associação cultural Montfort de 1983 a 2010.

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