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Jean Chouan, um herói contra a Revolução Francesa

Orlando Fedeli

Jean Chouan, um herói contra a Revolução Francesa

A Revolução Francesa foi um dos maiores flagelos que já caíram sobre a humanidade e uma das principais vitórias do demônio em sua luta contra a Igreja. Impregnada do espírito protestante e do filosofismo do século XVIII, ela necessariamente viria a combater a Igreja, tornando-se essa luta o eixo de todo o movimento de 89. Infelizmente, quantos ainda hoje, e mesmo católicos, esquecem os ultrajes feitos a Deus e à Religião para apreciarem de um modo “imparcial” os fatos principais da Revolução! Estranha “imparcialidade”, que se preocupa em rebuscar e revirar a lama da Revolução a fim de encontrar nela algo bom e sadio que compense tantos horrores. Tais observadores “neutros” acabam, quase sempre, concluindo que a Revolução contribuiu sobremodo para a felicidade dos homens, porque, por exemplo, estabeleceu o sistema métrico decimal… Ou então, aduz-se o “fermento evangélico” que se encontraria nos líderes revolucionários. Que fermento evangélico seria esse, que levava a profanar as igrejas com orgias, a adorar a deusa Razão na pessoa de uma atriz de teatro, a destruir relíquias e Hóstias? Foi este fermento evangélico que inspirou, talvez, o compositor desta estrofe cantada na Igreja de Notre-Dame, em Paris:

 

Sur les autels de Marie

Nous plaçons la Liberté,

De la France le Messie

C’est la sainte Egalité.

 

Na verdade o que houve na Revolução foi espírito satânico. Ela, pregando a liberdade, perseguiu a Religião, apoderou-se dos bens eclesiásticos, saqueou as igrejas, perseguiu os Padres fiéis ao Papa. Quem não apostatasse era deportado ou morto.

Querer separar a Revolução da questão religiosa equivale a não compreender sua história. O aspecto religioso é que explica a dinâmica mais profunda da Revolução e a reação contra ela. A contrarrevolução católica e monárquica verificou-se principalmente no Oeste, numa zona que coincide com a da pregação de São Luiz Grignion de Montfort. O grande devoto de Maria Santíssima percorrera, no início do século XVIII, o Oeste da França pregando a verdadeira devoção a Nossa Senhora, o amor à Cruz e ao rosário. Seu apostolado deixou marcas profundas na região. Quase um século depois, os camponeses da Vendéia e do Maine iam à luta rezando o terço, cantando ladainhas, e tendo como estandarte a bandeira do Rei com o Sagrado Coração de Jesus no centro.

Vendéia, principalmente, desperta admiração por sua grandeza e seu martírio. Houve, porém, homens que, apesar de não terem tido oportunidade de praticar ações tão importantes quanto as da Vendéia, distinguiram-se de tal maneira por sua coragem e dedicação, que o nome de seu chefe passou a ser o de toda a insurreição no Maine e na Bretanha. Estes homens foram os primeiros a levantar o estandarte da fidelidade a Deus e ao Rei, e foram os últimos a se submeterem. Suas ações não tiveram, a princípio, grande importância militar, mas o espírito com que combatiam os elevou a tal ponto, que não ficaram aquém de um Cathelineau ou um La Rochejaquelein vendeanos. Foram os chouans, do Baixo Maine.

A região é pontilhada de morros e colinas e bem regada por rios. Os camponeses costumavam tratar as árvores de tal modo, que estas ficavam com ramos longos e troncos grossos e ocos. Os chouans usavam-nos como esconderijos. Numerosas cercas cerradas e fossos dificultavam a travessia dos campos. Tudo isto tornava a região propícia para guerrilhas.

Os camponeses eram apegados a seus costumes e profundamente piedosos. Eram também caridosos e hospitaleiros. Um provérbio local dizia que Deus faz pagar três vezes a esmola recusada. Veneravam seus Curas, que consideravam como representantes do bom Deus.

