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Et Lux Tenebris Lucet

André Melo

 

ET LUX TENEBRIS LUCET
(E a luz brilha nas trevas. Jo 1-5)

 

“Veio para o que era seu, e os seus não o receberam” (Jo 1,11).

 

Há dois mil anos, numa pequena, escura e suja gruta em Belém, uma virgem dava à luz o Filho de Deus.

Após séculos de ansiosa espera, o criador do mundo, Deus infinito e onipotente, se fez homem e nasceu pobremente. Não nasceu como nascem os reis deste mundo. Não foi precedido por um séquito de servos, por uma corte de nobreza. Não nasceu nas dependências de um rico e suntuoso palácio, não repousou em berço dourado, nem foi coberto com ricos tecidos. O desejado das colinas eternas não encontrou sequer um teto onde pudesse nascer.

Deus muitas vezes age da forma como menos esperamos.

E como Ele sempre completa o que falta à miséria humana, enviou do céu seus anjos para realizar o que os homens deveriam ter realizado: cantar a glória de Deus nas alturas e anunciar a paz na terra aos homens de boa vontade, isto é, aos homens com o coração dócil à graça de Deus.

Convidados pelos anjos, os pastores foram as únicas testemunhas humanas do grande acontecimento que dividiria para sempre a história. Acreditando no anúncio vindo dos céus, aqueles pastores deixaram seus afazeres, seu descanso, suas preocupações e foram contemplar o mais inimaginável dos milagres, um Deus feito homem. Deus onipotente que escondia sua divindade atrás da frágil natureza de uma criança. Era preciso ter fé – e a fé é a crença baseada na autoridade de Deus somente – para crer que aquela pobre criança era o Messias prometido, o Verbo de Deus encarnado, o Redentor do mundo. Foi esse o primeiro de seus ensinamentos, a primeira lição que a Sabedoria Encarnada nos explicava, a de que devemos esperar contra toda a evidência e contra toda a esperança.

A frágil criança dependia da mãe para proteger-se do frio naquela noite de inverno, mas movia as estrelas para através delas convidar também os reis, e neles os povos de todo o mundo pagão, para virem adorá-lo. A luz da estrela que guiou os Reis Magos era símbolo da esperança, dessa virtude que nos faz acreditar na luz em meio à escuridão da noite. As estrelas são gotas brilhantes de esperança em meio às trevas da incerteza.

E porque acreditaram no que era humanamente impossível, pastores e reis foram premiados com a contemplação da cena mais maravilhosa jamais vista: o Verbo de Deus encarnado, repousando em uma manjedoura, coberto com pobres paninhos e sendo adorado pela Virgem Maria, por São José, pelos anjos do céu, por um boi e um burro.

Era noite, mas acreditaram que existia luz e que ela brilhava. E que se brilho venceria as trevas.

É sempre difícil escrever sobre o Natal. Difícil pela sublimidade do tema, difícil pela quantidade de linhas tão bonitas que sobre ele já foram escritas.

Há, contudo, sempre algo novo a ser encontrado nos tesouros de Deus que de seus mistérios nos permite colher a solução para os mais diversos problemas.

O ano que se encerra tem sido bastante difícil.

A perseguição à Missa de Sempre, que havia arrefecido bastante no pontificado de Bento XVI, particularmente com o motu proprio Summorum Pontificum¸ experimentou novo vigor com o Papa Francisco. O maior golpe aplicado contra a quase bimilenar liturgia foi sem dúvida o motu próprio Traditionis Custodes, de julho de 2021, que limita sua celebração e visa estabelecer um prazo para levar os mais teimosos a aderirem ao Novus Ordo.

A nosso ver, mais de que uma tentativa de relegar por decreto a Missa de Sempre ao esquecimento, a Traditiones Custodes é um gesto que releva a percepção da grande adesão dos católicos à Missa de Sempre, deixando-nos claro que a vitória é uma questão de tempo.

Neste ano de 2023, contudo, parece que muitos bispos têm se empenhado em aplicar o motu próprio do papa reinante. Subitamente, o clero se fez zeloso seguidor dos decretos papais e um motu próprio passou a valer como norma a ser rigidamente aplicada. Que súbito este zelo!

Em alguns lugares, a aceitação do Concílio Vaticano II como sendo um concílio da Igreja tem sido exigida. Como se a questão a ser colocada fosse a de o Vaticano II ser ou não um concílio da Igreja. É claro que ele é. Foi o 21º Concílio da Igreja. E dentre eles o único pastoral, o único que se negou a condenar o principal erro de sua época. O único que não quis condenar nada e em nome do qual tantos são condenados. A questão, pois, não é se o Vaticano II foi ou não um concílio da Igreja. A pergunta que se deveria colocar é: o que deve um católico fazer quando o Vaticano II ou quando aquilo que é ensinado em nome do Concílio Vaticano II determinam algo em contradição com os concílios anteriores, quando determinam algo contrário ao que os Papas sempre ensinaram. É essa a questão principal.

Além do campo litúrgico, em outubro ocorreu a primeira etapa do Sínodo da Sinodalidade, com a participação de 365 membros com direito a voto, incluindo o Papa, entre eles 54 mulheres. É a aplicação da democracia na Igreja.

E não tardou a chegar a primeira consequência do Sínodo. Neste final de ano assistimos perplexos a publicação da declaração do Dicastério para a Doutrina da Fé Fiducia Supplicans que permite a bênção a casais em situação de irregularidade – leia-se de pecado – e até mesmo a casais homossexuais. Em vão se tenta explicar que a bênção não é um sacramento, que não é a bênção de um pecado, e que nada mudou. A maior caridade para com o pecador é ajudá-lo em sua conversão e não abençoar as pessoas que vivem longe da lei de Deus com ressalvas mentais que não evitarão o escândalo.

Não é aqui a ocasião de analisarmos detidamente todos esses pontos, queremos apenas trazê-los para compor o cenário deste final de ano.

Para muitos esses problemas se apresentam como uma dificuldade insuportável e eles acabam então aderindo a falsas soluções como os diferentes tipos de sedevacantismo ou até mesmo certo “ecclesiovacantismo”. Afirmam que não há Papa, outros dizem que não há bispos ou cardeais validamente sagrados e nomeados e que a solução viria de uma intervenção direta de Deus. Como se o próprio Deus não tivesse prometido à Igreja sua assistência até o fim dos tempos.

Outros gostariam que os cardeais nomeados por Bento XVI convocassem um conclave, o que seria uma reedição do erro conciliarista do concílio de Pisa, em 1409.

São falsas soluções que demostram incompreensão do dogma da infalibilidade papal e da indefectibilidade da Igreja.

É justamente na época atual que é mais meritório crer. É na noite que vale mais a pena acreditar no dia. É vendo as estrelas que devemos acreditar no sol. É quando o mundo e até mesmo a Igreja parecem estar envoltos em densas trevas que precisamos acreditar que Deus agirá. Que, mesmo escondido sob a frágil natureza de um pobre menino, Ele é o Deus onipotente que move as estrelas e que fará o sol voltar a brilhar.

Que neste Natal, a luz da verdade e da esperança, a luz do Príncipe de Paz, brilhe em nossas almas e nos leve a acreditar firmemente que as trevas servem apenas para aumentar nossa esperança num amanhecer que logo chegará.

Um santo Natal!