A Cidade do Homem contra a Cidade de Deus

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Orlando Fedeli

A CIDADE DO HOMEM CONTRA A CIDADE DE DEUS

AS REVOLUÇÕES DA MODERNIDADE

 

I. A Sociedade em Geral e a Sociedade Medieval

II. Causas Religiosas e Filosóficas da Reforma e do Renascimento

III. As Três Revoluções Destruidoras da Sociedade Medieval

1ª Revolução: A Reforma e o Renascimento (1517)

2ª Revolução: A Revolução Francesa de 1789

3ª Revolução: Revolução Russa de 1917

IV. Ensinamentos de Pio XII Sobre as Três Revoluções

V. Formas de Governo Instituídas em Cada Revolução

VI. As Três Revoluções na Filosofia

1ª Revolução na Filosofia: o Cartesianismo

2ª Revolução na Filosofia: o Idealismo Alemão

3ª Revolução na Filosofia: o Marxismo ou Materialismo Histórico

VII. As Três Revoluções na Arte

1ª Revolução na Arte: o Renascimento

2ª Revolução na Arte: o Romantismo

3ª Revolução na Arte: a Arte Moderna, Negação da Própria Beleza

VIII. As Três Revoluções na Economia

1ª Revolução na Economia: o Mercantilismo

2ª Revolução na Economia: o Capitalismo

3ª Revolução na Economia: o Socialismo e o Comunismo

 

***

 

O apogeu da Cidade de Deus na História realizou-se na Cristandade medieval, durante o século XIII. Foi o tempo das Catedrais, do Feudalismo, das Universidades. Foi o tempo das Cruzadas e da Cavalaria. Foi o tempo em que São Tomás e São Boaventura ensinavam na Sorbonne. Foi o tempo da Suma Teológica. Foi o tempo dos grandes santos, tais como São Francisco e São Domingos.

Não foi, porém, um período sem males. Foi a época de Frederico II, dos hereges cátaros, dos hereges Espirituais Franciscanos, dos Fraticelli e da irrupção do milenarismo joaquimita. Foi a época de Dante e de seus Fedeli d’Amore. Como foi o tempo da edição do Roman de la Rose, livro imoralíssimo – o mais lido da Idade Média – e que dava um programa para destruir a Igreja, defendendo as mais escandalosas teses heréticas que acabaram triunfando na Modernidade.

Neste trabalho, pretendemos dar uma visão de conjunto das Revoluções que destruíram a sociedade medieval, procurando instituir uma sociedade igualitária em lugar da sociedade hierárquica que a Igreja estabelecera na Cristandade medieval.

Muitos autores descreveram as linhas gerais dessas revoluções. Não é, pois, uma tese nova que vamos demonstrar. Leão XIII tratou, em parte, dessa visão histórica na encíclica Parvenu. Monsenhor Gaume foi outro autor que tratou da Revolução com competência, mostrando como ela foi a colocação do Homem no lugar de Deus. Plínio Corrêa de Oliveira deu-nos a exposição das Três Revoluções em aulas, que assistimos como alunos dele, na PUC em 1952, tema do qual ele voltou a tratar no opúsculo Revolução e Contra Revolução.

Não negamos, como é de justiça, que foi ele quem nos abriu, pela primeira vez, essa perspectiva histórica. Deus o pague por isso. Porém é de justiça também que diga que ele nos deu a exposição apenas das Três Revoluções, mas sem nunca tratar da ação da Gnose e do Panteísmo nessas Revoluções. Todo o resto do quadro que vamos expor não o devemos a ele, mas cabe dizer que foi fruto de inúmeros estudos que fizemos, inclusive para combater o Romantismo do próprio Plínio C. de Oliveira. Basta comparar o que escrevemos com o que ele escreveu em Revolução e Contra Revolução para se dar conta do que devemos e do que não devemos a ele.

 

I. A Sociedade em Geral e Sociedade Medieval

A Sociedade Medieval, sendo consequência da aplicação da doutrina cristã ensinada pela Igreja, tinha que ser hierárquica e não igualitária. Estudamos as razões desse anti-igualitarismo da sociedade católica em nosso trabalho Desigualdade ou Igualdade de Direitos: considerações sobre um mito.

Como toda sociedade retamente organizada, a sociedade medieval era formada por Estados e não por castas como era de regra nas sociedades pagãs.

Havia três Estados na Sociedade Medieval: o Clero, a Nobreza e o Povo, sendo que este era formado pela Burguesia, pelos Camponeses e Artesãos.

Era o que formava a famosa “pirâmide maldita” do linguajar marxista dos professores de cursinho.

Tais professores se esquecem de dizer que, em todos as sociedades, em todos os tempos, existiu sempre essa mesma estrutura.

Toda sociedade é, portanto, necessariamente piramidal, pois os sábios que dirigem serão sempre minoria.

Não há como fugir desse esquema. Uma sociedade horizontal – igualitária – nunca existiu e nunca poderá existir.

E isso é assim pela própria natureza dos homens e das coisas.

Deus fez tudo com desigualdade, por isso toda sociedade é necessariamente hierárquica.

Já Platão mostrara, no diálogo República, que, para existir uma sociedade, é preciso em primeiro lugar, que existam pessoas que produzam os bens necessários à vida. Tais bens são os alimentos e objetos necessários para viver. Portanto, não pode haver sociedade se não houver camponeses que produzam os alimentos, e artesãos que produzam utensílios, móveis, vestes etc.

Em primeiro lugar, há a necessidade do trabalho agrícola e artesanal.

Ora, se camponeses e artesãos produzirem só o absolutamente necessário para a sua manutenção e a de suas famílias, como eles não podem produzir tudo que precisam, ver-se-ão sem possibilidade de adquirir bens que lhes sejam necessários e dos quais têm falta. Daí, camponeses e artesão serem obrigados a produzir mais do que necessitam, para poderem trocar sobras do que produziram por objetos de que precisam. O comércio nasce dessa necessidade de troca de bens. Portanto, além de camponeses e artesãos nasce quase imediatamente o grupo dos comerciantes, que fazem circular e trocar os bens produzidos.

Porém, onde há bens, surgem logo os que querem se apossar desses bens de modo injusto. Isso exige, então, a proteção desses bens pela força armada. Daí a existência de um grupo armado para guardar os bens produzidos.

Surge o grupo social militar que tem por fim a proteção dos bens e da propriedade particular. É assim que toda sociedade tem sempre um tal grupo armado para fazer respeitar o direito e a justiça. São os militares, ou nobres, porque devem dar a vida para proteger a justiça e os direitos das pessoas.

Deixar no topo da sociedade a força com o poder supremo, manter no ápice da sociedade os que detêm o uso da espada equivale a colocar a força material acima de tudo, o que gerará abusos. É preciso então colocar acima da força da espada, acima da força material, um grupo que controle a força física pela sabedoria. Por isso, mesmo nas sociedades pagãs havia um grupo sacerdotal, considerado mais prudente e sábio para controlar a mera força das armas.

Daí toda sociedade ser formada, esquematicamente, por:

a) produtores de bens (camponeses e artesãos) e de encarregados de fazer circular os bens através do comércio (comerciantes);

b) militares que guardam o direito aos bens pelo emprego da força militar (guerreiros ou nobres);

c) supostos sábios, que devem controlar o uso da força material, para evitar abusos.

Tanto isso tem que ser assim, que até a sociedade soviética, que se pejava de ser igualitária, foi obrigada a se render à natureza, mantendo essa estrutura, pois lá também havia a famosa “pirâmide maldita”.

Na URSS, havia:

a) O proletariado (camponeses e operários) produtores de bens necessários à vida, e funcionários encarregados da circulação dos bens, e mesmo um certo pequeno grupo de comerciantes;

b) Os militares que garantiam a “ordem” social;

c) Os “sábios” – os membros do Partido Comunista que dirigiam e controlavam a força em razão de seu conhecimento ideológico supostamente sábio e verdadeiro.

Portanto, nem na URSS havia, então, a igualdade.

Pena que professores de cursinho, profissionais da mídia e padres de passeata não sejam capazes de ver o evidente.

Será que, no Brasil do PTBrás, no Brasil do mensalão, os canonizados pela CNBB como “católicos à sua maneira”, estabelecerão realmente a igualdade da utopia?

Frei Betto que guiou Lula até lá, conseguiu fazer a república metalúrgica, que daria, a cada operário, direito a uma pizza e a uma cervejinha por semana? Ou picanha com o vinho Romané-Conti ficou só para os privilegiados, para os “sábios” da Granja do Torto? Direito à picanha só para os simpáticos do Torto? Será isso igualdade? Será isso o fim da “pirâmide maldita”?

***

Esse mesmo esquema era o da sociedade medieval.

Na sociedade medieval havia, sim, a pirâmide social natural, na qual os mais sábios, os que tinham maiores responsabilidades e virtudes – necessariamente os menos numerosos – dirigiam os mais numerosos, e de funções menos importantes.

No alto da sociedade medieval estava o Clero, única ordem social instituída diretamente por Cristo, para guiar os homens na prática dos mandamentos – da lei natural – a fim de dar glória a Deus e alcançar o céu.

O Clero era constituído, como até hoje o é, e sempre o será, pelo Papa, Bispos e Padres. Cardeais, Arcebispos, Monsenhores são apenas títulos honoríficos, e não graus da Sagrada Hierarquia estabelecida por Cristo.

O Segundo Estado, ou Ordem, era a Nobreza feudal cujos componentes eram o Imperador, os Reis, os Príncipes, os Duques, Condes e Barões.

O Terceiro Estado era formado pelo Povo, e era constituído pelos Burgueses, Camponeses e Artesãos.

A Burguesia era o grupo dos que exerciam trabalho não manual, e habitava nas cidades, como, por exemplo, os comerciantes, os advogados, os médicos, os professores etc.

Abaixo deles, estavam os que exerciam trabalhos manuais.

Os Artesãos faziam os instrumentos e objetos necessários para a vida social, enquanto os camponeses cultivavam a terra e criavam o gado.

Os artesãos também possuíam uma hierarquia interna, dividindo-se em Mestres, Companheiros e Aprendizes.

Esquematicamente, a escala social medieval poderia ser assim representada:

Não é aqui o momento de justificar essa organização social, expondo suas funções, sacrifícios, virtudes e direitos. Faremos isso, noutro trabalho. Agora, importa-nos apenas registrar essa organização social medieval, para explicar como se deu a sua destruição.

Todavia, um ponto que convém desde agora salientar é que essa organização social não era de castas, como eram as sociedades pagãs.