Em 1792, multiplicando-se os ataques sacrílegos às igrejas e ao Clero, os manceaux ergueram-se com energia. Alguns cantões, porém, apoiaram a república, e em geral foram justamente aqueles cujos Párocos haviam apostatado.

No total, os insurretos não passaram de 6.000 homens que alternadamente manejavam as armas e os instrumentos de lavoura. Combatiam em pequenos grupos, armando emboscadas.

O aspecto desses homens era rude. Seus cabelos eram longos. Usavam um chapéu de abas largas, no qual alguns colocavam um penacho branco, símbolo da monarquia. Outros prendiam fitas brancas ao chapéu, nas quais se liam lemas monarquistas ou frases piedosas. Vestiam um casaco de pele de cabra que os protegia contra a chuva e o frio. Levavam costurado na roupa a imagem do Sagrado Coração, e o terço pendurado ao pescoço. Suas armas eram velhos fuzis de caça; no início, alguns só possuíam um longo bordão, a “forte”, que em tempo de paz utilizavam para atravessar cercas e saltar fossos. Os chouans manejavam-no habilmente e enfrentavam com ele até dois soldados armados de sabre.

A maior parte desses camponeses adotava um apelido ou nome de guerra, para evitar represálias dos “patriotas” contra suas famílias. As alcunhas ora lembravam alguma característica pessoal, como por exemplo, Moustache (Bigode), Jambe d’Argent (Perna de Prata), la Gaieté (Alegria); ou então, eram como que lemas dos novos cruzados: Vengeur (Vingador), Sans Peur (Sem Medo), Coeur de Lion (Coração de Leão); outros ainda eram sumamente pitorescos: Benedicite (Abençoai, início da oração antes das refeições), Petit Prince (Pequeno Príncipe), Brise-Bleu (Quebra Azul, cor dos uniformes dos revolucionários), Tranche-Montagne (Corta Montanha), Mousqueton (Mosquetão), Mitraille (Metralha), Sabre-Tout (Todo Sabre), Francoeur (Coração Franco) etc.

Eram homens de coragem extraordinária que enfrentavam tropas muito superiores em número e em armamento.

Os revolucionários procuraram tornar odioso o nome dos chouans, atribuindo-lhes massacres e roubos. Chegaram até a pagar bandidos que se vestiam como campônios para praticarem crimes e assim comprometer os soldados católicos.

É certo que mesmo entre os chouans houve alguns elementos maus. Isto, porém, não era geral, tanto mais que os ladrões e assassinos tinham muito mais futuro servindo a Revolução. Basta analisar superficialmente os homens que então governavam para ver de que lado estavam os bandidos.

Os chouans eram, em regra, muito piedosos. O terço era sua oração predileta, mediante a qual pediam a vitória antes da luta. Essa mesma prece era rezada como ação de graças após o combate. Nos esconderijos passavam o tempo desfiando as ave-marias. Muitos anos depois da Revolução foi encontrado na região um esqueleto dentro de uma árvore oca. Um fuzil ao lado e o terço enroscado nos ossos da mão indicavam que aquele homem, fora um chouan.

A revolta chouan teve início em 15 de agosto de 1792, na aldeia de Saint-Ouen des Toits, por ocasião da escolha dos “voluntários” que deviam ser incorporados ao exército revolucionário. Os camponeses foram reunidos na igreja profanada. Quando se tentou registrar os nomes dos conscritos, ouviram gritos de “abaixo os patauts (termo pejorativo que designava os republicanos), nada de voluntários”. Os guardas tentaram impor a ordem, mas um homem lançou-se à frente, gritando corajosamente: “Não, não! Nada de voluntários. Se for preciso pegar em armas pelo Rei, nossos braços são dele, nós todos iremos, respondo por todos; mas se é necessário partir para defender o que chamais liberdade, vós que a desejais, combatei por ela. Quanto a nós, somos do Rei e só do Rei”. Todos repetiam as mesmas palavras. Armou-se um tumulto e os revolucionários tiveram que fugir.

Quem havia falado desse modo desassombrado era Jean Cottereau, também chamado Jean Chouan, um camponês que desfrutava de enorme prestígio na região.

