When black (and also white) lives do not matter

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André Melo

When black (and also white) lives do not matter

Quando vidas negras (e também brancas) não importam

O ano de 2020 entrará para história de uma forma muito particular.

Foi o ano do medo. Um ano tomado por uma pandemia, pelo medo do contágio, o uso de máscaras e permanência em casa, além do distanciamento e policiamento social. De fato, em 2020 prevaleceu o medo, o medo da morte.

Deixaremos à parte dessa análise o vergonhoso papel desempenhado pelos políticos de diferentes esferas, cargos, partidos e tendências bem como o comportamento “racional” atribuído ao vírus, para nos atermos às contradições de nossa sociedade que foram expostas pela pandemia.

O mundo já passou por diversas crises de saúde. E em situações muito menos favoráveis. Nenhuma, porém, foi como a atual. Nem tanto pelo número total de mortes “oficiais”, que é proporcionalmente menor que o de outras crises[1], mas pelas reações às quais a sociedade foi levada a ter.

É a primeira vez, por exemplo, que numa pandemia não se enchem as igrejas. Dessa volta elas estavam fechadas, quer seja por determinação do Estado laico, quer seja pelos padres temendo o vírus. O resultado é que a prática religiosa ficou limitada as orações e Missas online.

Já abordamos em outros artigos[2] sobre a atitude dos santos em outras epidemias. Limitamo-nos agora a lembrar que, com pandemia ou sem ela, todos morreremos. Não dizemos com isso que a vida não tem qualquer importância. Muito pelo contrário. É um imenso dom dado por Deus, sem pedirmos ou merecermos, e não há dúvida de que temos o dever de cuidar da própria vida e de preservá-la. É o maior dos bens naturais que possuímos. Toda vida é única. E para valer bem a pena, tem que ser vivida para Deus.

A vida, contudo, não é o maior dos bens que possuímos. Ela não é o bem absoluto. A vida, como os demais bens relativos, é um benefício que deve estar subordinado a um bem maior, à glória e ao serviço de Deus que nos criou e mantém. Por isso a Igreja coloca os mártires como exemplo. Eles souberam, uma vez apresentada a ocasião, decidir acertadamente entre o Bem absoluto e o bem relativo, pois como certa vez ensinou um padre que, como tantos outros, não desamparou seus fiéis durante a pandemia – e, antes que chovam pedras, sem desprezar os cuidados razoáveis para evitar contágios –, ele assim afirmara: “o mal não é morrer, o mal é morrer mal”.

A morte é a companheira de dia a dia do sacerdote. Em certo sentido, foi para lidar com ela que ele foi ordenado. Assim, um padre com medo da morte seria algo tão estranho quanto um soldado com medo da guerra, um taxista com medo de dirigir, um médico com medo de hospital ou um cozinheiro com medo de fogão. Pois é justamente quando há risco de morte que o padre é mais necessário. A história é repleta de histórias de heroísmo de padres que se sacrificaram para salvar seus fiéis nas horas mais difíceis.

Mas em 2020 houve até mesmo igrejas em que a pia de água benta foi substituída por um dispenser de álcool em gel.

Foi um ano em que, para a sociedade de modo geral, parecia existir o único objetivo de não pegar Covid.

Sim, foi um triste ano para o homem do século XXI, tão seguro de si e tão desprezador do passado, que ele tem por ignorante e atrasado. Vendo-se sem ação, à mercê dos especialistas – há muito deles – e da imprensa sensacionalista, desesperando-se a cada dia diante da morte…

Há quem afirme que o mundo nunca mais será o mesmo. Que o “novo normal” – expressão dialética que rápida e curiosamente entrou na moda – mudará definitivamente a sociedade.

Nisso somos obrigados a concordar. A sociedade parece estar passando por grandes mudanças. Para pior, claro.