Na sociedade medieval, qualquer pessoa podia mudar de grupo social. Assim, qualquer camponês poderia se tornar sacerdote, e passaria para a primeira camada da sociedade. E, entrando no clero, tendo valor, esse camponês poderia alcançar altas dignidades, e até mesmo chegar a ser Papa, como, aliás, aconteceu por diversas vezes, na Idade Média. São Gregório VII, por exemplo, foi o Papa mais importante da Idade Média e tinha origem camponesa, sendo filho de um cabreiro (Régine Pernoud, 1981, p.101). O Abade Suger era filho de servo da gleba, e, mesmo assim se tornou Abade de São Denis, e foi Regente da França. O Arcebispo de Paris, Maurice de Sully, que ordenou a construção da famosa catedral de Notre-Dame de Paris, era de família pobre. O Papa Urbano VI era filho de um sapateiro.

O Clero foi o grande instrumento de ascensão e promoção social na Idade Média.

O camponês também poderia ascender à nobreza, pela prática de um heroísmo. Santa Joana d’Arc foi enobrecida por sua proeza militar.

Por outro lado, qualquer pessoa de Estado mais elevado poderia ser rebaixada: um clérigo podia ser reduzido ao estado leigo como punição de certos crimes. Um nobre poderia perder seu título e seus privilégios por causa de crimes, ou, por vezes, por exercer o comércio, visto que a Nobreza consiste em usar todas as qualidades próprias em proveito de outrem, enquanto o comerciante usa de todas as suas qualidades para obter lucro para si. Mas, em Repúblicas que viviam do comércio – como Genova e Veneza – o comércio era obrigatório para os nobres, pois seu esforço redundaria em proveito geral daquela sociedade e daquela República.

Portanto, não havia castas na Idade Média. Esse foi um dos grandes bens que a Igreja proporcionou à civilização na Idade Média: acabar com as castas.

A sociedade medieval tinha, pois, como pilares de sua estrutura, em primeiro lugar, o Papa, aceito como autoridade suprema, pois era o Vigário de Cristo na Terra; e, em segundo lugar, o princípio da desigualdade de direitos, já que se admitia, com o Evangelho e com São Tomás de Aquino, que Deus não fez e não quer os homens iguais, mas semelhantes.

Portanto, para destruir a sociedade medieval, era preciso derrubar esses dois pilares: o Papa e a desigualdade de direitos. E foi o que fizeram aqueles que desejavam destruir a Cidade de Deus, e fazer triunfar a Cidade do Homem.

Substituíram o Teocentrismo pelo Antropocentrismo. Colocaram o Homem no lugar de Deus.

 

II. Causas Religiosas e Filosóficas da Reforma e do Renascimento

Estaria fora do âmbito dos limites e escopo deste trabalho dar todas as causas que prepararam o triunfo da Reforma protestante sobre o Papado, no século XVI. Mas convém acenar, pelo menos em poucas pinceladas, a alguns dos fatos principais que prepararam a revolta e o êxito de Lutero.

Entre esses fatos, aos quais fazemos apenas alusão, devem ser considerados como mais importantes:

1. O atentado de Anagni. Em 1303, o Rei da França, Felipe IV, o Belo, mandou seu ministro – um neto de cátaros – Guillaume de Nogaret, atacar o castelo do Papa Bonifácio VIII, em Anagni, contando com a ajuda de Sciarra Colonna, o qual, então, teria esbofeteado o Papa com seu guante de ferro. Esse fato é o próprio símbolo do fim da ordem medieval.

2. O Cativeiro de Avignon. Felipe IV, o Belo, obrigou o Papa Clemente V a transferir a Santa Sé para Avignon, na Provença, onde os Papas ficaram por cerca de 70 anos, tornando-os, praticamente, “capelães” dos Reis da França. Isto fez o Papado perder o prestígio de juiz imparcial da Cristandade, levando Alemanha e Inglaterra, as principais potências rivais da França, a desconfiarem da autoridade e dos julgamentos papais. E isso favoreceu, duzentos anos depois, a adesão da Alemanha e da Inglaterra ao Protestantismo.

3. O Grande Cisma do Ocidente. No século XV, houve uma crise no Papado, tendo sido eleitos antipapas. A Igreja, durante certo tempo, teve dois pretendentes ao papado, e mesmo, em período menor, três papas, um verdadeiro, e dois antipapas. A Cristandade se dividiu, e a autoridade papal sofreu sério dano, o que preparou a revolta de Lutero.

4. Heresias precursoras do Protestantismo. Citaremos apenas algumas delas que foram das principais causas preparatórias do Protestantismo:

a) A Gnose irracionalista de Mestre Eckhart (1300), cuja mística e moral foram adotados por Lutero, apesar de terem sido anatematizadas pelo Papa João XXII em 1319. Eckhart defendia até mesmo a santidade do pecado, que também Lutero defenderá.

b) A heresia medieval dos valdenses, cuja revolta contra o papado e cuja recusa de venerar os santos serão adotadas pelos protestantes.

c) As heresias franciscanas. Desde o século XIII, as heresias surgidas entre os franciscanos – a dos Espirituais, a dos Pseudo Apóstolos ou dos Fraticelli, a dos Beguinos, defendendo uma Igreja absolutamente pobre, prepararam a revolta protestante

d) O Catarismo, que minou a autoridade papal e dividiu profundamente a Cristandade. O catarismo foi propagado sub-repticiamente pelos trovadores do “trobar clus” e pelos poetas pertencentes ao grupo dos “Fedeli d’ Amore”, aos quais pertenceu Dante. A obra Le Roman de La Rose, de Guillaume de Lorris e de Jean de Meung, publicado em 1278, no século XIII, além de ser um livro imoralíssimo, defendia grande número de teses modernas, como o contrato social, o amor livre, e expunha como destruir a Igreja. Dante traduziu em resumo essa obra para o italiano como nome de Il Fiore, e Chaucer a traduziu para o inglês

e) O Milenarismo Joaquimita. Desde o século XIII, os hereges espirituais franciscanos esperavam um grande castigo e o retorno à pobreza da Igreja primitiva. Depois desse enorme castigo, e depois da era de Deus Pai, e da era do Filho, um “Papa angélico” e um “Grande Imperador” instaurariam o Reino do Espírito Santo, ou a era do Amor – a Civilização do Amor – na Terra, reino em que a lei seria abolida, e na qual tudo seria possuído em comum.

f) O Humanismo influenciou também os estudos bíblicos por seu espírito crítico e racionalista, minando a fé no texto da Vulgata. Erasmo foi o exemplo típico desse tipo de Humanismo. O seu Novo Testamento clássico se opôs à Vulgata, tornando-se o grande precursor da Bíblia alemã de Lutero, atacando ao mesmo tempo a patrística, o Papado e a guarda da Escritura pela Igreja.

g) As heresias de Wyclef e de João Huss que foram em grande parte assumidas por Lutero e pelos anabatistas.

h) O cabalismo “Cristão” que propagou a Gnose judaica – a Kabbalah – nos meios intelectuais e eclesiásticos nos séculos XV e XVI. Pico de Mirandola, na Itália, e Reuchlin, na Alemanha foram os grandes difusores da Cabala nos meios reformistas e renascentistas. O cabalismo cristão penetrou no clero a tal ponto que homens como o Cardeal Egidio de Viterbo – o Superior Geral da Ordem a que pertencia Lutero – e o famoso exegeta Cornélio a Lapide aceitaram os métodos cabalistas de interpretação da Sagrada Escritura.

5. Os Erros Filosóficos que Prepararam a Reforma e o Renascimento

a) A Filosofia univocista de Duns Scoto. No seu famoso Discurso na Universidade de Regensburg (Ratisbona), Bento XVI apontou o início de toda decadência do Ocidente, na filosofia voluntarista de Duns Scoto.

Disse o Papa Bento XVI:

Por honestidade, é preciso anotar neste ponto, que, na tardia Idade Média, desenvolveram-se tendências na teologia que rompiam esta síntese entre o espírito grego e o espírito cristão. Em contraste com o assim chamado intelectualismo agostiniano e tomista, iniciou-se com Duns Scoto uma impostação voluntarística, que afinal levou à afirmação de que, de Deus, conheceríamos apenas a voluntas ordinata. Além dela, existiria a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele teria podido criar e fazer também o contrário de tudo aquilo que efetivamente fez. Aqui se esboçam posições que, de todo modo, podem aproximar-se daquelas de Ibn Hazn e poderiam levar até à imagem de um Deus-Arbítrio, que não estivesse ligado nem mesmo à verdade e ao bem. A transcendência e a diversidade de Deus vinham acentuadas de modo tão exagerado, que também nossa razão, o nosso senso do verdadeiro e do bem, não seriam mais um verdadeiro specquemo de Deus, cujas possibilidades abissais permaneceriam para nós eternamente inatingíveis e escondidas por trás de suas decisões efetivas.

Em contraste com isso, a fé da Igreja sempre se ateve à convicção que entre Deus e nós, entre o seu eterno Espírito criador e a nossa razão criada existe uma verdadeira analogia, na qual, certamente as dissemelhanças são infinitamente maiores que as semelhanças, não, todavia até o ponto de abolir a analogia e a sua linguagem (Cfr. Lateranense IV). Deus não se torna mais divino pelo fato que O distanciemos bem longe de nós num voluntarismo puro e impenetrável, mas o Deus verdadeiramente divino é aquele Deus que se mostrou como “Logos” e como “Logos” agiu, e age, cheio de amor em nosso favor. Certamente, o amor “ultrapassa” o conhecimento, e é por isso capaz de perceber mais do que o mero pensamento (Cfr. Ef 3,19), todavia, ele permanece o amor do Deus – “Logos”, para o qual o culto cristão é “espiritual” – um culto que concorda com o Verbo eterno e com a nossa razão” (Cfr. Rom 12,1). (Bento XVI, Discurso na Universidade de Ratisbona, “O melhor do pensamento grego é ‘parte integrante da fé cristã’”, 12 de setembro de 2006, http://www.quemesa.espressonline.it/dettaglio.jsp?id=83303).