Outrora contrabandeara sal da Bretanha, pois naquela província não havia o imposto da “gabela”, e o produto custava doze soldos menos que no Maine. Jean Chouan, para ajudar a mãe viúva, começou a se dedicar a esse contrabando. Foi preso, tendo escapado à morte em virtude da intervenção de sua mãe, que foi até Versalhes e obteve de Luís XVI o perdão para seu filho. Continuou, porém, a contrabandear. Em dada ocasião, numa luta entre contrabandistas e coletores de impostos, um destes foi morto. Jean Chouan teve que fugir. Mais tarde foi novamente preso, e ao sair da prisão estava transformado noutro homem.

Desde então, levou vida pacífica, até a Revolução. Sua piedade cresceu muito depois que ele saiu da prisão, e nunca mais arrefeceu. Guardou porém todo o seu prestígio de homem resoluto e hábil no combate.

Quando a Revolução se mostrou francamente inimiga do Rei e da Igreja, Jean aderiu à conjuração do Marquês de la Rouërie, que procurava nas trincheiras, levantar todo o Oeste contra os jacobinos. Aproveitou o incidente da convocação dos “voluntários” para organizar um grupo de guerrilheiros. Seu irmão François Cottereau entrara também na conspiração e fora encarregado de arranjar homens dispostos a lutar por Deus e pelo Rei. Não se decidira sem consultar um Sacerdote, que lhe mostrara todo o risco da empresa. O jovem François, cheio de idealismo, retrucou: “Não nos inquietemos com isto. É a causa da Religião que se quer defender? Se é, pretendo colaborar qualquer que seja o risco. Quanto a esperar vantagens, não, não! Além disto, sei que nesta caçada nós levantaremos a lebre, mas não lhe comeremos a carne. Não importa; se nos colocarem no bom caminho, eu me lançarei por ele entre os primeiros, e depois à la garde de Dieu! Estou resignado a tudo”.

*

Por volta de setembro de 1792, quando em Paris e outras cidades da França Padres e nobres eram massacrados nas prisões, os irmãos Chouan iniciaram a luta. O primeiro combate foi travado contra guardas nacionais que saqueavam castelos. Os chouans armaram-lhes uma emboscada, e apesar de estarem em menor número e armados, na maior parte, apenas com foices e forcados, os azuis fugiram, deixando dezoito mortos e o produto de seus roubos. Esta vitória atraiu as iras de grande número de soldados da Revolução, tendo os camponeses que se esconder e cessar a luta durante certo tempo.

Jean Chouan, contudo, não permanecia inativo. Neste período ele se dedicou principalmente à tarefa de guiar até o litoral os Sacerdotes perseguidos, que dali partiam para a Inglaterra. O trabalho não estava isento de risco. Um Padre salvo deste modo pelos irmãos Cottereau descreveu mais tarde sua fuga e os sacrifícios ingentes praticados por estes a fim de salvá-lo.

Este Sacerdote pretendia ficar na França para melhor cuidar de seus paroquianos. Mas a perseguição tornou-se tão violenta, que ele foi obrigado a fugir. Foi levado até Ernée por um camponês que o sustentara por mais de um mês, apesar de não o conhecer. Durante um dia inteiro permaneceu ali escondido numa casa, à espera de guias. Soube, então, que viriam dois chouans e teve muito medo, em vista dos rumores que corriam sobre eles.

A noite, ao vê-los, sua desconfiança se dissipou em grande parte. O aspecto dos homens era franco e leal. Um deles, sobretudo, o impressionou pelo porte marcial e olhar enérgico. Este era Jean Chouan, e o outro, seu irmão François.

A viagem até o litoral foi entremeada de peripécias. Em geral, caminhavam à noite para não serem vistos. A conduta dos irmãos era misteriosa e prudente: aproximavam-se de choupanas, faziam soar sinais convencionados, recebiam ou davam recados, e partiam.

Passaram o primeiro dia num albergue, escondidos num quarto cuja porta foi disfarçada por um móvel. O Sacerdote, ao despertar, não viu Jean Chouan no leito. Procurou-o, desconfiado, com o olhar, e percebeu-o de joelhos, rezando piedosamente seu terço.