Guerras e revoluções sempre ensejaram mudanças nos costumes. A Revolução Francesa mudou para sempre a relação dos homens com a religião e com o Estado. As duas guerras mundiais trouxeram mudanças nos costumes e nos valores, além das vestimentas femininas. Isso para ficarmos apenas em dois exemplos. Guerras e revoluções geram contextos que acabam por embasar, ainda que sofisticamente, as alegadas razões que por fim levam as pessoas a aceitar uma nova maneira de encarar a realidade e a aderir às mudanças impostas à sociedade. Em outras palavras, as mudanças propostas em épocas de crise são apresentadas como soluções mágicas e redentoras capazes de criar um mundo perfeito.

É o que parece estar sendo incubado concomitantemente à pandemia. Como se o clima produzido pelo medo excessivo do vírus visasse tornar as pessoas dóceis a aceitarem todas as sugestões, normas e mentalidade recomendadas pelos especialistas e alardeadas pela imprensa e pelos influencers. E ai de quem pensar diferente. Ou melhor, ai de quem pensar.

Estando correta essa interpretação, o incidente Covid-19 poderia estar servindo de pretexto para uma mudança mais profunda na sociedade.

Evidente que um ano não se resume a um evento. E em 2020 muitos eventos concorreram paralelamente com a pandemia da Covid-19. Muitos deles parecem, contudo, soprar na mesma direção.

Por exemplo, causou vivo horror, ou aos menos deveria ter causado, o brutal assassinado do garoto Rhuan Maycon de 9 anos levado à cabo pela própria mãe e sua… namorada[3]. A criança sofria há tempos, tendo inclusive tido seu corpo mutilado um ano antes pela mãe que não concordava que ele fosse um menino. Um triste quadro que resume bem a época em que vivemos. Imagine-se como daqui a 200 anos, quando, espero, o mundo estiver numa situação melhor e as mães não assassinarem mais seus filhos a facadas juntamente com suas namoradas, como os historiadores estudarão perplexos essa nossa época. “Inacreditável!”, dirão eles: “Então eles eram capazes de coisas como essas?! Mas quanta ignorância e selvageria…”. “Para aqueles homens do século XXI a vida parecia nada valer”.

Uma mãe matar o próprio filho é coisa impossível de ser aceita. Nem no Império Romano, com todas suas crueldades, o infanticídio chegou a tais requintes. No bárbaro costume romano, o direito à vida do filho era decidido pelo pai[4], uma semana após o nascimento da criança. Via de regra, as meninas eram mortas bem como crianças defeituosas. Eram friamente abandonadas aos lobos ou lançadas do precipício. Foi a Igreja Católica que, no final século IV, fez acabar com esse bárbaro e cruel costume.

O pequeno Rhuan, que em tese teve a sorte de nascer em época mais esclarecida e tolerante, não encontrou destino diferente ao de muitas crianças romanas. Com ele foi ainda pior, pois sofreu mutilações com requintes de crueldade.

O motivo? Rhuan era odiado pela mãe e sua namorada. Simples assim.

A injustiça é clara. A criança tinha direito a viver. Afinal, toda vida é única.

A notícia, porém, logo foi esquecida. É um tanto estranho dela se fazer pouca menção…

Maior repercussão, apesar de ter ocorrido em outro país, recebeu o assassinato de George Floyd, um americano de 46 anos de idade, negro, e que foi friamente morto por um policial diante de expectadores que filmavam o crime e alertavam o policial sobre a morte iminente.

Uma vida – e toda vida é única – que foi friamente asfixiada diante das câmeras dos smartphones.

A injustiça sofrida por George Floyd produziu imediata reação em todo o mundo. Repentinamente “espontâneos” protestos explodiram por toda parte. Cartazes com dizeres Black lives matter (vidas negras importam) eram agitados. Também aqui no Brasil fomos lembrados de que temos racismo sim. Influencers¸ gestores de fama e agitadores fizeram eco ao novo chamado internacional. Recordavam-nos de que somos racistas e que as vidas negras importam.

Não podemos deixar de mencionar que nos chama a atenção o fato da morte do pequeno Rhuan, de si uma pessoa mais frágil e indefesa, não ter provocado as mesmas espontâneas comoções.