Resumidamente, Duns Scoto divergiu da Filosofia tomista em alguns pontos fundamentais que darão início ao desmoronamento de toda a Escolástica, quer pelo misticismo de Eckhart, quer pelo racionalismo voluntarista de Ockham:

i) Univocidade do ser: Para Duns Scoto, o conceito de ser seria unívoco, e não analógico, como ensinava o tomismo. Portanto, ou se identificava o mundo a Deus, pela negação da matéria, ou Deus ao mundo, pela negação de todo o sobrenatural. Daí, Duns Scoto negar o princípio da analogia do ser.

ii) Negação da analogia: Esse erro levaria quer ao repúdio do mundo caindo na Gnose, com Eckhart, quer à identificação de Deus com o mundo, caindo no panteísmo racionalista de Ockham.

iii) Voluntarismo: a vontade divina não agiria com base na Sabedoria. Não havendo analogia, Duns Scoto acabava por negar que toda a ação de Deus partia do Princípio, do Verbo. E “No princípio era o Verbo” (Jo 1,1). Deus criou tudo em sua sabedoria. Todas as coisas criadas foram feitas pelo Verbo, e sem Ele nada foi feito. Por isso, tudo é inteligível, pois todo ser é verdadeiro. O Verum é um transcendental do ser. Para Duns Scoto isso não seria assim. Para ele, Deus poderia ter feito um mundo ao contrario deste que Ele criou. Toda ordem seria arbitrária e não teria fundamento na Sabedoria de Deus, e Deus poderia ter feito um decálogo oposto ao que deu no Sinai, erro esse que será explicitamente defendido por Ockham. Daí, Duns Scoto colocar a vontade acima do intelecto, o amor acima e independente do Conhecimento. Como disse o Papa Bento XVI em Ratisbona: “Em contraste com o assim chamado intelectualismo agostiniano e tomista, iniciou-se com Duns Scoto uma impostação voluntarística, que afinal levou à afirmação de que, de Deus, conheceríamos apenas a “voluntas ordinata”. Além dela, existiria a liberdade de Deus, em virtude da qual Ele teria podido criar e fazer também o contrário de tudo aquilo que efetivamente fez”.

b) O Irracionalismo e a filosofia dialética do gnóstico Mestre Eckhart: Mestre Eckhart negará a analogia tomista, afirmando existir no ser criado uma intrínseca oposição dialética. Se Deus era Ser, a criatura seria não-ser. Se Deus fosse o nada absoluto, então a criatura seria ser. Ser e não ser se oporiam em todas as coisas, como o ying e o yang da doutrina do taoísmo. Para Eckhart, a razão enganaria o homem. A matéria seria má. Toda intelecção seria absurda e o homem nada poderia desejar, nem mesmo se poderia desejar o céu ou a virtude, nem se deveria desejar amar a Deus, devendo-se atingir um nada sem desejo, como no budismo.

Para Eckhart, só existiria o universal, e jamais o individual, visto que a individualidade provinha da matéria, princípio do mal.

A Filosofia de Eckhart vai ser um misticismo inteiramente gnóstico, que servirá de base para os erros dos Irmãos do Livre Espírito.

Eckhart foi condenado por João XXII já em 1329, enquanto na opinião comum dos historiadores, a Idade Média iria terminar somente em 1453…

c) A filosofia nominalista, racionalista e panteísta de Guilherme de Ockham, foi condenada também por João XXII, anulava toda noção de verdade e de moral universais.

Para Ockham, não existiria o universal, mas apenas o indivíduo. Portanto, a matéria era alçada à condição de única realidade. Nada haveria de universal, nem verdade e nem lei. Ockham vai lançar as bases do materialismo, do racionalismo e do empirismo da filosofia moderna.

De Ockham nascerá a ideia da supremacia da matéria sobre o espírito, do Imperador sobre o Papa; do Estado sobre a Igreja. E Ockham foi contemporâneo e inimigo de Eckhart

d) As novas doutrinas políticas estatistas.

Os erros da filosofia política de Marsílio de Pádua, autor do Defensor Pacis, prepararam o Estado Moderno, absolutamente laico, independente da Igreja e livre de toda a Moral.

Lutero vai defender não só a completa independência do Estado em relação à Igreja e ao Papa, como também vai atribuir ao Soberano poderes religiosos fazendo do Rei um papa em seu reino.

e) A Decadência da Filosofia Escolástica

No século XV, as heresias de Eckhart e de Ockham, assim como os primeiros influxos secretos da Cabala, levaram a Filosofia ao delírio.

Alguns filósofos como Jean de Méricourt e Nicolau d’Autrecourt defenderam a tese da santidade do pecado, que Lutero transformará em tese básica da moral protestante.

f) O Humanismo

A Academia Platônica de Florença, dirigida por Marsílio Ficino, que aceitou e difundiu as doutrinas gnósticas do Hermes Trismegisto, influiu poderosamente no Renascimento. Botticelli, Verrochio, Leonardo, Michelangelo foram artistas que expressaram a Gnose hermética em suas obras de Arte, com o fim de combater a doutrina católica.

Essa influência do hermetismo na modernidade foi de tal grau, que Francês A. Yates afirmou: “Foi a magia, com o auxílio da Gnose, que começou e imprimiu à vontade uma nova direção” (Francês A. Yates, Giordano Bruno e a Tradição Hermética, Editora Cultrix, São Paulo, 1995, p. 180).

[Para distinguir o que dizemos do que foi ensinado por Plínio Corrêa de Oliveira, lembramos que jamais esse autor fez qualquer alusão a muitas dessas causas precursoras da Reforma e do Renascimento. Era como se elas nunca tivessem existido. Especialmente ele omitia – creio que por desconhecimento histórico – as causas medievais da Reforma. Para ele a Revolução começou no que ele chama de “risonho século XV”].

 

III. As Três Revoluções Destruidoras da Sociedade Medieval

Tendo visto o esquema da sociedade medieval e as causas mais remotas da Revolução protestante de Lutero, vejamos agora como se concatenaram as três revoluções destruidoras da Sociedade medieval.

Esse quadro é que nos foi explicado por Plínio Corrêa de Oliveira, em 1952, em suas aulas na PUC, e que ele expôs, de modo bem sucinto e muito superficialmente, em seu pequeno opúsculo Revolução e Contra Revolução, editado em 1959, livro que é tido como uma espécie de Bíblia ou Corão da TFP e dos Arautos do Evangelho, todos eles cultuadores de Plínio como santo e profeta de um reino milenarista, que estaria sempre para surgir, e que é sempre adiado para… “o ano que vem… Em Jerusalém”.

Vejamos, então, agora esse quadro das três revoluções:

Antes, porém, uma nota importante: uma Revolução só eclode, quando se dá a síntese dialética do Panteísmo racionalista com a Gnose irracionalista, dando-se o curto circuito dialético-revolucionário.

Em breve, publicaremos um estudo mais profundo sobre o curto-circuito da Gnose com o Panteísmo, do irracionalismo com o racionalismo, que dá uma explicação mais clara e mais profunda da Revolução e da ação do demônio na História.

1ª Revolução: A Reforma e o Renascimento (1517)

A data de 1517 foi posta, aí, por ser o ano da revolta de Lutero, e a de um ano do período de apogeu do Renascimento.

A Reforma luterana defendeu as seguintes ideias fundamentais:

1. Igualdade Religiosa.

O luteranismo resultou da síntese dialética da Gnose irracionalista de Mestre Eckhart com a filosofia racionalista do nominalismo de Ockham.

Pelo livre exame da Bíblia, Lutero fez de cada fiel um Papa. Lutero proclamou que cada fiel, ao ler a Bíblia, seria inspirado diretamente pelo Espírito Santo, de tal modo que a interpretação de cada um seria infalivelmente verdadeira. Cada um, lendo a Bíblia, poderia identificar sua razão com o próprio Espírito Santo.

Desse modo, o Papa se tornava desnecessário. E não só o Papa, mas também todo o clero. Para quê ouvir a explicação da religião por um membro do clero, se era possível receber sempre a inspiração divina do próprio Espírito Santo?

Cada fiel era o seu próprio Papa, Bispo e Sacerdote.

O Protestantismo, negando a autoridade divina e infalível do Papa, caiu na contradição de tornar todo mundo Papa. Foi o livre exame da Bíblia que derrubou o Clero como classe social. Lutero, negando o poder papal, derrubou o pilar fundamental da sociedade medieval.

2. Cada Príncipe seria o chefe do Estado e da Religião em seus territórios.

Lutero, por política, para obter a proteção da Nobreza contra o poder do Imperador, tirou a primeira consequência do livre exame: cada príncipe seria um papa em suas terras.

Desse modo, ele apoiava as teses de Ockham e de Marsílio de Pádua a respeito da supremacia do Estado sobre a Igreja, do Imperador sobre o Papa.

Isso agradou muito a muitos nobres alemães que estavam em grande crise econômica. Com efeito, os impostos feudais haviam sido fixados para sempre lá pelo século VIII. Com o tempo e com a inflação crescente, especialmente após as descobertas marítimas e o consequente enorme afluxo de ouro, os preços aumentaram muito, e como esses nobres recebiam uma renda fixada pelo costume, eles ficaram arruinados.

A esses nobres empobrecidos Lutero oferecia o poder religioso, o que significava dominar as riquezas e terras da Igreja. Naturalmente, muitos nobres se deixaram arrastar pela tentação de se apoderar das riquezas da Igreja, e, por isso, apoiaram a Reforma luterana.

Outros nobres, menos afetados pela crise econômica, apoiaram Lutero, pois tinham aderido aos princípios do humanismo pagão, como foi o caso do Duque da Saxônia, o maior protetor de Lutero

3. Maior liberdade na Moral.

O princípio luterano de que a salvação vinha pela Fé sem as obras, e que quanto mais alguém pecasse, mais provaria que acreditava no perdão de Deus atraiu para Lutero todos os que desejavam pecar à vontade. Padres corruptos apoiaram Lutero, porque ele defendeu o fim do celibato e dos votos religiosos, especialmente o de castidade. Ele defendeu também o divórcio e permitiu até a bigamia do Príncipe Felipe de Hesse. Uma onda de imoralidade arrastou para a Reforma luterana a multidão dos corruptos. Pela Reforma, Lutero não pretendia, de modo algum, a reforma dos costumes corrompidos do clero. Pelo contrário. O que Lutero queria era reformar a Moral dos dez mandamentos, permitindo o que era proibido, tornando lícito, o que era ilícito.

Lutero adotou então a tese gnóstica e cabalista da santidade do pecado, ao lançar seu princípio: “Crê firmemente, e peca muito”. Era a exaltação da mística gnóstica de Mestre Eckhart e dos Irmãos do Livre Espírito que Lutero adotava, unindo o irracionalismo de Eckhart com o racionalismo da filosofia nominalista de Ockham. Foi esse curto-circuito racionalista-irracionalista que deslumbrou ambas as correntes heréticas que se digladiavam nas Universidades, e que, agora, se uniram dialeticamente – por um pouco de tempo – na exaltação do profeta racionalista e místico de Wittemberg.

O Renascimento registrou, também ele, a síntese dialética da ciência racionalista, então em desenvolvimento, com a Gnose irracionalista do hermetismo. Leonardo foi exemplo vivo dessa síntese, com seus estudos e invenções científicas, com a magia hermética aprendida por ele através de Marsílio Ficino, na Academia Platônica de Florença.

O Renascimento e o Humanismo defenderam ideias correlatas, senão idênticas, o primeiro nas Artes, o segundo nas letras e na Filosofia.

Reforma e Renascimento foram o primeiro triunfo do Antropoteísmo, da Religião do Homem – do Humanismo – que viria a alcançar seu triunfo final no Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, quando Paulo VI declarou:

“Reconhecei-lhe pelo menos este mérito, ó vós humanistas modernos, que renunciais à transcendência das coisas supremas, e saibais reconhecer o nosso novo humanismo: nós também, nós mais do que qualquer outro, nós temos o culto do homem” (Paulo VI, Discurso de Encerramento do Concílio Vaticano II, 7 de dezembro de 1965).