O segundo dia de viagem trouxe maiores preocupações para o fugitivo. Os irmãos Cottereau avisaram-no de que deviam apoderar-se de um mensageiro militar. Em vista disso, precisavam desviar-se um tanto do caminho previsto. Emboscaram-se ao lado de uma estrada. Jean Chouan espalhou pelas moitas vários penachos brancos para simular grande número de homens. O mensageiro veio a cavalo, acompanhado de um guarda. Ao verem as plumas brancas agitadas pelo vento, os dois cavaleiros pararam e iam fugir quando os dois irmãos, saltando para o caminho, os prenderam. Os Cottereau apoderaram-se da mensagem, armas e cavalos, e deixaram os mensageiros em paz. François partiu com a carta e Jean Chouan continuou a fuga com o Padre.

Na manhã seguinte o Sacerdote pôde dizer missa escondido numa granja. Os camponeses do lugar ficaram do lado de fora fingindo trabalhar, enquanto por sinais combinados feitos pelo acolito, seguiam piedosamente o Santo Sacrifício. A Revolução da liberdade não permitia a celebração do culto divino… Todos receberam a comunhão, através de uma abertura na parede da granja. Em St. James, o Sacerdote e Jean Chouan quase foram aprisionados. O guerrilheiro não conhecia bem a região e tiveram que arranjar um guia. Quando passavam junto a um corpo de guardas revolucionários o guia os traiu dando alarme. Chouan e o Cura fugiram, tendo a seu encalço os soldados. No meio da corrida o Padre bateu com a cabeça num galho e desmaiou. Seu companheiro só percebeu isto depois de certo tempo; então voltou atrás, tomou o Sacerdote nos braços e recomeçou a correr até se porem a salvo. Aos agradecimentos do outro, o camponês retorquiu: “Apenas cumpri meu dever; minha vida está dedicada a proteger os realistas, como também a combater os democratas”.

Chegando ao litoral, o Padre tentou agradecer novamente, oferecendo a seu salvador toda a sua fortuna: 25 luises de ouro. O chouan recusou: “Guardai vosso dinheiro, disse. Tereis mais necessidade dele do que eu, e, por outro lado, não é por dinheiro que faço isto. Tudo que vos peço é que vos lembreis de mim em vossas orações”. Enquanto o fugitivo atravessava o canal, Jean voltava para o Maine, ansioso por recomeçar o combate.

*

Até outubro de 1793, quando o exército vendeano atravessou o Loire, Jean Chouan manteve seus homens em atividade, atacando os azuis sempre que podia. Sua base de operações era o bosque de Misdon, junto de Olivet. O bosque era muito cerrado e pantanoso, dispondo de poucos caminhos. No centro havia uma clareira, usada pelos chouans como ponto de encontro. Chamavam-na a “Praça Real”. Numa das extremidades daquele arvoredo cavaram abrigos subterrâneos, onde passavam os dias, quando o número dos azuis era demasiado.

Do ponto de vista militar, as ações dos chouans, nesta primeira fase da guerra, não tiveram grande importância. Contudo, Jean Cottereau, com apenas cem homens, obrigava os revolucionários a manterem na região um contingente de 5.000 soldados. Deste modo, conseguia aliviar um tanto a pressão exercida sobre a Vendéia.

Nas pequenas escaramuças, o líder guerrilheiro demonstrou um valor extraordinário. Não eram raros seus combates contra inimigos duas vezes superiores em número, e, às vezes, até mais.

Alguns casos podem ilustrar bem tal afirmação. Certa ocasião, 27 guardas nacionais passaram pelo bosque de Misdon e se apoderaram dos mantimentos dos irmãos Cottereau. Estes, auxiliados por dois camponeses, perseguiram os 27, encontraram-nos numa taberna festejando o feito, invadiram-na, expulsaram os azuis, apavorados diante de tanta ousadia. A seguir, voltaram carregando as provisões e dezessete fuzis abandonados pelos revolucionários.