[E antes que o caro leitor tolerante lance raivosas pedras, não tolerando essas simples linhas e esbravejando por ver exposta uma contradição, permita-me dizer que, embora vivendo no século XXI, não posso renunciar ao meu direito de pensar. Sei que é um costume perigoso e há muito fora de moda, mas nunca me importei com modas. Se há algo que o incomoda, caro leitor tolerante, procure pensar e justificar com argumentos qual a razão para um crime bárbaro cometido, em nosso país, por uma lésbica, não produzir uma fração dos protestos produzidos por um crime cometido, em outro país, por um policial branco contra uma vítima negra.]

Outra tendência que parece ter sido acelerada pelo vírus foi a “consciência ecológica”. De repente, as cenas de pessoas morrendo nas ruas e hospitais passaram a dividir espaço com as imagens de incêndios em florestas, animais queimados e onças com as patas enfaixadas. Diminuir a emissão de CO² tornou-se o novo sacramento social.

E antes de mais uma vez exasperar o paciente e tolerante leitor, adianto-me para afirmar que tudo o que Deus criou é bom e pode servir ao homem sábio de escada para ascender ao Criador. Para tanto, é preciso colocar as criaturas em seu devido lugar na escala dos seres. Deus criou o universo de maneira a espelhar nele, de forma hierárquica, suas qualidades infinitas[5].

Assim, a montanha, o rio, uma árvore, um leão, uma ave são, enquanto criaturas de Deus, vestígios da sabedoria divina que nos ensinam sobre seu autor.

O universo é um livro no qual o sábio pode ler e aprender sobre o Criador (Rm 1,20).

Só aos homens e aos anjos foi dado compreender essa imensa obra. Foi ao homem que Deus deu inteligência para poder ler o livro da criação e ascender ao Criador. O homem é, portanto, o centro da criação tendo as demais criaturas sido criadas para ele.

Toda vez que essa ordem é rompida há uma quebra da harmonia desejada por Deus ao criar o universo.

É o que vemos no mundo atualmente. É o que vimos em 2020.

O ano encerrou-se com o mais triste exemplo da desordem atual.

As manchetes do dia 30 de dezembro mostravam cenas vindas da Argentina. Para o leitor desavisado pareciam imagens de final de Copa do Mundo com uma retumbante vitória argentina. Pessoas, sem máscara, distanciamento social ou crítica da imprensa, se abraçavam e comemoravam.

E o que comemoravam? A aprovação de uma lei estabelecendo que as mulheres têm direito a interromper a gravidez até a 14ª semana de gestação[6]. Em bom português, a lei dá permissão para a mãe matar o próprio filho, numa clínica higiênica e tecnológica, até a 14ª semana de gravidez.

Curioso é que um dos argumentos dos abortistas é que jamais uma mãe abortaria com alegria. Não é o que as fotos e reportagens demonstram.

Particularmente deprimente eram as cenas que se seguiram ao voto que garantira a vitória do aborto. Pareciam cenas de comemoração de um gol redentor aos 45 minutos do segundo tempo. Mulheres nas ruas se abraçavam chorando enquanto agitavam suas bandeiras verdes (sim, verdes! Como diria um certo professor: talvez só uma coincidência curiosa… Mas que curiosa coincidência!) comemorando o direito recém adquirido de… matar crianças no ventre materno.

São pessoas que agora exigem para si o direito que suas mães não tiveram quando delas estavam grávidas.

Para milhões de pessoas, o direito a nascer e viver foi negativamente decidido por 38 senadores. Nunca a vida de tantos foi tão friamente tirada por tão poucos.

Outra contradição – mais uma… – é o fato de estarmos em meio a um debate sobre a obrigatoriedade da vacina contra a Covid-19. Como argumento daqueles que são favoráveis à vacinação compulsória afirma-se que os pais não podem decidir pelos filhos e que o Estado pode até mesmo vir a suspender o pátrio poder para vacinar as crianças. Por essa lógica, os pais teriam direito a matar os filhos, mas não teriam direito de optar por não vaciná-los.