O Renascimento defendeu as seguintes ideias fundamentais:

1. O Soberano deveria ser chefe do Estado e da Religião

O Renascimento queria fazer ressurgir a cultura pagã greco-romana morta há mil anos. Ora, pela cultura clássica, o Imperador era soberano absoluto dirigindo o Estado e a Religião. César era até adorado como Deus.

Consequentemente, todo soberano seria independente do Papa, e governaria a Igreja em seus territórios.

Daí, Henrique VIII ter fundado a religião Anglicana. Daí o Galicanismo de Luis XIV.

Vê-se claramente então que esta ideia fundamental do Renascimento coincidia com a segunda ideia fundamental da Reforma Luterana.

2. Moral pagã contra a moral cristã

O Renascimento, adotando as doutrinas gnósticas do Hermetismo, atacou a moral cristã, ensinada pelo Clero. Evidentemente, isto opôs o Renascimento ao Clero católico, ainda que Papas e muitas autoridades eclesiásticas de então adotassem a filosofia e a moral pagã do Renascimento.

Resultado das ideias da Reforma e do Renascimento foi a derrubada do Clero como Estado social supremo na sociedade. Portanto, o lugar do Clero foi assumido imediatamente pela Nobreza, elevada ao ápice social.

O esquema da sociedade, após a Revolução da Reforma e do Renascimento passou a ser o seguinte:

Estabelecendo a igualdade religiosa, e elevando a Nobreza à antiga posição do Clero, Reforma e Renascimento aumentaram a desigualdade política entre a Nobreza e a Burguesia.

Isto colocou o gérmen de uma nova Revolução.

Pois se os homens são iguais na Religião, se cada fiel é Papa, por que tanta desigualdade entre Nobreza e Povo? Não disse Lutero que deveria ser aplicado ao Povo o princípio que todo fiel era um sacerdócio real? Isto é, que o povo devia ser tido como Sacerdote e Rei? Por que então tanta desigualdade na política, se todos eram iguais em coisa mais fundamental como a religião?

Se os homens são iguais na religião, com maior razão deveriam ser iguais também politicamente. Todos teriam igual direito de escolher seus governantes ou de governarem, e não só o filho do Rei poderia ter o direito ao governo.

Da Reforma protestante, então, nasceu a Revolução Francesa de 1789.

2ª Revolução: A Revolução Francesa de 1789

A Revolução Francesa aplicou os princípios e as ideias da Reforma protestante à ordem política, através de seu lema de Igualdade, Liberdade e Fraternidade.

1. Igualdade política

A Revolução Francesa de 1789, assim como sua predecessora, a Revolução Americana de Washington, em 1776, aplicaram ao campo político os princípios revolucionários da Reforma protestante. Assim como a Reforma defendeu a igualdade religiosa, a Revolução Francesa defendeu a igualdade política. Todos teriam direito de votar, para escolher um governante, e todos poderiam ser votados para governar um país.

2. Liberdades políticas

Além da igualdade, a Revolução Francesa pregou a adoção das liberdades de religião e de consciência; a liberdade política; a liberdade de imprensa; a liberdade de educação; a liberdade de comércio separada de qualquer moral; a liberdade de propaganda e a liberdade artística absoluta, hoje chamada liberdade de expressão.

São essas as liberdades para o erro e para o mal, as liberdades que o Papa Leão XIII chamou, com Santo Agostinho, de liberdades de perdição. Essas ideias de igualdade e de liberdade políticas formam o cerne do liberalismo.

Com essas ideias de igualdade política a Revolução Francesa guilhotinou o Rei Luis XVI, e liquidou a Nobreza e os direitos feudais. Todos os títulos nobiliárquicos foram anulados e proibidos. Todos os súditos foram reduzidos à categoria de cidadãos.

A Liberdade da Revolução Francesa fez a Guilhotina e a Lei dos Suspeitos que permitia matar, sem direito de defesa, quem fosse acusado de suspeito de ser contra a Revolução.

A Fraternidade era pregada com o lema: La Fraternité ou la Mort (Fraternidade ou Morte), lema que poderia muito bem ser assinado por Caim.

A única desigualdade que restou foi a econômica, distinguindo-se os cidadãos apenas por sua fortuna. Com a destruição da Nobreza como classe social, a Burguesia assumiu a liderança na sociedade, e o dinheiro passou a ser o único critério de valor e de classificação dos homens. Quem tivesse dinheiro, teria todos os valores…

Desta forma, o esquema da sociedade passou a ser o seguinte depois de 1789:

Com a aplicação da igualdade política, cresceu a desigualdade entre Burguesia e as classes trabalhadoras manuais. Ascender socialmente ficou, então, muito mais difícil do que antes.

Por outro lado, se a igualdade era considerada um bem, quando aplicada à religião e à política, por que deveria subsistir tanta desigualdade na economia e na propriedade? Se a igualdade, em si mesma, é um bem, então deveria haver também igualdade econômica e igualdade de propriedade. E foi o que propugnou a Revolução Russa de 1917.

3ª Revolução: Revolução Russa de 1917

As ideias fundamentais da Revolução Russa foram duas:

1. Igualdade econômica

Isto quis ser alcançado pela eliminação do direito de propriedade particular. Tudo passou a ser do Estado.

2. Liberdade absoluta

Esta liberdade total do Homem só seria alcançada pelo ateísmo, que livraria o homem da obediência aos mandamentos do Criador. Isto implicava na negação de toda a propriedade e da família, defendendo-se, mais do que o divórcio, o amor livre. Negava-se ainda qualquer direito dos pais sobre os filhos, que pertenceriam ao Estado.

***

Essas três revoluções formaram um processo de causas e de efeitos interligados, pois que a Reforma foi mãe da Revolução Francesa, e esta gerou a Revolução Russa. Assim, como um resfriado, se não for sanado, produz uma gripe, e esta, por sua vez, caso não seja debelada, pode produzir uma pneumonia e levar à morte, assim o vírus das três revoluções foi a ideia de igualdade como um bem em si mesma.

A Revolução é, pois, um processo histórico, que, em três etapas, – Reforma, Revolução Francesa, Revolução Russa – destruiu a sociedade medieval, para implantar a igualdade completa.

Plínio Correa explicava esse esquema em suas aulas, assim como em seu livro Revolução e Contra Revolução, mas sem entrar em muitos pormenores.

 

IV. Ensinamento de Pio XII Sobre as Três Revoluções

O Papa Pio XII, tratando desse tema das três Revoluções, genialmente ensinou que elas renegaram os três fundamentos da Fé Católica: Deus, Cristo e a Igreja. Foram três graus de apostasia, cada uma mais profunda que a outra.

A Reforma luterana proclamou que aceitava Deus e Cristo, mas que repudiava a Igreja.

Da crença católica em Deus, em Cristo e na Igreja, Lutero eliminou a Igreja. Bastava crer apenas em Deus e em Cristo. E não na Igreja.

Herege é aquele que coloca o seu juízo particular no lugar do juízo da Igreja. Lutero, proclamando o livre exame da Bíblia, fez da essência da heresia o princípio fundamental do protestantismo. O protestante é o herege por excelência. O livre exame da Sagrada Escritura faz de cada protestante o seu próprio Papa, e constitui cada indivíduo como o único membro de sua “igreja”. Não há dois protestantes de uma mesma seita, porque cada um tem a sua própria e única interpretação da Bíblia. Cada um deles se julga A Igreja. No protestantismo, o homem se faz a Igreja.

Daí a multiplicidade das seitas protestantes, desde a Igreja Evangélica Sabão, Sopa e Salvação, até a seita Igreja Evangélica Bola de Neve, aquela que vai para o abismo.

Protestante é aquele que acredita não que “o Verbo se fez carne” – Verbum caro factum est – (Jo 1,14), mas que o Verbo se fez livro: a Bíblia.

Todo protestante faz da bíblia um ídolo.

A Revolução Francesa levou a apostasia mais adiante: não só negou a Igreja, mas negou também a Cristo. Ela dizia aceitar apenas a Deus. Mas um Deus vago, que ora foi o Ser Supremo, ora, a Razão. Para a Revolução Francesa e para o Liberalismo, se há um Deus, não sabemos o seu nome. Ela defendeu o deísmo.

Ora, como Cristo é a Verdade, ao recusar Cristo, a Revolução Francesa repudiou a Verdade objetiva. Daí o subjetivismo radical do Liberalismo – seguidor da Filosofia idealista subjetivista dos filósofos alemães – e do Romantismo, que é o Liberalismo na Arte. Cada sujeito teria a sua verdade pessoal. O que cada um pensasse, a opinião de cada um, isso, seria o real.

Assim como Lutero proclamou o livre exame da Bíblia, o subjetivismo da Filosofia Idealista alemã e da Revolução Francesa proclamou o livre exame do mundo. O livre exame da realidade.

Ora, foi no Verbo que Deus fez todas as coisas, e quando Deus tinha ideia de uma criatura em sua Sabedoria – no Verbo – a coisa passava a existir. O subjetivismo da Revolução Francesa, do Liberalismo e do Romantismo fazia de cada sujeito o equivalente ao Verbo de Deus, pois o que cada sujeito pensasse assim seria a realidade. O pensamento criaria o real. O indivíduo se colocava como o Verbo divino. Negando a Cristo, cada indivíduo se colocava como Cristo. No subjetivismo, o homem se faz Cristo.

No subjetivismo liberal, a razão individual se torna completamente independente do real, e se pretende geradora da verdade. Antes mesmo de introduzir o culto da Razão em Notre Dame de Paris, o idealismo subjetivista já havia introduzido o culto da Razão em cada cidadão.

E se cada razão individual gera o real a seu bel prazer, então se faz uma negação completa do real, admitindo-se apenas o ideal subjetivo. Ora, a negação da realidade é a negação da verdade enquanto tal. Recusar a verdade conhecida enquanto tal é exatamente a definição de pecado contra o Espírito Santo. A recusa do real é a recusa do ser como Deus o fez, que é o equivalente do verum e do bonum, dois dos chamados transcendentais do ser. E é tipicamente atitude gnóstica negar o bem da criação tal qual Deus a fez. Há, pois, um fundo de Gnose no liberalismo e no subjetivismo, o que fará do Romantismo – liberalismo na Arte – um movimento gnóstico. Ser Romântico é ser revolucionário e ser também um gnóstico. Veremos mais particularmente isto, mais adiante.

Negando a Verdade, o Liberalismo é mentiroso.

Finalmente, numa terceira apostasia, se nega o próprio Deus.

A Reforma negou a Igreja. Fez de cada protestante a Igreja

A Revolução Francesa negou a Cristo. Fez de cada cidadão o Verbo, Cristo, a Verdade.