Esta taberna foi teatro de um segundo combate do mesmo estilo. Jean Chouan reunira quarenta homens e, sabendo que lá se encontravam oitenta guardas nacionais, foi desafiá-los, dizendo-lhes: “Viemos ver se os patauts têm coragem, e hoje chegamos a descoberto, porque vocês são só dois contra um”.

Os revolucionários foram assaltados com fúria pelos chouans, dentre os quais muitos nem possuíam armas. Pouco depois, os camponeses venciam a luta, recolhendo vários fuzis. Era desse modo que, em geral, conseguiam armamento.

Para unir-se ao exército católico e real que entrara no Maine, Jean Chouan reuniu centenas de homens, dirigindo-se com eles a Laval, capital do Baixo Maine, onde já estavam sediados os vendeanos.

A entrada dos chouans na cidade foi triunfal. Seu chefe tinha arranjado um cavalo que arrastava pelo chão uma bandeira revolucionária. Seus homens o cercavam satisfeitos. O povo, admirado e jubiloso, dirigiu-se ao encontro deles. Julgava-se que os irmãos Chouans tinham sido mortos, pois os azuis afirmavam haver aniquilado todo o seu grupo. Jean radiante gritava: “Não, não, Jean Chouan não morreu! Sou eu o verdadeiro Jean Chouan. Eis-me aqui, e meus bravos comigo. O bom Deus nos salvou; viemos encontrar nossos amigos vendeanos e combater com eles pela boa causa”. Aos gritos de viva o Rei e viva Jean Chouan, dirigiram-se todos até o local onde estava o comandante, Príncipe de Talmont. Este passou-os em revista, e observando as roupas rasgadas do chefe, disse-lhe: “Vejo, meu bravo, que não julgas os despojos de um azul dignos de cobrir um soldado do Rei, e este sentimento te honra…”. Deu-lhe, então, seu próprio manto.

Jean Chouan com seus homens fez toda a campanha efetuada além do Loire, juntamente com os vendeanos, destacando-se sempre por sua habilidade em manobras, por sua bravura e resistência. Em Croix-Bataille foi ele que sugeriu e executou o estratagema do cerco ao inimigo, causa da vitória sobre o último núcleo de resistência republicana. Em Doll salvou o Príncipe de Talmont, formando uma barreira defensiva contra os azuis e dando tempo a La Rochejaquelein de contra-atacar e vencer. Mesmo fora das batalhas os chouans se destacaram. Jean Bézier, apelidado Moustache, numa só noite penetrou três vezes no acampamento inimigo, a fim de subtrair munição que faltava aos católicos.

Na batalha de Mans, os chouans praticaram inúmeros atos de bravura. Nesta ocasião morreu a mãe dos Cottereau, atropelada por um veículo na confusão da fuga. François Chouan, que há tempos se encontrava ferido, apesar de poder contar com um braço válido, mostrou-se de um heroísmo invulgar. As derrotas de Mans e Savenay dispersaram o exército vendeano. Chouan com seus homens retornou para seu bosque de Misdon. A Revolução triunfara dos vendeanos, mas não totalmente. Charette e os chouans continuaram a manter ainda bem alto o estandarte branco do Rei.

Começou, então, uma segunda fase da Chouannerie, e certamente a mais gloriosa. Para Jean Chouan, porém, foi um período de desgraça, pois quase toda a sua família pereceu, tendo por fim ele mesmo perdido a vida.

No início de 1794, Jean se fortificara mais dentro de seu reduto. Cavaram-se abrigos subterrâneos. A entrada dava passagem apenas para um homem e era bem disfarçada com musgos. Nesses tempos difíceis, os chouans ficavam, às vezes, vários dias dentro das covas. Sua única preocupação era, então, rezar o terço continuamente, para afastar os maus pensamentos.