Sim, parece inacreditável, mas chegamos a este ponto, caro leitor. Vemos pessoas serem reduzidas a um “amontoado de células”. E ainda querem nos fazer acreditar que são contrários à redução de pessoas à escravidão ou ao seu confinamento em campos de concentração. Hipócritas!

O paralelo entre escravidão e aborto não para por aí. Ninguém em sã consciência aceitaria que um senhor de escravos, por ser dono de suas propriedades, pudesse esquartejar e matar um escravo de sua propriedade. Afinal, trata-se de uma pessoa. E toda vida é única. Por que então uma mãe poderia fazer o mesmo com seu filho sob alegação de ser dona de seu corpo?

Alguns ainda defendem que a pobreza à qual estariam destinados mãe e filho justificaria o infanticídio. Sofisma barato e preconceituoso, pois isso exigiria que, juntamente com a criança, sua igualmente pobre mãe também fosse morta, e que todas a crianças pobres recebessem semelhante destino.

Outros defendem o aborto de crianças portadoras de doenças como, por exemplo, anencefalia. Hitler não pensava de forma diferente.

O aborto é uma pena de morte às avessas, onde o condenado, além de inocente, não tem direito à defesa ou mesmo a um julgamento. Seu único “delito” é o de existir sem ser desejado.

O trágico ano acaba com o aborto sendo aprovado com festa na Argentina e ao redor do mundo. Mas o que tanto festejam? Por que essas pessoas se abraçavam? O que foi conquistado, afinal? Qual “direito” foi adquirido?

E, se vidas negras de fato importam, por que as vidas de fetos negros não ficaram de fora da lei?

A contraditória sociedade atual agarra-se, apavorada, à própria vida enquanto desdenha a vida alheia. Ela se esquece de que é em viver para sacrificar-se para o próximo que está a verdadeira felicidade.

Bibliografia

ORSENIGO, Cesare. Vida de São Carlos Borromeu. Flos Carmeli Edições, São Paulo-SP, 2020.

LEMOYNE, Giovanni Battista. Vida de São João Bosco. Flos Carmeli Edições, São Paulo-SP, 2017.

https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2019/10/28/caso-rhuan-maycon-mae-e-companheira-que-esquartejaram-menino-vao-a-juri-popular-no-df.ghtml

http://www.ppe.uem.br/jeam/anais/2007/trabalhos/030.pdf

https://floscarmeliestudos.com.br/desigualdade-igualdade-consideracoes-sobre-um-mito/

https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/12/30/argentina-aprova-aborto-voluntario-veja-a-repercussao.ghtml

https://www.brasildefato.com.br/2020/12/30/sera-lei-apos-votacao-no-senado-argentina-conquista-o-direito-ao-aborto-legal 

Notas

[1] Durante a peste de 1577, só na cidade de Milão, morreram 20.000 pessoas. (ORSENIGO, p. 264).

Em outra peste, ocorrida em 1854 na cidade de Turim, os mortos eram em média 60% dos contaminados (LEMOYNE, p. 446s).

[2] Conf. aqui: https://floscarmeliestudos.com.br/dom-bosco-e-a-terrivel-peste-de-colera-em-turim/

E aqui: https://floscarmeliestudos.com.br/a-pandemia-o-clero-e-os-santos/.

[3] Conf.  https://g1.globo.com/df/distrito-federal/noticia/2019/10/28/caso-rhuan-maycon-mae-e-companheira-que-esquartejaram-menino-vao-a-juri-popular-no-df.ghtml

[4] Conf. http://www.ppe.uem.br/jeam/anais/2007/trabalhos/030.pdf

[5] Conf. https://floscarmeliestudos.com.br/desigualdade-igualdade-consideracoes-sobre-um-mito/

[6] Conf. https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/12/30/argentina-aprova-aborto-voluntario-veja-a-repercussao.ghtml