A Revolução Russa negou a Deus. Fez de cada homem Deus.

A Revolução Russa foi ateia. Para ela nada vale: nem a Igreja, nem Cristo, nem Deus. O comunismo é a suprema apostasia, que coloca o Homem no lugar de Deus. Ela foi o triunfo da impiedade. Foi a instauração da Cidade do Homem triunfante no mundo sob a forma de humanismo. Foi o triunfo do antropocentrismo iniciado na Idade Moderna. Com a Revolução Russa de 1917, o Homem se fez Deus.

E a tragédia das tragédias foi Paulo VI ter admitido que no Concílio Vaticano II: “a Igreja como que se fez escrava da Humanidade” (Paulo VI, Discurso de encerramento do Concílio Vaticano II, 7-Dez-1965).

Tragédia misteriosa foi Paulo VI ter declarado: “Alguns acusam o Concílio [Vaticano II] ter se desviado para o antropocentrismo. Desviado, não. Dirigido, sim.” (idem).

Trágico, como já vimos, foi Paulo VI ter declarado no final do Concílio Vaticano II: “Humanistas do século XX, reconhecei pelo menos isto: Nós também temos o culto do homem” (idem).

 

V. Formas de Governo Instituídas em Cada Revolução

Cada uma das três revoluções instituiu uma forma de governo de acordo com sua doutrina.

1. A Reforma e o Renascimento instauraram uma Monarquia Absoluta, que foi uma caricatura de Monarquia. Uma Monarquia hipertrofiada, antiaristocrática, que solapou sua própria raiz. O monarca absoluto foi um tirano que pretendia ser César, soberano, ao mesmo tempo, do Estado e da Igreja. Um Rei que, conforme a Reforma, queria ser Papa, e, conforme o Renascimento, queria ser César.

Para isto os Reis absolutos deviam combater dois adversários: o Papa e a Nobreza feudal. Deviam combater os direitos da Igreja e eliminar os direitos feudais.

Luis XIV, típico Rei absoluto da França, afirmava; L’État c’est moi (O Estado sou eu) e pretendia ser o único proprietário da França, afirmando que se havia propriedades particulares em seu Reino, era por tolerância dele. No fundo, se comparado com São Luis, ele parecia um Lênin coroado.

Na religião, ele favoreceu o Galicanismo, limitando o poder da Santa Sé sobre a Igreja, na França. Nomeava Bispos, e abades a seu bel prazer, dando títulos e direitos religiosos a seus cortesãos. Bulas papais só valiam na França caso o Rei as permitisse.

O Rei absoluto tentava destruir todos os privilégios feudais, sem o conseguir. Tinha menos poder que qualquer prefeito de hoje, mas pretendia ser um Trajano.

O palácio de Versailles, embora majestoso e esplêndido exemplar de arte barroca, tinha todos os defeitos do racionalismo e do otimismo panteísta do barroco. Se artisticamente era espetacular, fisicamente tinha o mau cheiro de uma sentina, e moralmente tresandava luxúria.

Também Henrique VIII da Inglaterra foi um rei absoluto, que fundou uma nova religião: o Anglicanismo. Essa seita começou, porque o rei queria divorciar-se, e depois casar-se de novo. O que aconteceu seis vezes. Como na Roma antiga pagã, o capricho de César foi lei.

Se o absolutismo monárquico fez triunfar a heresia na Inglaterra, enquanto na França o Galicanismo foi menos pujante, isso foi porque desde o século XII, o Rei Henrique II tentou instaurar o absolutismo impondo seus caprichos à Igreja, o que levou ao martírio de São Thomas Becket.

Os soberanos absolutos instituíram as Cortes, reduzindo a Nobreza a um conjunto de bibelots corrompidos, ou a lacaios servis. Fazendo uma Corte em que os nobres viviam como numa gaiola dourada sem nada fazer, os soberanos absolutos destruíram a aristocracia. Depois do que, sem o apoio de suas raízes nobres, ficou fácil para a Burguesia derrubar um rei sem príncipes.

Além disso, os Reis absolutos, para colocar a Nobreza de lado, fizeram exércitos permanentes constituídos por mercenários. O que lhes causava enormes despesas. Para pagar tais despesas, e às do funcionalismo necessário a uma monarquia que pretendia cuidar de tudo, os reis absolutos tiveram que se socorrer de empréstimos dos grandes banqueiros burgueses…

E quem paga, manda.

O Rei absoluto se enforcou num cifrão, antes de ter a cabeça decepada na guilhotina.

2. Democracia liberal foi o regime instituído pela Revolução Francesa.

Segundo a doutrina Católica, há três formas de governo possíveis e legítimas, que buscam o bem comum: a Monarquia, a Aristocracia e a Democracia.

Não se julgue, porém, que a Democracia que a Igreja aceita seja a Democracia liberal, regime movido a dinheiro, para controlar a propaganda, a mídia, e as eleições.

A Democracia liberal afirma a igualdade de direitos políticos, o sufrágio universal, coloca a origem do poder no povo, não em Deus, o direito de revolução, o ateísmo ou o indiferentismo do Estado face à Deus, ideias essas todas condenadas pela Igreja.

Uma democracia católica tem de afirmar que nem todos têm o direito de voto, que o poder vem de Deus, que não há direito de revolução. A Democracia liberal quer a liberdade de religião, e a separação entre a Igreja e o Estado.

Uma Democracia de acordo com a doutrina católica não pode admitir a liberdade de religião, pois o erro não tem direito nem à liberdade, nem à propaganda. E uma democracia católica exige a união entre Igreja e Estado, isto é, que o Estado deve reconhecer a Igreja Católica como a única verdadeira, e favorecer sua ação e seu trabalho apostólico.

O que não significa que o Estado tenha direito de forçar alguém a ser católico. Obrigar alguém a praticar a religião à força é pecado muito grave. A união entre Igreja e Estado só não permite que as seitas heréticas propaguem organizada e publicamente seus erros, pois o erro não tem direito de ser publicamente ensinado.

3. O regime de governo estabelecido pela Revolução Russa é pura e simplesmente a Tirania Comunista.

Na tirania bolchevista, não se respeita a lei natural. Não há direito de propriedade particular. Visa-se a destruição da família. Nega-se o direto dos pais a educar os filhos. Admite-se o amor livre. O ateísmo é propagado pelo Estado e se nega qualquer direito à religião.

 

VI. As Três Revoluções na Filosofia

Assim como houve três revoluções na Cristandade, houve necessariamente também três revoluções na Filosofia, porque evidentemente cada Revolução se fundamentava em uma cosmovisão própria.

Nessas revoluções filosóficas, constatamos a existência de duas correntes, que, como duas serpentes, uma vermelha outra branca, se enrolam uma na outra. Uma é a serpente do Panteísmo racionalista. Outra a da Gnose irracionalista.

O Panteísmo racionalista diviniza o mundo material.

A Gnose irracionalista vê o mundo material como o calabouço do espírito divino nele aprisionado. E o que dificulta a compreensão desse problema é o fato que tanto o Panteísmo como a Gnose, admitindo um pensamento dialético, isto é, a identidade dos contrários, fazem do espírito matéria sublimada, e da matéria espírito cristalizado. Os contrários seriam idênticos. Portanto, para o pensamento dialético, o racionalismo é a irracionalidade, e o irracionalismo seria a racionalidade.

1ª Revolução na Filosofia: o Cartesianismo

A Reforma e o Renascimento resultaram da fusão dialética da Gnose irracionalista de Mestre Eckhart com a filosofia racionalista do Nominalismo de Frei Guilherme de Ockham. Daí ser possível constatar dois veios dialeticamente opostos na Reforma e no Renascimento.

Na Reforma, um é o Protestantismo racionalista com pretensões cientificista, no exame da Bíblia, com clara tendência panteísta. Outro, o Protestantismo alumbrado, pentecostal, que se crê movido irracionalmente pelo Espírito Santo, e que se revela como claramente gnóstico.

Por sua vez, um é o Renascimento racionalista, epicurista e materialista. Outro é o Renascimento gnóstico, mágico, irracionalista do hermetismo de Marsílio Ficino e de seus discípulos, como Botticelli, Verrochio, Leonardo e Michelangelo.

Por isso, a Filosofia correspondente à primeira Revolução foi o Cartesianismo, que continha em si, tanto um veio racionalista, como um veio irracionalista, subjetivista.

No princípio da Filosofia Moderna de Descartes está a afirmação: Cogito, ergo sum (“Eu penso, logo eu sou”).

No cartesianismo, pela primeira vez a Filosofia deixa de partir do ser, para partir do eu. O homem moderno não olha mais para a realidade exterior a si mesmo, mas se volta para dentro de si. O primeiro conhecimento seria interior.

Seria o pensamento que daria existência ao real.

É dessa revolução antropocêntrica que nascerá, séculos depois, todo o subjetivismo e relativismo da Modernidade. O conhecimento é do eu. O homem deixa de buscar o conhecimento de Deus através das coisas criadas, mas a fonte do conhecimento seria o eu e dele derivaria a realidade existente. A fonte do conhecimento e do real estaria no mistério interior do homem, numa experiência mística interior com algo imanente no homem.

Tanto que o próprio Descartes partiu de uma famosa experiência mística interior, de uma visão que o “iluminou”.

Deus estaria no homem, e de modo substancial, como dizia a velha Gnose.

Com Descartes o imanentismo irrompia, de novo, na História. A filosofia cartesiana, pondo em dúvida o real, iniciava uma corrente negadora do conhecimento humano e, portanto, defensora do irracionalismo. Descartes separou o intelecto humano da realidade.

Por outro lado – e dialeticamente – o método cartesiano afirmava que a razão humana seria capaz de conhecer toda verdade. Era o otimismo racionalista panteísta e experimentalista, oriundo do nominalismo que o cartesianismo aprofundava.

Do cartesianismo, então, vão nascer duas tendências opostas e dialeticamente iguais:

a) uma corrente racionalista, materialista, tendente ao panteísmo, e que se manifestará mais explicitamente no empirismo inglês, e, depois, nos filósofos da Enciclopédia, com Voltaire, Diderot e DAlembert;

b) outra corrente de caráter irracionalista, mística e gnóstica, que se manifestará mais claramente no Pietismo protestante alemão, e no Quietismo francês, e cujo principal divulgador foi Rousseau. Essa corrente irracionalista é que dará nascimento à Filosofia idealista alemã.

Como a dialética faz coincidir os contrários como iguais, o racionalismo e o irracionalismo se identificariam.

Com efeito, mesmo um pensador moderno que não pode ser elogiado, Karl Popper, mostrou o caráter dialético do racionalismo ao mostrar que “O racionalismo é uma fé irracional na razão” (Karl Popper, A Sociedade Aberta e seu Inimigos, ed. Edusp- Itatiaia, São Paulo – Belo Horizonte, 1974, dois volumes, Vol. II, p. 238). Pois se cada razão individual se sabe limitada, como poderia a razão humana pretender entender tudo?

