Um rio, uma vida

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Orlando Fedeli

UM RIO, UMA VIDA

 

Toda vida principia com lágrimas. Assim também aconteceu com ele. Os rios são o pranto da terra. Dos “olhos d’água” de uma serrania distante, ele nasceu como lágrima cristalina, escorrendo depois pela face rochosa da serra.

Outros “olhos” choraram, outras lágrimas se lhe juntaram, e o pequeno filete d’água, pouco a pouco, transformou-se em torrente escachoante, despencando das pedras em espumas rumorosas.

E ele amou a grandeza da serra e o panorama imenso dos vales que se perdiam nos confins azuis, prometendo-lhe grandezas ainda maiores. Ele titubeou em lançar-se encostas abaixo, temendo não encontrar uma grandeza maior que a da serra, mas o fez, pois sabia que só na absoluta grandeza teria paz e estabilidade.

A princípio buscou-a sem ordem nem paciência. Era todo energia, altivez e irreflexão, querendo extravasar as margens, precipitando-se estouvado pelos abismos, resvalando e espumando alegre nas corredeiras, brincando em sua inocência. Foi assim sua infância de riacho travesso, vivo, saltitante. Mas não esquecia a grandeza que contemplara nas montanhas. Era ela que buscava agitado, correndo para os vales.

Mais adiante, atravessou florestas cheias de luz e sombras, murmurando para elas uma canção suave em seu leito sinuoso.

Às vezes, na mata, se espreguiçava num remanso sereno e plácido, contemplando longamente o azul do céu rebrilhando ao sol. As samambaias se debruçavam sobre ele, espelhando-se, elas também vaidosas e preguiçosas, nas águas calmas. E então tudo o convidava a parar, a esquecer sua finalidade. Lama começara a se formar em suas margens. E ele se perguntava: de onde vem esse lodo na minha pureza? E o medo de se transformar em pântano, e o azul do céu sobre ele, estimularam-no a ir mais adiante. Porque os pântanos são os pecados dos rios.

E para não morrer num charco imundo, teve que atravessar gargantas apertadas, com esforço, bramindo, lutando contra os rochedos, caindo afinal em majestosa cachoeira, num salto heroico para a imensidão do vale. O amor à grandeza prometida pelo horizonte eternamente distante exigia que ele descesse cada vez mais. Quanto mais descia e se humilhava, mais crescia. E recomeçava seu caminho com novas energias, apressado e murmurante, cada vez mais forte, cada vez mais suave, à medida em que aumentavam suas águas.

Já era rio feito, senhor de muitos afluentes, – afluentes que, humilde e imperceptivelmente contribuíam para seu engrandecimento – porque a glória do afluente está em humildemente unir-se ao rio suserano, e a glória do rio  mestre provém da unidade com seus vassalos. Ut unum sint.

Lá fluía, silenciosamente, o rio, cada vez maior, deslizando entre colinas arredondadas, em busca de grandeza infinita. Já correra tanto… jamais encontrara um lugar que o detivesse. Nada o satisfazia. Nada lhe parecia suficientemente grande. Como os nômades, queria ir sempre adiante, descobrir um lugar em que tivesse, enfim, repouso. A esperança morava além do horizonte.

Quando se extinguiria sua perene insatisfação? Quando cessaria seu perpétuo movimento? Quando a agitação findaria na estabilidade? Quando encontraria a grandeza, e nela a paz e a serenidade?

Quantas coisas vira em seu percurso, quantas paisagens, quantas cidades ricas e populosas, quantas flores de beleza passageira, quantos penhascos imóveis. Tudo passara, ou melhor, ele passara, sem encontrar a beleza perene da grandeza absoluta. Ela não estava nos panoramas, nem nas flores, e muito menos nas cidades sôfregas e ruidosas. Por vezes, dela encontrava símbolos fugazes. Nada mais. Mas cada símbolo lhe trazia novas promessas e novas esperanças. Onde estaria a grandeza? Um dia a encontraria.

Na juventude procurara-a com precipitação. Agora, amadurecido e experiente, já não se lançava loucamente adiante, já não tinha ilusões de encontrá-la escondida atrás da próxima colina.

O percurso devia ser longo. Ele seguia sempre. Mesmo quando todos dormiam, ele continuava vigilante em seu caminho, silencioso e macio pelas trevas da noite.

Lenta e sabiamente, ele se movia na planície, tateando, escolhendo cuidadoso o melhor trajeto. Seria por aqui? Não. Seria por lá? Também não. A vida lhe ensinara que só pela humildade, só descendo, se aproximava da grandeza. Fazia curvas largas, caprichosas na aparência, paciente, movendo suas águas com majestade. Seu caminhar tinha a lentidão, a força e a grandeza de um soberano.

E era fecundo… Ele fertilizava a terra. Nas várzeas imensas que percorrera, os sulcos das plantações perdiam-se no horizonte. As searas cresciam. Junto de suas margens os arrozais verdes, e mais além os trigais dourados ondulavam ao vento.

Um dia a brisa lhe trouxe uma canção diferente: um longo e forte bramido, que soou para ele como um apelo. Era o mar que o chamava e o atraia. Era o apelo que ele ouvira menino, desde as montanhas. Era sua vocação que se realizava. Para encontrar o mar, tivera que descer sempre, tivera que se humilhar e servir. Afinal, lá estava a imensidão azul, lá estava a grandeza.

Não mais o correr tumultuoso, nem o escorrer lento e divagante. Não mais agitação e mutabilidade, mas a permanência. Não mais a pequenez e a estreiteza dos vales, não mais as margens angustiantes, não mais os horizontes mesquinhos, mas a grandeza, a infinita e absoluta grandeza.

Pela humilhação e pelo serviço, ele a encontrara. No sacrifício, ele a desposaria. O velho rio ia morrer. Fez uma última curva, larga e majestosa. E então, suavemente, a primeira onda o beijou e ele lentamente se perdeu no azul infinito. E só restou o mar.

E no primeiro beijo das ondas o rio, afinal, encontrou a Grandeza.