Jean Cottereau tornara-se ainda mais piedoso após as derrotas do exército vendeano, continuando, por outro lado, a demonstrar a mesma valentia dos tempos anteriores. Sua grande preocupação nesta época foi libertar o Príncipe de Talmont, que caíra prisioneiro. Traçou um plano de ação, que certamente livraria o Príncipe. Um dos batalhões azuis de guarnição em Ernée era formado por monarquistas que tinham sido obrigados a servir nas tropas republicanas. Chouan mantinha relações com eles, os quais prometeram ajudar a libertação do Príncipe, fornecendo uniformes revolucionários para os chouans e anunciando o dia em que o prisioneiro seria transferido para o cárcere de Laval. O nosso herói esperava a informação com impaciência, mas o plano falhou por causa de uma miserável vaidade. A carta informando a transferência do Príncipe foi enviada através de um mendigo e entregue a um camponês que se vangloriava de saber ler. Por excessiva precaução o documento fora redigido confusamente e escrito com má letra. O camponês não soube decifrá-lo, e para manter seu prestígio de letrado, disse que se tratava de assunto sem importância. Por isso o Príncipe não foi salvo. Morreu heroicamente como vivera, bradando na hora derradeira: “Viva o Rei”. Contava 28 anos e constituía a maior esperança dos chouans. Sem ele, faltou-lhes um chefe capaz de organizar a rebelião de modo mais vasto e eficaz.

A guerra prosseguiu com as mesmas características: pequenos combates, nos quais os chouans demonstravam sempre alegria e piedade.

Nas vitórias, mostravam-se gratos para com Deus e despojados de ambição dos bens terrenos. Alguns exemplos o comprovam.

Em dada ocasião, os chouans tomaram uma aldeia aos azuis. Era meio dia e seu primeiro cuidado foi repicar os sinos para o Angelus. Aos primeiros toques, todos os camponeses, alegres, puseram-se de joelhos, ouvindo novamente os sinos que a Revolução emudecera. Em Saint-Ouen, obtiveram vitória completa, destroçando e pondo em fuga a guarnição. Findo o combate, reuniram todos os despojos do inimigo num campo e os queimaram, dizendo que consideravam impuro aquilo que havia servido aos republicanos.

Jean Chouan, como sempre, continuava a despertar a admiração de todos por sua coragem. Certa vez, faltando munição, atreveu-se a ir buscá-la, com um companheiro apenas, em Laval, capital da região, ocupada por forte guarnição.

Os revolucionários, por ódio àquele adversário destemido, não podendo aprisioná-lo, pilharam a propriedade de sua família e levaram consigo suas duas irmãs, que tinham apenas 18 e 16 anos de idade. Apesar de contar com poucos homens nessa ocasião, Jean armou uma emboscada para libertá-las no caminho de Laval, onde deveriam ser julgadas. Enquanto esperava, o bravo camponês recomendava a seus homens: “Camaradas, é preciso ficar aqui e não sair do lugar, até que eu ordene. Enquanto isso, rogai ao bom Deus que nos entregue os azuis e lhes tire toda esperança. Quanto ao êxito, meus filhos, eu me fio em vossa amizade e coragem; mas para obtê-lo é preciso que o bom Deus esteja conosco. Rezai, pois, sem cessar e do fundo de vossa alma”. Assim fala um verdadeiro soldado católico! Que sabedoria demonstrava esse camponês analfabeto!

Durante um dia inteiro, os chouans esperaram ao longo da estrada, por onde deviam passar as irmãs do chefe. Choveu todo o tempo. A espera foi inútil, pois os “patriotas”, prevendo alguma ação dos adversários, haviam antecipado a transferência das jovens prisioneiras, seguindo por outro caminho até Laval. Nessa cidade foram ambas julgadas e condenadas à morte por serem cúmplices de Jean Chouan. Perrine, a mais velha, terminou suas declarações dizendo: “Eu me glorio de ter Jean Chouan por irmão. Vós nos tratais como se fossemos bandidos, mas o bom Deus nos julgará também e levará em conta o que sofremos pela boa causa. Entrego-me à sua misericórdia, porque não espero de vós justiça nem piedade. Agora, nada mais tenho a dizer-vos, não vos responderei mais”. Quando foi pronunciada a sentença de morte, a menor se pôs a chorar, mas Perrine permaneceu firme. Amparou e exortou sua irmã até o patíbulo. Quis morrer, em último lugar, a fim de poupar-lhe a cena de seu suplício. Antes de morrer, fez duas vezes o sinal da cruz e bradou com energia: “Viva o Rei! Viva meu irmão Jean Chouan! Que Deus os proteja e tenha misericórdia de mim!”