2ª Revolução na Filosofia: o Idealismo Alemão

O fundamento mais profundo da Revolução Francesa e do liberalismo que dela surgiu, sem excluir Rousseau, vem do Idealismo alemão de Kant, e que foi posteriormente desenvolvido pelos gnósticos Fichte, Schelling, Hegel e Schleiermacher.

O Idealismo alemão vai aplicar o livre exame de Lutero ao próprio ser. Kant foi para o Protestantismo, – secundum quid, claro – o que São Tomás foi para a Escolástica. O Idealismo vai desenvolver as tendências subjetivistas subjacentes no Cogito, ergo sum de Descartes.

Para o Idealismo alemão, a verdade seria subjetiva. A ideia do sujeito conhecedor é que projetaria, na existência, o ser real. Da ideia é que surgiria o mundo real. O ideal geraria o real.

A verdade então não seria objetiva, mas sim subjetiva, pessoal. Cada um teria a sua verdade.

Na Filosofia escolástica, a verdade foi definida como sendo a correspondência entre a ideia do sujeito conhecedor com o objeto conhecido:

A inteligência capta o objeto como, analogamente, uma máquina fotográfica capta a imagem de uma coisa. Todas as inteligências captam a mesma realidade.

Por isso, a verdade é Una, Imutável, Universal (em qualquer lugar e em qualquer tempo, a verdade é sempre a mesma. 1 +1 = 2, sempre e em toda parte) e Objetiva (é o objeto que produz a ideia dele em nosso intelecto)

Para a filosofia idealista, a verdade seria o que o sujeito acha. A mera opinião se identificaria com a verdade. Consequentemente, o Bem e a Beleza também seriam meramente opinativos.

Para o Idealismo é a Ideia que produz o objeto. O pensar produziria o ser.

Ora, isso só é verdadeiro em um caso: no caso da criação de Deus. Isso só ocorreu com a Sabedoria divina ao criar o mundo a partir do nada.

Quando Deus cogitou cada coisa, ela passou a ser tal qual Deus a concebera em seu Intelecto divino. Por isso, está escrito que foi “na Sabedoria que Deus fez todas as coisas”, e que no Verbo de Deus é que “todas as coisas foram feitas, e sem o Verbo nada foi feito”.

O Idealismo, ao afirmar que, aquilo que cada sujeito pensa, passa a ser o real, faz de cada inteligência individual, o próprio Verbo de Deus. O Idealismo divinizou o homem.

Foi do Idealismo subjetivista que nasceu o relativismo, característico dos séculos posteriores à Revolução Francesa e que hoje, no dizer de João Paulo II e de Bento XVI, estabeleceu sua tirania sobre o mundo.

Não é só nos hospícios que cada louco tem a sua verdade. Na Democracia liberal ocorre o mesmo. E se cada um tem a sua verdade própria, fica impossível qualquer diálogo. O Mundo contemporâneo se tornou uma nova torre de Babel, onde cada um fala uma língua particular, que ninguém mais entende. Todo mundo fala. Ninguém se entende. É a era do Diálogo. É a era do ecumenismo.

3ª Revolução na Filosofia: o Marxismo ou Materialismo Histórico

Da afirmação de que a verdade é subjetiva, isto é, de que cada um tem a sua verdade pessoal, logo se concluiu que então não há verdade.

Para o marxismo, havendo uma evolução contínua de tudo, não é possível ao intelecto captar a ideia do que uma coisa é. Seria como se uma máquina fotográfica estivesse sempre mudando, e como se o objeto que se quer fotografar mudasse também continuamente. A fotografia seria impossível.

A verdade não existiria.

Porém, essa frase: “a verdade não existe” é autodestrutiva.

Pois, ou essa afirmação é certa, ou ela é errada.

Se ela é certa, nela estaria a única coisa da qual teríamos certeza, e nela estaria a única verdade. Mas, então, a verdade existiria nela.

Se a frase acima afirma uma falsidade, então, o contrário dela estaria certo, e a verdade existiria.

Nas duas pontas do dilema, a conclusão é uma só: A VERDADE EXISTE.

A negação da verdade pela doutrina marxista faz com que, o comunista que realmente acreditasse nessa tese, teria cometido o pecado contra o Espírito Santo consistente em negar a verdade conhecida como tal, pecado para o qual não há perdão.

 

VII. As Três Revoluções na Arte

Há um trabalho sobre as Três Revoluções na Arte já publicado. Agora, queremos fazer apenas uma pequena exposição sobre esse problema.

A Arte, segundo São Tomás, é a reta razão no fazer.

Ela é a transposição de uma Filosofia para um sistema de símbolos. O próprio Beethoven afirmava que havia mais Filosofia em uma de suas sinfonias do que em um Tratado de Metafísica.

Conforme Pio XII, a Arte abre uma janela para o infinito.

Com efeito, a Arte visa fazer o homem conhecer a Deus através do conhecimento do bem, da verdade e da beleza existentes nas coisas criadas. Daí, São Tomás definir: “Belo é o bem claramente conhecido”. Ora, o que é se conhece claramente é a verdade.

Portanto, Belo = Bem + Verdade.

1ª Revolução na Arte: o Renascimento

A Arte satisfaz a alma humana em seu desejo de Deus através do desejo de bem, verdade e de beleza, dando um impulso à vontade para amar o bem; uma ideia clara de verdade para a inteligência, e prazer estético, agradando a sensibilidade.

Ora, o Renascimento, repudiou a ideia de que a Arte deveria ser moral. A aceitação da falsa moral pagã fez o Renascimento querer representar prazerosamente o mal e o pecado nas obras de arte. O Renascimento afirmou a liceidade de representar o pecado com agrado e como bem. Prova disto são as obras imorais nas artes plásticas e na literatura. Basta ler o Príncipe de Machiavel para compreender a imoralidade do Renascimento. Basta conhecer a doutrina gnóstica do hermetismo ensinada por Marsílio Ficino, para estar convencido da imoralidade das obras renascentistas.

Eliminado o bem da obra de arte, o Renascimento colocou em primeiro lugar a satisfação do intelecto.

O Renascimento admitia apenas que a arte devia ser clara, compreensiva, ainda quando fosse esotérica, como nas obras de Botticelli, Leonardo e Michelangelo. Nessas obras, a Gnose é clara para quem conhece o que significam aqueles quadros e afrescos. (em trabalho futuro, exporemos o significado do verdadeiro Código usado por esses pintores em suas principais obras).

No Renascimento é possível distinguir um veio racionalista, defensor do Panteísmo, e outro veio irracionalista, mágico, e gnóstico seguidor da Gnose de Hermes Trismegisto.

Leonardo reuniu esses dois erros dialeticamente opostos numa síntese muito original.

O racionalismo queria que as obras de Arte clássicas fossem muito claras, obedecendo rigorosamente as leis da arte – (Unidade, variedade, ordem, proporção, simetria, contraste, gradação, etc.) – como também que exprimissem muito clara, ou bem consequentemente, o que queriam. Claramente, quando fossem obras exotéricas. Consequentemente, quando fossem feitas em código, exprimindo doutrinas esotéricas.

Além disso, a obra de arte clássica deveria ser esteticamente agradável à sensibilidade.

Portanto, a obra de arte renascentista tinha como falha maior a ausência do bem que deixava a vontade humana frustra e mutilava a obra de arte de um elemento essencial à beleza que é o bem.

Inicialmente, os grandes gênios da Renascença conseguiram sintetizar o racionalismo panteísta com o irracionalismo gnóstico. Porém, logo, esses opostos se repeliram, dando origem à separação do Barroco otimista e alegre, do maneirismo tenebroso, ilógico, inimigo da razão, pessimisticamente gnóstico.

Visto que esse tema é bem pouco conhecido, no Brasil, colocaremos aqui, algumas citações retiradas de um nosso trabalho, mais extenso e específico sobre as Três Revoluções na Arte).

As características do Maneirismo, filho do classicismo hermético, em certo sentido, uma Contra Renascença, são, entre outras, as seguintes:

1º – Rejeição da Realidade Objetiva: “O maneirismo assinalou uma revolução na história da arte (…) pela primeira vez a arte divergia deliberadamente da natureza” (A. Hauser, Maneirismo, Ed. Perspectiva, São Paulo, 1993, p. 16).

2º – Dualismo metafísico e consequente pensamento dialético: Para o pensamento maneirista “nada neste mundo existe de maneira absoluta, e o oposto de toda realidade é também real e verdadeiro. Tudo se expressa em extremos opostos a outros extremos, e é através desse pareamento paradoxal de opostos que a afirmação significativa é possível. (…) a verdade tem inerentemente dois lados, a realidade é bifronte e (…) aderir à verdade e à realidade implica evitar toda super simplificação e abranger coisas em sua complexidade” (A. Hauser, op. cit., pp. 21-22). Daí “a impossibilidade de alcançar a certeza a respeito de qualquer coisa”. (A. Hauser, op. cit. p. 21).

3º – Negação do conhecimento racional e de certezas é, portanto, a terceira característica do pensamento maneirista.

4º – Negação do ser; só existe o devir.

5º – Negação da identidade do ser:

Não somente a natureza da realidade externa e objetiva se modifica de acordo com o ponto de vista subjetivo, não somente tudo o que percebemos é ‘alterado e falsificado por nossos sentidos’, mas o ‘eu’ também muda tão acentuadamente de caso para caso que não há possibilidade de captar sua verdadeira natureza (…) motivo pelo qual a dúvida é lançada sobre a própria natureza e permanência do eu. Este foi o golpe demolidor contra a fé na identidade do ser humano, do qual a cultura da Renascença nunca se recuperou; sem isso não pode haver explicação para o maneirismo, seja como visão de vida, seja como estilo artístico. A distorção nas artes visuais, o uso exagerado e impaciente da metáfora na literatura, a frequência com que os caracteres no drama como outrem e questionam sua própria identidade, são apenas meios de expressar o fato de que, enquanto o mundo objetivo se tornou ininteligível, a identidade do ser humano foi abalada e se tornou vaga e fluida. Nada era o que parecia ser, e tudo era diferente do que denotava ser. A vida era disfarce e dissimulação e a própria arte ajudava não só a mascarar a vida como a discernir sua máscara (A. Hauser, op. cit., p. 49).

Expressão maior desse irracionalismo na arte foi, posteriormente, o Romantismo. Foi do Maneirismo que vieram quer o Romantismo lírico, sonhador, simbolista e gnóstico, assim como as correntes gnósticas da Arte Moderna, como o Expressionismo, o Abstracionismo, e o Surrealismo, por exemplo.

2ª Revolução na Arte: o Romantismo

Vimos que a Arte deve visar o Bem, a Verdade e a Beleza.

