Na Dutra

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Marcelo Andrade

 

NA DUTRA

 

O homem contemporâneo nasce, cresce e morre cercado de barulho. Distante do som natural, do vento, do trovão, do riacho, do canto do galo e do indecifrável das matas. Vivemos sob o afluxo dos barulhos fabricados e necessários da civilização decadente.

Ele é contínuo, rápido e sucessivo. Não diz nada além de si mesmo: o motor e a buzina dos veículos, as máquinas em geral, o televisor berrando em algum lugar e os individualizados: o fone de ouvido que acompanha cada passo, a notificação irritante dos celulares etc. Ele suja nossos ouvidos.

Vivemos no barulho como o peixe no mar, sem perceber que existe, porque estamos nele. As pessoas tratam o silêncio como um vazio existencial a ser preenchido e por isso o toleram apenas como intervalo entre dois ruídos. O barulho é ao mesmo tempo sintoma e causa de problemas. Perdemos o horizonte do belo som.

Esse mundo ruidoso e rápido briga contra o crescimento espiritual. Assim, por exemplo, no livro Imitação de Cristo (Tomás de Kempis) está escrito: “No silêncio e no recolhimento progride a alma devota, e aprende os segredos das Escrituras”.

Estamos na civilização do barulho e devemos ir contra. “Não vos conformeis a este mundo”[1], já dizia São Paulo.

A rodovia Dutra é o mundo. Ruidosa, suja e hostil.

Em muitos trechos, ela exagera. Num dos pedaços, há uma descida, sem acostamento e com pesado fluxo de caminhões. Sem horizonte, sem silêncio. Somente o peso rápido do maquinário em exercício.

Romeiros andam no contrafluxo, tangenciando os barrancos, lentos. Para eles é aclive, para as máquinas é declive.

Há os desafios internos: cansaço, bolhas nos pés, dores musculares, desânimo e dois medos: dos veículos e do anoitecer. E os externos: é subida, é vento artificial produzido pelos caminhões, pode ser chuva ou sol forte. E é o barulho, que barulho.

A única defesa é o silêncio interior, a Dutra nos obriga a isso.

É a hora da oração e da meditação. Por algum tempo, os ruídos externos e mesmo os internos são calados. “Ir contra o mundo” de São Paulo se torna mais claro que o sol forte e o “recolhimento” prescrito por Kempis chega na alma mais flagrante que a chuva na pele.

Há caminhos mais belos para chegar a Aparecida. Onde se ouvirá o som dos ventos que roçam os arbustos e se verá o contorno das montanhas.

Porém, poucos são mais simbólicos que o que enfrenta a Dutra.

 

Marcelo Andrade, 11 de julho de 2026.

[1] Rm 12,2.

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