*

Tendo notícia da execução das irmãs, o líder rebelde foi dominado por uma tristeza profunda, repetindo continuamente: “Há uma desgraça que paira sobre os Cottereau; nenhum escapará, minha vez não tardará: eu a espero. Tudo que peço a Deus é que meu fim resgate os erros de minha juventude; então morrerei sem pesar”.

Pouco depois, pereceu Pierre Cottereau, irmão de Jean. Estava como sentinela, e deixou-se de tal modo absorver pela oração, que os azuis o surpreenderam. Passearam-no em triunfo pelas ruas de Laval, com as mãos amarradas, as roupas rasgadas e sujas e um cartaz nas costas com os dizeres: “Cottereau, o chouan, general em chefe dos bandidos”. Durante o percurso, ele não cessou de rezar. Morreu no dia seguinte como um verdadeiro cristão.

Jean Cottereau ficou tão abalado com essas desgraças, que quase não participou mais das lutas. Limitava-se a fornecer homens para os outros chefes chouans, entre os quais se destacava o aleijado Jambe d’Argent, seu sucessor na liderança militar e no valor.

Seus pressentimentos não tardaram a se realizar. Um dia foi surpreendido com seus homens, enquanto descansava. Quando já havia conseguido fugir, ouviu o grito de socorro de sua cunhada, prestes a cair em mãos dos republicanos. Jean Chouan, voltando, ajudou-a a atravessar uma cerca e indicou-lhe o caminho da fuga. A seguir entrincheirou-se para resistir e dar tempo aos outros de se salvarem. Um tiro o atingiu, mas, apesar disto, conseguiu afastar-se do lugar, apoiando-se em sua arma. Seus homens, vendo que tardava, foram procurá-lo e o transportaram para o bosque de Misdon. Na “Praça Real”, utilizando-se de algumas roupas, eles prepararam um leito para o ferido. René amparava seu irmão semirreclinado naquele leito improvisado. Os chouans cercavam o chefe moribundo, procurando incutir-lhe confiança. O herói quis dar-lhes suas últimas recomendações: “Estou ferido de morte, bem o sei, e não viverei muito tempo. Já que o bom Deus me dá a graça de vos falar ainda uma vez, quero me apressar para cumprir meu último dever para convosco, que é de vos exortar a permanecerdes fiéis a vosso Rei e a vossa Religião. Meus amigos, tendes que passar duros momentos; peço-vos que os suporteis como cristãos. Hora virá em que sereis recompensados. Se não for neste mundo, será no outro. É esta recompensa que quero esperar para mim mesmo, se a causa pela qual me sacrifiquei pode merecer-me o perdão de meus pecados. Conto também com o socorro de vossas orações para obtê-lo, porque sei que não esquecereis vosso velho companheiro”.

Seus homens choravam. Ele designou o chouan Delière como novo chefe. Falou ainda muito, exortando-os, dando-lhes conselhos e pedindo orações. Assim passou a noite. Pela aurora cruzou as mãos sobre o peito e rezou duas horas seguidas. Por fim, pareceu adormecer. Assim morreu Jean Chouan. No meio de uma revolução em que a traição atingiu os degraus do trono e do altar, este camponês soube dar um exemplo glorioso de fidelidade e valor. Muito bem se lhe aplicam as palavras da Escritura que o historiador da Chouannerie[1] colocou como epígrafe de sua obra: Dicentes: Moriamur omnes in simplicitate nostra… melius est nos mori in bello, quam videre mala gentis nostrae, et sanctorum [Morramos todos, disseram, na nossa simplicidade… porque melhor nos é morrer em combate, do que ver os males do nosso povo e do nosso santuário (1Ma 2,37; 3,59)].

[1] Lettres sur l’origine de la Chouannerie – J. Duchemin des Cepeaux.