Assim como o Renascimento recusou buscar o bem através da obra de arte, o Romantismo recusou buscar o bem e a verdade. Na arte, o Romantismo quis buscar apenas o agradável.

O Renascimento separou a arte da moral, mas respeitou muito as leis da estética, pois super exaltou a relação entre beleza e a razão.

Ora, o Romantismo argumentou que se o decálogo não devia ser respeitado na obra de arte, por que se deveriam respeitar as leis estéticas, muito menos importantes do que os dez mandamentos?

Deste modo, o Romantismo não fez mais do que tirar as consequências lógicas dos princípios estéticos do Renascimento. Ele é uma consequência do Renascimento e, além dessa relação lógica com ele, ele tem também as mesmas fontes e princípios doutrinários: tanto quanto a Renascença, o Romantismo é gnóstico e panteísta. Nele também se podem encontrar as duas serpentes enroscadas do caduceu de Hermes. No romantismo lírico e simbolista, se oculta a serpente gnóstica irracional e mágica. No Romantismo racionalista do Naturalismo e do Realismo, se encontra a serpente do Panteísmo.

O Romantismo vai levar mais adiante o processo revolucionário na estética, declarando que a beleza nada tem a ver com a verdade. A beleza não deveria ser nem moral nem lógica, mas apenas agradável, satisfazendo então apenas à sensibilidade e não à inteligência (pela verdade) e à vontade (pelo bem). E era lógico que o romantismo recusasse a união da beleza com a verdade, dado que para a filosofia que o gerou – o idealismo – a verdade objetiva não existe.

Assim como o Romantismo esteticamente derivou do Renascimento, teologicamente ele proveio do livre exame luterano. Lutero asseverou que cada um podia interpretar a Bíblia a seu talante. O Idealismo e o Romantismo afirmavam que cada um podia interpretar a realidade a seu modo pessoal. O Romantismo, tanto como o idealismo, seu gerador, foi então o livre exame da realidade.

Para os idealistas assim como para os românticos, na correspondência da ideia do sujeito ao objeto conhecido, o elemento determinante era a ideia do sujeito. Era a ideia que criava o objeto. Portanto, a verdade era subjetiva. Cada um tinha a sua verdade particular, não existindo verdade objetiva. A realidade era subjetivizada, no sonho do lirismo, ou renegada, no realismo e no naturalismo, por seus defeitos e falhas, por ser o vale de lágrimas.

Ora, essa rejeição da realidade e da verdade conhecidas como tais coloca o Romantismo e o Idealismo como pecados contra o Espírito Santo, pecado que não tem perdão. Daí a impossibilidade quase total de converter alguém que adira realmente ao Romantismo. Fala-se-lhe à razão, ele responde com o sentimento. Argumenta-se-lhe com fatos, ele contesta com mitos ou lendas. Coloca-se-lhes ante os olhos o real, ele contesta com o sonho e a imaginação.

Por isso é muito difícil converter um romântico, porque nele há uma negação da verdade e da realidade conhecidas como tais.

Para o Romantismo, a beleza nada tinha que ver com a verdade. Belo era o que agradava, ainda que fosse objetivamente feio. O artista deveria, pois, se deixar levar por seu agrado pessoal e não pela razão. A arte não teria que obedecer a nenhuma lei racional e objetiva. A estética caía no subjetivismo e no relativismo.

São conhecidas as raízes esotéricas, cabalísticas e pietistas do Romantismo. As três raízes do Romantismo – o esoterismo, o pietismo, o idealismo filosófico – eram irracionalistas.

Os esotéricos do século XVIII tinham uma doutrina tipicamente gnóstica. Eles condenavam a razão e defendiam o sonho como meio de apreensão do real. O mundo concreto seria falso. Ele era o produto do pensamento – sonho da razão. O universo real só podia ser atingido pela anulação da razão através do sonho, da hipnose magnética, do sonambulismo, do “êxtase” ou das drogas. Ou por meio de uma intuição mística. A anulação e a destruição da razão acabariam com a dualidade sujeito-objeto, permitindo a unificação do eu com o mundo. E, nesta união, através do sonho, seria reconstituída a inocência primeira do Éden e a união com a própria divindade. Alcançar-se-ia a restauração do homem na inocência original.

Os românticos esperavam para breve um Reino de Deus na terra – que Jacob Boehme denominava o “tempo dos lírios”, Lilienzeit – reino do Amor, no qual a Lei seria abolida. Esse messianismo cabalista repercutiu no sonho romântico de um futuro Reino do Amor, no qual ressoavam ecos das teorias milenaristas do abade Joaquim de Fiore. Esperava-se para logo mais o estabelecimento de um período de felicidade perfeita na terra, como uma volta ao paraíso terrestre. Exemplo desse milenarismo romântico se tem na expectativa certa seita a respeito de um “Reino de Maria”, em que haveria cidades com ruas de cristal e catedrais de porcelana, com vitrais de pedras preciosas…

Todos os filósofos idealistas alemães foram seguidores dos ideais gnósticos de Boehme, dos esotéricos e dos pietistas. Quando eles descobriram as obras de Mestre Eckhart, eles viram nelas a expressão de seu pensamento mais profundo. A visão dialética do ser da Gnose, de Eckhart e Boehme, será adotada por Schelling, por Hegel e, depois, pelo próprio Marx.

De todo modo, esotéricos, pietistas, idealistas repudiavam a razão e levantavam contra ela a intuição – espécie de capacidade mágica e não discursiva de que o homem seria dotado, e que lhe permitiria alcançar o mundo invisível, passando por cima dos dados dos sentidos e dos raciocínios lógicos.

Essa mesma atitude face à realidade, à razão e ao estudo, com super favorecimento à imaginação e ao sonho se encontra, por exemplo, nos escritos de Plínio Corrêa de Oliveira, o “profeta” da TFP. E isso revela uma aceitação, pelo menos em certo grau, da mentalidade revolucionária e gnóstica do romantismo. Porque o romantismo era gnóstico. E por isso era também revolucionário.

Gusdorf, em sua importante obra a respeito do Romantismo afirma explicitamente que:

“O Romantismo é uma renascença gnóstica (…) Schelling é um gnóstico, cujas convicções se desenvolvem à medida que ele avança em idade, da mesma forma Baader; a Naturphilosophie impõe à pesquisa científica códigos gnósticos”. (G. Gusdorf, Le Romantisme, Payot, Paris, 1993, I vol., p. 512).

Também Simone de Pétrement acusou a Gnose escondida sob os véus sonhadores e as brumas misteriosas do Romantismo. Disse ela:

Pode-se dizer que reina, desde o romantismo, uma espécie de dualismo pessimista e sentimental, análogo ao dos gnósticos. Ele consiste sobretudo no sentimento que o homem está mal adaptado em sua própria condição, que ele se acha angustiado, que ele precisa de outra coisa (como se ele fosse estranho a si mesmo e ao mundo em que ele se acha, como s sua verdadeira natureza não estivesse nesse mundo). Nós dissemos que os gnósticos são românticos; nós poderíamos dizer igualmente que o Romantismo é gnóstico. (Simone de Pétrement, Le Dualisme chez Platon, les Gnostiques et Manichéens, PUF, Paris, 1947, p. 344).

Com efeito, o que a Revolução Francesa foi para a política, o Romantismo foi para a arte, porque ambos, o Romantismo e a Revolução, são filhos do liberalismo.

Ora, para o liberalismo não existe verdade objetiva. Em criteriologia o liberalismo é subjetivista: verdade é o que o sujeito considera como tal. A ideia que o homem tem de um objeto variaria de sujeito para sujeito.

Não havendo verdade objetiva, o certo e o errado, o bem e o mal, o belo e o feio passam a ser conceitos subjetivos. Belo é o que a pessoa considera tal. Belo é o que agrada a um sujeito. Não haveria, portanto, nem beleza objetiva e nem regras de beleza.

O subjetivismo do romântico é uma revolta contra o racionalismo clássico e, ao mesmo tempo, uma consequência dele. Lutero pregou o livre-exame da Bíblia. O Renascimento “endeusou” a razão humana. Desses dois erros nasceu o subjetivismo, pois que, sobre uma determinada questão, todas as opiniões seriam certas e verdadeiras, ainda que contraditórias.

O Romantismo foi o triunfo da imaginação sobre a razão, do subjetivo sobre o objetivo, do sensível sobre o abstrato. O Romantismo é o sonho. É a imaginação tentando negar a realidade e os sacrifícios que a vida traz consigo.

O romântico sonha que na natureza não há nem espinhos nem lama. Seus heróis – filhos de Rousseau – não têm pecado original, nem defeitos, nem tentações.

O Romantismo é uma tentativa de negar que o homem foi expulso do Paraíso terrestre, ou a tentativa frustra de tentar voltar a ele, clandestinamente, pela porta do sonho.

O romântico é sentimental. Ele busca sentir de modo exacerbado.

Edouard Schurré escreveu:

“O sono, o sonho e o êxtase são as três portas abertas para o Além, de onde nos vêm a ciência da alma e a arte da adivinhação”. (Edouard Schurré, Les Grands Initiés, in Alain Mercier, op cit. p. 207).

E Plínio Corrêa de Oliveira, apesar de se dizer contrarrevolucionário, e de se apresentar até como a Contrarrevolução, romanticamente declarou:

“A História é, na alma do homem, um movimento pendular entre o sono e o sonho”. (A Cavalaria não Morre – Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, recolhidos por Leo Daniele, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1998, p. 18).

E ainda:

“Os sonhos e as aspirações são a força motriz da História”. (A Cavalaria não Morre – Excertos do pensamento de Plínio Corrêa de Oliveira, recolhidos por Leo Daniele, Edições Brasil de Amanhã, São Paulo, 1998, p. 18)

3ª Revolução na Arte: a Arte Moderna, Negação da Própria Beleza

O Renascimento separara a beleza do bem. O Romantismo foi além, separando a beleza da verdade.

A arte moderna fará a última negação, ao repudiar a própria Beleza. Chegava-se ao fim do processo anti-metafísico. A recusa de aceitar o bonum levou ao repúdio do verum e do pulchrum. Mas, de fato, o que se fez foi repudiar o próprio ens, o próprio ser. A arte moderna é a suprema manifestação de uma revolta metafísica. Ora, a essência da revolta anti-metafísica é a Gnose. A arte moderna é uma arte que, repudiando o ser, renega a Deus e o próprio homem, que é a sua imagem.

Aniela Jaffé mostra que a arte moderna se constitui como uma recusa ou fuga da Realidade. Paradoxalmente, a arte moderna que recusa os dados racionais, pretende se apoiar nas descobertas da ciência moderna.

Diz Aniela Jaffé que freudismo, física nuclear e biologia celular revelaram que o mundo que vemos não é real. Assim como nosso verdadeiro eu estaria submerso nas profundidades misteriosas do inconsciente, assim também o mundo material, analisado atomicamente, se desfaz em partículas que são nada ou quase nada.

Levada por esse mesmo espírito desintegrador – negador – da realidade, a Arte Moderna, nega a realidade objetiva, buscando uma “outra” Realidade superior e oposta àquela em vivemos.

Busca uma super-realidade, desprovida de matéria, exatamente como a que é proposta pela Gnose. Por isso, os artistas modernos, em geral, consideram o universo criado como a obra de um Deus malvado, e que seu inimigo, que a Bíblia chama de Serpente e Lúcifer, esse, sim, seria o deus bom.

São abundantes os textos de artistas modernos que confirmam o que dizemos. Em estudo que editaremos em breve, trataremos disso. Por enquanto, basta-nos mostrar que a Arte Moderna visa o falso, o mal e o feio, que são como que “imagens” do inimigo do Criador, isto é, do demônio.

A Arte Moderna é diabólica.

Hans Sedlmayr afirmou que a Arte Moderna revela “um pensamento que renunciou totalmente à lógica, uma arte que renunciou à estrutura, uma ética que renunciou ao pudor, um homem que renunciou a Deus” (Hans Sedlmayr, La Rivoluzone dell’ Arte Moderna, Garzanti, Milano, 1971, p. 111).

Joaquim Inojosa no seu trabalho intitulado O movimento Modernista em Pernambuco declarou:

“Guerra à estética absoluta, à arte oficial, à pintura de cópia. Guerra ao belo como o fim da arte”. (Apud Gilberto Mendonça Teles, Vanguarda Européia e Modernismo Brasileiro, Vozes, Petrópolis, 1977, p. 274).

Façamos corajosamente o ‘feio’ em literatura, e matemos de qualquer maneira a solenidade […] É preciso cuspir cada dia no Altar da Arte! […]. Eu vos ensinei a odiar as bibliotecas e os museus, preparando-vos para odiar a inteligência, despertando em vós a divina intuição […] (F. T. Marinetti, Manifesto do Futurismo, Milano, 1912, apud G. M. Teles, op cit. p. 93).

A mesma insuspeita Aniela Jaffé, tem textos impressionantes, confirmando o que dizemos.

O espírito em cujo mistério a arte estava submersa era um espírito terrestre, aquele a que os alquimistas medievais chamavam de Mercúrio. Mercúrio é o símbolo do espírito que estes artistas pressentiam ou buscavam por trás da natureza e das coisas, ‘por trás da aparência da natureza’.

O seu misticismo não era cristão, pois o espírito de Mercúrio é estranho ao espírito ‘celeste’. Na verdade, era o velho e tenebroso adversário do Cristianismo que maquinava seu caminho arte adentro. Começamos a ver aqui a verdadeira significação histórica e simbólica da ‘Arte Moderna’. tal como a os movimentos herméticos da Idade Média, ela deve ser compreendida como um misticismo do espírito da terra, e, portanto, uma expressão de nossa época de compensação ao cristianismo. (Aniela Jaffé, O Simbolismo nas Artes Plásticas, – in Carl G. Jung, O Homem e seus Símbolos, Nova Fronteira, Rio de Janeiro, – pág.263).

É claro que esse espírito da terra, identificado com o velho e tenebroso adversário do cristianismo” tem um nome bem conhecido, que a própria Aniela Jaffé vai acabar por exprimir:

“No seu aspecto positivo, aparece como um “espírito da natureza”, cuja força criadora anima o homem, as coisas e o mundo. É o “espírito ctônico” ou terrestre, que tantas vezes mencionamos neste capítulo. No aspecto negativo, o inconsciente (aquele mesmo espírito) manifesta-se como o espírito do mal, como uma propulsão destruidora.”

“Como já observamos”, – prossegue Jaffé – “os alquimistas personificaram neste espírito como o “espírito de Mercúrio”, e chamaram-no muito adequadamente de “Mercurius Duplex” (O Mercúrio de duas caras, dual). Na linguagem religiosa do cristianismo, chamam-lhe diabo.” (A. Jaffé, op cit. pg. 267).

Não há dúvida, pois, a Arte Moderna é diabólica. Nela o Antropocentrismo se rebela contra o Criador, e, pretendendo fazer o homem assumir o lugar de Deus, acaba por adorar o diabo.

 

VIII. As Três Revoluções na Economia

1ª Revolução na Economia: o Mercantilismo

O antropocentrismo da Modernidade não podia senão desviar os olhos do homem para a terra. Em vez de ter por finalidade alcançar o céu, o homem, considerando-se centro de tudo, só podia colocar sua finalidade na terra e na matéria. Isto significou viver para este mundo, para seus prazeres e para suas riquezas. O ouro passou a ser o fim do homem, e não Deus.

2ª Revolução na Economia: o Capitalismo

Do Mercantilismo se passou ao Capitalismo, que foi o liberalismo na economia.

3ª Revolução na Economia: o Socialismo e o Comunismo

Se o homem deve viver só para a riqueza, se a vida é dinheiro, a vida existe apenas para produzir. Daí, Engels ter definido o homem como um animal que trabalha.

Com o Socialismo e o Comunismo, o homem passou a ser visto como uma mera peça na engrenagem da produção, visão para a qual o Capitalismo, o modo de produção capitalista, o taylorismo, a produção em série, haviam muito contribuído.

No Socialismo tolera-se a propriedade particular apenas de bens de uso, sendo todo bem de produção pertencente ao Estado. Na fase socialista, a família ainda é tolerada, mas mal vista. Por essa razão, no socialismo, se admite o divórcio e se dá direito a fazer aborto.

No Comunismo, toda propriedade, quer de bens de uso, quer de bens de produção, passa a ser do Estado. A família desaparece, instaurando-se o amor livre, e os filhos passam a ser do Estado, que os “educa” no coletivismo.

Depois da queda do muro de Berlim, parecia que não seria preciso mais provar como o socialismo é mentiroso, e como ele só produz miséria, escravidão e terror. Mas, a sede de mentira e de absurdo é inexaurível, no homem.

Bem razão teve a Igreja, quando, com Pio XI, condenou o Socialismo como a antítese do Catolicismo, afirmando, na encíclica Quadragésimo Ano, que Catolicismo e Socialismo são termos antagônicos, e que ninguém pode ser católico e socialista, ao mesmo tempo. Como teve razão quando Pio XI, na encíclica Divini Redemptoris, condenou o Comunismo como “intrinsecamente mau”.

Claro que este quadro geral apresenta apenas uma síntese, e que muito mais poderia ser dito destas três revoluções, particularmente quanto às suas raízes gnósticas e panteístas, causas maiores das crises revolucionárias, e não simplesmente as paixões, como dizia e como escreveu Plínio Corrêa de Oliveira, simplificando, e, por isso, torcendo e falseando o problema. Mas, esse aprofundamento, nós o faremos num trabalho muito mais extenso em breve, Deo juvante.

O Capitalismo tem como lema a frase Time is Money, que na verdade, dever-se-ia traduzir não como “tempo é dinheiro”, mas como “A Vida é dinheiro”, visto que a vida do homem se passa no tempo. Par o Capitalismo, Life is Money.

O Capitalismo respeitou ainda o direito de propriedade particular e a livre iniciativa.

O direito de propriedade é um direito natural e sagrado por dois mandamentos: não roubar, e não cobiçar as coisas alheias.

A livre iniciativa se fundamenta no próprio livre arbítrio humano. Negar a livre iniciativa e o direito de propriedade particular acarretam necessariamente a escravidão do homem pelo Estado.

Mas, o capitalismo, sendo o liberalismo na economia, como o liberalismo, separou a economia da Moral, e esse é o seu veneno maior.

Para o liberalismo, o lucro passou a ser o fim fundamental, não se considerando os meios de obtê-lo, se eram meios morais ou não.

O capitalismo tem nisso o seu erro maior. Por isso, o capitalismo também é revolucionário. E quantos defendem o Capitalismo, como se nele houvesse apenas o bem do direito de propriedade particular. Desse modo, a defesa do Capitalismo, sem distinção, sem crítica de seus princípios imorais se torna uma defesa da Revolução.

Outro ponto negativo do Capitalismo é a livre concorrência absoluta, que vê como um mal qualquer intervenção do Estado na economia. É claro que um excesso de intervenção do Estado na economia a atrofia, e a leva para o Socialismo, e, consequentemente, produz a miséria.

Mas, uma absoluta não-intervenção do Estado permite que os grandes capitalistas eliminem os pequenos comerciantes, e isso acaba por concentrar a riqueza nas mãos de poucos, facilitando a introdução do Socialismo.

Por isso, do Capitalismo nascem logicamente o Socialismo e o Comunismo.

O homem, como disse Cortés, ficou com uma doença em seu coração, que ele só queria “curar” com ouro. Na verdade, o ouro era um falso remédio. Era, como a droga, um vício, que quanto mais se toma, mais escraviza. O homem moderno se tornou escravo do ouro, o antropocentrismo foi um modo de o homem adorar-se, por orgulho, de viver na avareza e na cobiça, pelo amor da riqueza, e de viver nos prazeres, escravizado pela impureza.

A Modernidade é a falsa cultura em que o homem adora a si mesmo como a um Baal, ajoelhando-se diante dos três ídolos de seus vícios principais: o ouro, o prazer e a soberba.

Desse desejo de viver para a riqueza, nasceram os sistemas econômicos revolucionários: o Mercantilismo, o Capitalismo e o Socialismo.

Do mesmo modo, que nos outros campos da atividade humana, houve também três revoluções na Economia: o Mercantilismo, o Capitalismo, o Comunismo, um causando o outro.

O Mercantilismo – um capitalismo incipiente – foi o sistema econômico do tempo do Renascimento e da Reforma. Ele foi o resultado do abandono da concepção feudal, e vigorou praticamente em todo o período do Absolutismo.

O Estado absolutista, que adotou o sistema mercantilista, julgava que a finalidade humana seria buscar a riqueza, e que esta consistia no simples acúmulo de ouro.

Tudo era organizado em função do ouro.

As exportações de um país deveriam ser pagas somente a ouro. Por sua vez, esse mesmo país somente importaria através de pagamento com mercadorias, nunca pagando em ouro o que comprava. Desse modo, o ouro deveria apenas entrar no país, jamais sair.

Dever-se-ia proteger a produção, impedindo o quanto possível as importações através de taxas elevadas, e favorecer a produção interna por meio de incentivos. É o que se chamou de economia protecionista.

O Mercantilismo, no fundo, coibiu o comércio. A ambição, por medo de perder a riqueza, deixou de ganhar dinheiro.

O Mundo moderno, procurando as riquezas e não o Reino de Deus e sua justiça, aumentou a insatisfação, concentrou a riqueza, e certamente aumentou o número de miseráveis.

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